domingo, 30 de setembro de 2012

Mercedes Sosa, e a libertação dos povos da América Latina.

        Aquele dia à tarde nos reuníamos na casa de Marco, gim com coca-cola (naquele tempo eu ainda não sabia que era bem melhor com água tônica); o grupo era pequeno mas animado, o papo fluía solto e as risadas podiam ser altas e escancaradas tal como só fazemos quando realmente entre amigos, sem censuras ou controle. E assunto não nos faltava, entre petiscos e goles as narrativas frouxas se sucediam com viço. A varanda permitia que brisa fresca amenizasse o calor, e ali divertíamos nós, embalados por músicas que gostávamos, e uma hora Marco colocou um CD de Mercedes Sosa: àquele tempo era assim, Mercedes Sosa na casa de Marco, já na casa de Anna, ouvíamos Elis à beira da piscina e tomava-se whisky, que aliás nunca aprendi a gostar. Se era na casa de Otaviano, tomávamos vinho e ouvíamos a trilha de Blade Runner, na de Socorro Simone, na de Elizabeth Caetano, em casa era Cazuza, Legião Urbana e Marina, e assim nossa trilha musical era diversificada, e todos gostávamos das referências uns dos outros, bebíamos as bebidas que eram oferecidas, e variávamos comes, bebes e sons.

        Mas àquele dia era a ameríndia quem tocava nas caixas de som colocadas na varanda, onde nos espalhávamos na rede, nas almofadas, nas cadeiras, enfim... A voz forte embalava nossos comentários sobre ela, sobre sua oposição ao presidente da Argentina, seu país, Carlos Menem, que naqueles anos era paparicado por outra estrela, esta não da música, mas dos programas infantis, no Brasil, Xuxa, a quem ele também se derretia em elogios e segundo constava na época chegara a lhe propor casamento, mas enfim...

        
        Ouvíamos já a terceira ou quarta faixa do disco quando entra à varanda, saído de dentro da casa, o irmão de Marco, caçula, já temporão, devia ter seus 9 ou 10 anos e pergunta sobre a música: _Marco, isso aí que vocês estão ouvindo, isso é macumba em inglês, é?
E Marco: _Não, isso aí, é Mercedes Sosa!
_E ela canta assim desse jeito porque?
_Porque ela canta para libertar os povos da América Latina!
_Ah, entendi! E tu vai ser libertado, vai?
_Vou sim! - responde sorrindo!
_E o Zé Roberto, vai? - referindo-se ao irmão mais velho.
 _Ah, o Zé Roberto não vai não, porque ele não gosta das músicas dela...
Um instante de silêncio e o irmão caçula confessa:
_Xi, Marco, acho que eu também não vou ser libertado não...

 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Quem disse que tristeza é um sentimento ruim?


            “Tem dias que a gente se sente, como quem partiu ou morreu.” 

 

        O Verso é de Chico, o Buarque de Holanda, é bom falar, vá que confundam com o Xavier, o de Assis, o das Chagas ou pior, o Picadinho... Mas voltando ao verso e aproveitando o cinza do dia, que anuncia chuva mais tarde e nem por isso perde o abafado que faz o dia moroso e pesado.  Quem não tem dias que não tem vontade de levantar da cama? Quem não passa mal em alguns dias, e um “passar mal” no sentido de não aguentar a si e aos outros muito menos;  e quer mais curtir a tristeza a depressão, a “percundia” – como diz minha tia Tereza, em casa, sem ninguém perturbando?


            Porque não cultuar a tristeza de forma salutar? Deixar que ela penetre até os ossos, e fria, densa, manifeste-se em lágrimas, em poemas sem nenhum valor literário, mas ricos nas propriedades do ridículo, do desabafo, da terapia e que de quebra podem ser rasgados libertando o coração, queimados se o triste em questão é chegado a um efeito especial (pois que nessas horas os melodramas podem ser vividos sem vergonha), e curtidos exorcizando a tristeza que de outra forma viria em algum momento envenenar o pulmão (já que segundo a medicina oriental é ali que as doenças geradas por tristeza se manifesta)? E porque não com um gim tônica na mão ao som de fados? Já ao terceiro (gim e não o fado) costumo sentir-me melhor. E é hora de trocar os fados de Amália e Mariza pelos tangos-fado de Cristina Branco.

