Expressões idiomáticas são coisas que me agradam, sejam de uma determinada região, de um gênero, de uma pessoa comum que no falar preguiçoso e moleque, malemolente cria o próprio linguajar.
Muitas vezes acabo mesmo por adicionar à minha fala as expressões de outrem, como fiz com a de Chico, marido de Katya, minha grande amiga que mora em Recife. A passeio na cidade, ele foi buscar-nos de carro à saída do metrô e, no percurso até sua casa, ao parar no sinal, foi requisitado por uma pedinte, a quem respondeu simplesmente: “_hoje não!” Perfeito!!! Em geral o que fazemos nessa situação? Mentimos... Dizemos não ter trocado, o que nem sempre é verdade. Já dizer: “hoje não!” entende-se: Hoje não vou dar, quem sabe, em outro momento (por estar com ânimo de espírito diferente), pode ser que eu lhe dê. Não se está a mentir e encerra-se o assunto.
A própria Katya me brindou pela primeira vez com a expressão “até uma horas”, que em Recife é sinônimo de “muita coisa”, ao sair com: “Nossa, tem suco até umas horas”, depois de fazer uma jarra imensa de suco. Depois ouvi em várias outras situações e acostumei o ouvido a ela.
Uma vez ao trocar a água do motor do carro em um posto de gasolina, onde sempre abastecia, ao indagar o preço do serviço, que pareceu dar certa “mão de obra” ao atendente, ele reponde: “A casa cobra X.” Ou seja: “O preço do serviço é “X” mas se quiser dar uma gorjeta, eu agradeço.”
Em Passos, sudoeste de Minas Gerais, bom dia, boa tarde e boa noite, como vai você?, tudo bem?, se resume a "Bãooooo!" Já em Oliveira, ao sul do mesmo estado o mais comum é: “Oiiii Beeeem, CE tá boa/bão?”
E o lanche da tarde é sempre um: "Toma café com quitanda!"
E tem, ainda, os ditados, muitos dos quais eu herdei de minha mãe que se saía com alguns como: “Tem pobreza e tem “mundiça.” Ou de outras pessoas, como seu João, um senhor septuagenário que conheci na Bahia, à época que era técnico em piscicultura. Este senhor sempre morou na roça, em fazendas pelo interior e tinha o linguajar que pode soar rude a ouvidos mais delicados, como quando dizia (referindo-se a quem gastava demais ou simplesmente farolava): “É... quem tem tempo, caga longe.”
O próprio termo “prajalpa” que nomeia o blog, absorvi quando freqüentava os Hare Krshna do templo de Santos, onde residia à época, e que freqüentemente usavam a expressão quando os assuntos começavam a ser menos proveitosos a um devoto. “Olha a prajalpa...” Também deliciava-me com eles em situações como quando um devoto chegava cansado da jornada de vendas e divulgações dos livros e falava para o devoto interno (que cuidava do templo): “Faz uma vitamina para Krshna, vai...”, uma vez que todo alimento é oferecido a Krshna para purificação e só depois consumido pelos devotos. Ou quando um que não gostava de salada de pepino com casca dizia: “Mas você vai ter coragem de oferecer casca para Krshna??”
No Ceará, a primeira vez que fui a Fortaleza, estranhei o “Macho” anterior a uma indagação a alguém do sexo masculino, tanto quanto o Siá que também podia surgir como “siazinha”(de sinhá), precedendo a pessoa do sexo feminino.
E por ai vai... O Leitê quente de manhã do Paraná, o “Tri” e o “Bah!” que é mesmo tri-legal no Rio Grande do Sul!
Tive uma empregada cuja filha dançava no "bailé"... Afinal, bailé era coisa de baile, mas quem sou eu para corrigir? Viva o neologismo!
Foto: Djair - Tia Vicência: "Toma café com quitanda!" Casa de Tia Maída - Quebra Cangalha - Oliveira - MG.
