Sem grandes inspirações em dias tristes de chuva, interna e externa, recebo com alegria a notícia da premiação de Mario Vargas Llosa para Nobel de Literatura 2010.
O fato de um latino-americano (peruano) ganhar o prêmio não deixa de me ufanar. Sim, afinal, embora sejamos o único país do continente a falar Português, e por isto às vezes visto como não latinos, lembremos que a origem da língua vem sim do latim, o que alcunha os povos da Península Ibérica, Portugal e Espanha...
E daí, para a América, a também chamada América Católica, vista como berço de bárbaros, de iletrados, e onde, conforme informação recém divulgada pela imprensa, os estadunidenses fizeram pesquisas médicas infectando centenas de pessoas com vírus da Sífilis e Gonorréia (mais especificamente na Guatemala). É também na América Latina que povos desenvolvidos montam prisões, bordeis e resorts de luxo para seus devaneios e lazer
E porque a notícia do premio me traz alegria? Oras, pela demonstração da capacidade deste povo de produzir literatura de qualidade, da mais alta estirpe, um reconhecimento que vem de fora, divulgando com ele não apenas a literatura, mas costumes, idéias, modo de vida.
Atualmente choca-se muito ao saber sobre a extinção de espécimes das faunas e flora mundiais, mas quem se condói com a extinção de línguas, hábitos ancestrais e culturas locais, que cedem lugar à cultura importada de outras regiões e divulgada através dos grandes meios?
Nos países de língua portuguesa “Última flor do Lácio, inculta e bela”* conforme o conhecido poema de Bilac**, temos na galeria de Nobel como único representante José Saramago, que recebeu o prêmio em 1998. Falecido em 18 de junho último, Saramago é considerado o responsável pelo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa. Mesmo postumamente ele concorre ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2010, com a obra “Caim”, sua última briga com Deus em forma de livro. Saramago, ateu confesso, nessa obra acusa ao senhor dos fiéis de ser o culpado por tudo de ruim que acontece, porque afinal ele é Deus.
O Prêmio Portugal Telecom de Literatura é uma premiação internacional, que busca difundir obras de autores de países de língua portuguesa, a quinta língua mais falada no mundo, a saber: Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e, desde 13 de julho de 2007, na Guiné Equatorial.
Mas, voltando à premiação criada pelo inventor da dinamite, seis latino-americanos já ganharam o Oscar, os chilenos Gabriela Mistral e Pablo Neruda, o guatemalteco Miguel Angel Asturias, o colombiano Gabriel García Márquez, o mexicano Octavio Paz Losano e, agora, o peruano Mario Vargas Llosa. Saudações!!
* A expressão "Última flor do Lácio, inculta e bela" primeiro verso do poema “Língua Portuguesa”.
** Olavo Bilac, poeta parnasiano, brasileiro 1865-1918. Esse verso é usado para designar o nosso idioma: a última flor é a língua portuguesa, considerada a última das filhas do latim. O termo inculta fica por conta de todos aqueles que a maltratam (falando e escrevendo errado e aí haja gerundismo!!!), mas que continua a ser bela.
LÍNGUA PORTUGUESA
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amote assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amote assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!