 

            Porque todos têm obrigação de estarem bem e felizes o tempo todo? A ditadura da felicidade é fomentadora da superficialidade e da falsidade; tudo tem a dose certa, óbvio, e a soturnidade também; deixe que escureça, que o chumbo desça sobre os olhos e caia ao vale do rosto em torrentes de salgadas lágrimas. Estamos perdendo a capacidade de chorar, e isto não nos faz mais felizes. É preciso que a tristeza escorra, ou seque, mas em conformidade com a necessidade que sentimos desses momentos, sem sentir vergonha, sem se sentir ainda pior por não “estar bem”.

             Só assim depois a alegria terá um apimentado a mais, e os risos não serão tão fúteis, e os momentos de sol terão brilho maior. Não há receita para alegria, para felicidade, mas ainda é um bom remédio deixar que a tristeza venha e depois expulsá-la porta a fora, varrendo todos os seus resquícios, como se limpa a casa, passando pano molhado pra refrescar e tirar pó e sujeiras dos cantos. Até porque não creio em alegrias constantes como naquelas de comerciais de margarina. Afinal, depois daquele lindo café, alguém vai lavar a louça, recolher o cocô do lindo cão que está ali ao lado, e o iogurte pode não cair bem e dar uma cólica daquelas na beirada do umbigo, seguida de aquosa e fétida diarreia.

 

Deixa a tristeza vir e ficar um pouquinho, você aguenta. E depois mãos à obra, expulse-a, ou dê um até breve. Nada de Núbia Lafayete ou Maysa com seu “Bom dia Tristeza”,  vá de Maria Bethania: “levanta, sacode a cabeça e dá a volta por cima”.

E antes que venham conclusões precipitadas, a respeito de eu estar triste, hoje estou bem alegre, apenas resolvi escrever sobre tristeza, pois é um sentimento também salutar, embora já tenha dito o poeta compositor: É melhor ser alegre que ser triste.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Dores, Insetos e flores


     Enquanto a dor dá uma trégua depois de medicamento este, medicamento aquele, aproveito para escrever. Segundo os dois médicos a dor é muscular e pede repouso, como assim? Eu já estava de repouso quando ela surgiu, mas como disse uma amiga, depois dos 40, quando você acorda sem nenhuma dor pensa logo: morri?

      Enfim, passará, em algum momento; assim, sempre se espera que pinceladas de mercúrio cromo ou emplastros de penicilina curem arranhões, como quem espera que leis da Maria da Penha curem caráter, quem espera que tiros no ouvido, cortes nos punhos ou enforcamentos curem almas doentes, corações feridos e doenças do espírito.

       Pela janela observo que as formigas acabaram mais uma vez com as roseiras e fizeram passeio pelas azaleias e nem o manacá escapou de sua voracidade: ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil. Desde a infância do país elas fazem raiva, e ainda hoje sobrevivem; não sei de onde vêm em seu famélico assalto noturno. Como os que atacam geladeiras à noite, elas aproveitam a escuridão para se fartar, como o hóspede que tive que abriu os dois potes de doce de leite que trouxe do Serro, quando da ida a Diamantina. Comeu ambos, inclusive o que era um presente a uma amiga, tapou, colocou-os de volta ao fundo da prateleira, vazios, deixando à frente um outro, que estava aberto para consumo, intacto, num gesto sombrio que nem as formigas ousam, afinal, elas não disfarçam – apenas devoram.

      Preciso comprar um pacote de “isca” para que se dê cabo delas. Elas perseguem meus jardins, desde Floriano no Piauí ao da casa de Ubatuba; elas tem algo pessoal contra mim, contra os jardins que planto. Ou eu acabo com as saúvas ou elas acabam com o jardim. Não se pensa que elas habitam a maior cidade da América do Sul, em meio a tanto asfalto e sulphur jogado diariamente no ar da urbe pelos escapamentos de milhões de carros, mas as pequenas bestas são como gente... resistem.

