Parece que “pisei em rastro de corno” - foi lá pelos 1970/80 que ouvi pela primeira vez a expressão. E nem foi no Nordeste, onde surgem tantas e tais frases e expressões jocosas a respeito dos traídos, dos enganados, dos ludibriados, dos cornos... A expressão se refere àqueles dias ou momentos de azar, em que nada parece dar certo; a culpa de tudo então seria o corno, que teria passado por algum lugar próximo onde pisamos, e daí ter atraído a má sorte... Afinal, alguém que é corno disseminaria essa perniciosa “vibração”.
E daí, após isto me ser explicado, vinham os variados 'causos', como o do marido que matou a mulher por ele ter dito que aquele dia tudo tinha dado errado na vida dele, que só tendo mesmo pisado no rasto de um corno da orelha bem cabeluda (e não me perguntem a relação dos pelos com os córneos que não saberei responder, ainda que me remeta ao fato de ter lido ou ouvido alguma vez que os chifres dos rinocerontes seriam formados por pelos daquele tanque de guerra). Mas voltando ao azarado em questão, a mulher dele teria respondido no ato: “Mas também homem, você fica só pra dentro e pra fora, pra dentro e pra fora... numa referência a que ele pisaria no próprio rastro, e portanto, era ele o corno em questão. Daí ele ter tomado a frase da mulher como confissão da traição e a teria matado. Se tal caso é verdadeiro, também não era o dia de sorte dela... Talvez por ter pisado no rastro do próprio marido...
E quem não conhece um corno? Os mansos, os conscientes, abundam em cidades interioranas; aliás, reza a lenda que em Cezídia, lá pros lados do bairro dos Benicíos, um deles teria morrido de chifre, e antes que me acusem de mentiroso explico o fato, conforme me foi contado. O marido da desfrutadora (naquele tempo não se usava o termo 'pegadora') em questão era dos cornos mais mansos que já houvera por ali, consciente absoluto da cornitude; enrolava os chifres como os de um carneiro e, manso como o bicho em questão, levava a vida à calma, sem importar-se com a alegria da esposa, fazendo de conta nada saber. Um dia, eis que ao acordar pela manhã, teria dado com um enorme par de chifres de boi em cima do capô de seu carro, que trazia pichado ao vidro a expressão: “Fulano: Corno manso.” E me poupo de não citar o nome do corno, que na hora teve um ataque cardíaco fulminante e morreu, dai a cidade toda a comentar em tom de sussurro: morreu de chifre!
Chifres, melhor não tê-los, mas em tendo, melhor não sabê-los, muito embora a literatura erótica traga noticias de cornos contumazes que sentiriam prazer em saber ou ver as esposas a ter relações com outros... Embora, a mim, seja difícil imaginar que se sinta prazer ao ver o cônjuge a fornicar com quem quer que seja, taras, gostos e manias os há de todos os tipos. Vai saber se na verdade em assim os vendo realizem as fantasias de estar no lugar delas... Tudo muito cheio de elocubrações, sensações que não se ousam revelar, interpretações equivocadas... ou não... Enfim, tudo muito esquisito, pelo menos aos gostos convencionais. E não, não vou entrar na discussão do “é normal, mas não é natural” e vice-versa ou qualquer outra semelhante.
É óbvio quer há aqueles que não tem o cuidado necessário com seus cônjuges e os encaminham ao leito de outros, por falta de carinho, de amor, de atenção, de apetite sexual... E também os há por um fogo nas “bacurinhas” e nos “santinhos” que não são aplacados em casa. Também há a cultura do macho que tem que trair, e da mulher que tem que se vingar, e assim há traições e cornos de todo o gênero, em altos números e em graus impressionantes.
Não há como não falar nos que tem prazer em tornar alguém corno, seja pelo desejo à mulher ou marido alheios, ou por ser justamente do outro, e ai voltamos ao capítulo das taras. Uma vez inclusive, duas conhecidas conversavam sobre uma terceira que só gostava de homens casados, e uma dizia a dar risadas: vai ver que é porque assim ela sabe que funciona.
Há aqueles que, após uma corneada bem tomada, tomam-se de mais amor e carinho pela amada, e vai saber se não é justamente por adivinhá-la com outro. Vai saber se no fundo ele não gostaria também de estar com o outro, ou se pelo fato de ela ter outro ele se sente desprezado e só assim a valoriza, por medo de ser deixado definitivamente. Mais ou menos como o brinquedo que em criança jogamos no fundo do quintal por ter enjoado, cansado da brincadeira, por ter aquele perdido a cor, estragado uma rodinha, ou seja lá o que for... Um dia, um priminho em visita, um filho da vizinha, uma criança qualquer, entra em nosso quintal e se encanta por ele, e ai, mimados que somos, corremos, tomamos dele, e abraçamos o velho brinquedo que ali estava jogado e esquecido, e fazendo bico e cara de mau, dizemos: “É meu!”
Abençoados sejam os cornos; se não os houvesse, pense que grandes obras literárias teríamos perdido... “Madame Bovary”, “Ana Karenina”, “Gabriela” e quem sabe até Capitu, que não se sabe ao certo se o Dom era de fato corno, ou não, e a dúvida persiste, e por isso Casmurro. Será que se tivesse sido sanada o faria Dom Alegre? Afinal de quem eram mesmo os ciúmes: da mulher ou do amigo? De quem a traição pior? Ah, as traidoras do século XIX...
Mas deixemos os cornos em paz, que não atravessem nossos caminhos para que não tenhamos que pisar em seus rastros. Afinal chifres, reza a lenda que até o diabo os tem.