      Não tenho pena delas como tenho das lagartas, essas com sua voracidade dirigida às folhas; depois virarão borboletas e sempre penso: se matar todas as lagartas as borboletas acabam, e aí lhes dou saladas de samambaias e outras tantas plantas, e pelo menos algumas delas terão asas coloridas a flutuar como pétalas bailando pelo ar, beijando flores fixas de outro reino (a saber o vegetal). Os caracóis também são poupados, mas só em dias de extrema doçura, como às vezes me ocorrem – sim, até “Ming - o impiedoso” tem seus dias de “Pollyanna”. Mas nada garante que no dia seguinte sejam esmagados sem remorso, mas, naqueles raros momentos, poderão carregar o peso de suas casas às costas, peso que apenas eles sentem, assim como os bibliotecários que carregam o prédio às costas (unica profissão cujo nome do local de trabalho está no nome da profissão: biblioteca+rios).

      Os tatuzinhos, que Júlia tanto ama também são poupados, o máximo que lhes acontecem é passear por instantes nas mãos da pequena que com seus dois anos lhe dirá: abre!, abre! esperando-os desenrolarem para devolvê-los a terra. Aliás, algumas das composteiras devem já ter terminado sua alquimia, pela qual cascas de frutas, ovos e legumes, pó de café, folhas e outros orgânicos se tornam terra nutritiva, que encherá vasos, floreiras e canteiros e que se transformarão em folhas e flores e frutos novamente.

      Todas essas lembranças e reflexões vindas de um instante à janela roubado ao repouso que se supõe restaurador, enquanto a dor esquece-se de mim por um momento, e se os analgésicos foram eficazes em fazê-la adormecer, esses pensamentos emanados da vista do jardim, que está descuidado desde a primeira leva de repouso há alguns dias, são mais eficazes em acalmar o pensamento.

      Hora de voltar à cama e a mais uma leitura, enquanto o tempo passa e o corpo cura.

Fotos: Djair - Flores do jardim  de casa.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Quem tem olhos, sem catarata, que veja!

A cirurgia foi ótima, repetiu hoje pela terceira vez desde que a fiz, o oculista simpático, novinho de tudo e cortês, falava como um pintor satisfeito com a própria tela. Agora já vendo, lendo perfeitamente, ainda que com a ajuda de um óculos que tinha abandonado há anos por tão fraco que tinha se tornado, volto a escrever no blog, e porque não falar disto? Afinal, a cirurgia de catarata dava-me medo. Embora todos falassem ser simples e a conhecessem a mão-cheia quem já fez e se deu bem, o medo estava instalado. Nunca havia feito uma cirurgia, a tratar-me há 17 anos com homeopatias e acupunturas nas vezes em que foi necessário um acompanhamento que ultrapassasse a barreira dos chás.

Provado está, cientificamente e pela sabedoria popular, que o estado de ânimo influencia em muito nas recuperações, nos tratamentos, etc, etc... e o meu era de medo, agora enxergando de verdade, vendo as nuances nas faces com as quais converso, as quais já tinham perdido os contornos ante o manto branco da catarata, percebo que encontrava-me bem deprimido. Mas como seria diferente se para ler tinha que fechar o olho acometido pela luminosidade excessiva, se cores se faziam manchões ante um fragmento de seus matizes que não tinham contorno algum?

 E eis que no dia seguinte à cirurgia, na retirada do tampão, já conseguia enxergar sem os halos, sem os borrões, sem que a luminosidade do dia, das lâmpadas ou da teleVISÃO ofuscasse tudo.

E aí, na rede social, coloco a foto com o tampão que suscita logo 35 comentários e 26 “curtidas”. Agradeço de uma só piscada, logo depois da cirurgia:

“Queridos, segundo o médico a cirurgia foi muito boa, amanhã tiro o tampão do olho e se Deus quiser enxergarei tudo! Muito obrigado pelas vibrações, pelas mensagens, telefonemas, etc... Isso fez toda diferença, podem ter certeza.
Grande abraço a todos.”


Foi o auge da fama. E vejo surpreso as 55 “curtidas” e 44 comentários, seguidos por telefonemas, interurbanos inclusive, 11 publicações espontâneas na minha página na mesma rede social, visitas que vêm me ver, torpedos que são enviados com votos de saúde, torcendo por mim, o suficiente para me fazer sorrir, sentir-me querido. Não há como a cirurgia não ser mesmo um sucesso – como diz o cirurgião simpático e envaidecido de sua obra.

Fora isso, o período que antecedeu: amigos de várias nuances espirituais, católicos, protestantes, umbandistas, kardecistas, evangélicos a fazerem preces, orações, vibrações, pontos e novenas... eita, que é para sentir-me querido mesmo. Ainda ranzinza, com a língua afiada, exagerado em sentimentos de simpatias e antipatias, ainda consigo me fazer querido por tanta gente.

Um boçal a fazer piadinhas pelas costas teria sido: “operação de hemorroidas, afinal tudo é olho”. Esse palavrório chulo, não merece maiores comentários; afinal têm pessoas que por onde passam trazem o sal que não deixam que no rastro brote sequer capim. Mas deixemos pra lá essa gente feita de escuras sombras, sabe-se lá que tipos de cirurgia elas andaram a fazer por aí...

Afinal o texto de hoje é para agradecer aos que torceram por mim, aos que se preocuparam comigo, aos que se ofereceram para acompanhar-me na cirurgia, a Maluce que foi buscar-me, ao Félix que me levou à consulta seguinte, aos que pediram por mim em suas crenças! A Henriqueta, que me preparou com carinho e afeição verdadeiros manjares nesses dias de recuperação onde deveria ficar longe do fogão. Ao Jair que me auxiliou em tudo, sentirei falta dos cafés na cama. A Deus! Obrigado!

Foto: Jair Leal Piantino :  Djair - O autor do texto

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Réquiens...



            Zuleica ia para o hospital, para uma internação que não seria a última, mas a primeira de um processo que antecederia seu desencarne num processo lento e denso, doloroso. Para ela, para todos que a cercavam, para todos que a conheciam. Ela a agarrar-se à esperança que só os doentes graves têm de que serão curados. De que terão dores sanadas e saúde recuperada.
            Aquele dia mal se iniciava e a carreguei no colo, os dois pavimentos, descendo a escada até a sala e depois outra, até o carro. Sem fazer força, sem suores, num medo apenas de não lhe oferecer conforto em meus braços durante o trajeto. Não pesava mais que uns 40 quilos, peso que não senti. È esse momento o de lembrança maior, quando me lembro dela já no estado de adoecimento, e embora prefira me lembrar dela em Ubatuba, na praia, a  tomar uma cervejinha, ou a passar cera na ardósia da casa, aquela lembrança é mais presente. Ainda assim é melhor que outras de sua via crucis, por sondas alimentares e demais internações. Uma noite, quando ainda podia alimentar-se com as próprias mãos, Vera, sua prima, perguntou, prestes a descer ao café do hospital, se ela queria algo, ao que animadinha responde com a mesma vontade com a qual se agarrava à vida: “Um pãozinho de queijo”, com a voz fraca dos que têm o pulmão em falência, mas os desejos de uma mineirice enraizada, mesmo após décadas fora do torrão. Era a mesma vontade com que havia comido no Natal anterior, seu último Natal, os pastéis que Henriqueta, sua irmã, fez, com o costume da mãe delas, que os preparava sempre no dia do nascimento do Cristo. Zuleica surpreendeu por comer e repetir, quando já não mais tinha quase apetite. E assim agarrava-se a esses pequenos prazeres gastronômicos, talvez os últimos que tinha, até que partiu, mansa e suave, ao encontro do jazigo da família, com uma maquiagem feita pela funerária, na qual se destacava um batom completamente fora da cor e tom dos que usara a vida inteira.
Quando Zé Luiz morreu, depois de meses de uma depressão profunda, em que nada o animava, em que a psicóloga, que frequentou 03 vezes por semana por mais de década, mais metia-lhe medo que certezas a respeito de tudo, cheguei junto com Jair, a um só tempo, no portão do prédio. Apenas nos abraçamos sem dizer nada, cada um vindo acelerado de um lado da cidade. Nos abraçamos fortemente e entramos. Recebidos pelos irmãos do Zé, fomos direto ao quarto onde há pouco ele partira de vez; depois de dias com medo de dormir teria dito: “_Ah, vou dormir... Foda-se!”
E partiu, partiu como um passarinho... Na cama embaixo dele ainda o molhado de urina, ele inerte naquela poça, o corpo já a esfriar...  Lavei-o, era a última coisa que podia fazer por ele. Pelo corpo daquele amigo tão querido. O corpo depois foi à funerária, e depois do velório seguiu embalsamado para Belém, onde ele havia nascido, onde estavam pais e irmãos que pouco o tinham visto na última década. Ficaram as lembranças, do jeito, do riso... De como nos dias de transmissão do Oscar, em que ligava para nós a cada intervalo do espetáculo, só para tecer comentários, ansiosos, ansiosíssímos e às vezes exaltados. Da risada dele, de como quando eu comprava algo e ele imediatamente comprava um igual, dizendo entre risos: “Nossa, eu comprei tal coisa, ninguém nunca pensou em comprar um desse modelo!” e riamos a valer... o jeito como repetia frases minhas, como se fossem suas, fazendo cara de bonachão e arrancando-me gargalhadas. Foi em paz!
           
            Rafael foi dormir e não acordou mais... O ataque cardíaco fulminante que muitos invejam... Sem doenças corroendo, sem acidentes traumatizantes, sem falências que deixam à cama sem sentidos, sem memória, simplesmente... Foi! Não deu tempo de se despedir, não deu tempo de dizer nada. O que vale é que o fazia constantemente, falando o quanto gostava, fazendo dedicatórias em livros, reclamando do que achava injusto, fazendo piada das pessoas de posicionamento contrário. Não deu tempo de cumprir a promessa que me fez uma semana antes de uma visita surpresa. Aquele dia, o  da promessa, ele estava feliz! Era a primeira vez que dirigia o carro atravessando a cidade. Orgulhoso com a proeza, com a coragem e com o desenvolvimento da aventura. Ainda meio que espero a visita, num sonho talvez... Ficou a lembrança do jeito cômico do excelente ator que era, dos comentários jocosos e ferinos que ele mesmo fazia de si, de suas peças, dos outros... A lembrança do jogo de limpar lareira que compramos pro Sítio de Cunha, de onde ele me trazia pinhões e histórias de caseiros, de caipiras. De vidas...
            Os três se foram.
            Três dores, três saudades, três pessoas que gostavam de mim, a menos no mundo. E hoje a saudade bateu deste jeito...
            Estejam bem... E me aguardem... Eu também vou, acho que vou demorar... Mas vou... Só não me cobrem pontualidade.
           
 Foto: Djair - O infinito, visto através de um dos arcos do Mosteiro dos Jerônimos - Lisboa Portugal.


Requiem - Fauré Gabriel Fauré (1845 - 1924) Requiem in D minor

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Pisando em rastro de corno.

            Parece que “pisei em rastro de corno” - foi lá pelos 1970/80 que ouvi pela primeira vez a expressão. E nem foi no Nordeste, onde surgem tantas e tais frases e expressões jocosas a respeito dos traídos, dos enganados, dos ludibriados, dos cornos...  A expressão se refere àqueles dias ou momentos de azar, em que nada parece dar certo; a culpa de tudo então seria o corno, que teria passado por algum lugar próximo onde pisamos, e daí ter atraído a má sorte... Afinal, alguém que é corno disseminaria essa perniciosa “vibração”.
            E daí, após isto me ser explicado, vinham os variados 'causos', como o do marido que matou a mulher por ele ter dito que aquele dia tudo tinha dado errado na vida dele, que só tendo mesmo pisado no rasto de um corno da orelha bem cabeluda (e não me perguntem a relação dos pelos com os córneos que não saberei responder, ainda que me remeta ao fato de ter lido ou ouvido alguma vez que os chifres dos rinocerontes seriam formados por pelos daquele tanque de guerra). Mas voltando ao azarado em questão, a mulher dele teria respondido no ato: “Mas também homem, você fica só pra dentro e pra fora, pra dentro e pra fora... numa referência a que ele pisaria no próprio rastro, e portanto, era ele o corno em questão. Daí ele ter tomado a frase da mulher como confissão da traição e a teria matado. Se tal caso é verdadeiro, também não era o dia de sorte dela... Talvez por ter pisado no rastro do próprio marido...
            E quem não conhece um corno? Os mansos, os conscientes, abundam em cidades interioranas; aliás, reza a lenda que em Cezídia, lá pros lados do bairro dos Benicíos, um deles teria morrido de chifre, e antes que me acusem de mentiroso explico o fato, conforme me foi contado. O marido da desfrutadora (naquele tempo não se usava o termo 'pegadora') em questão era dos cornos mais mansos que já houvera por ali, consciente absoluto da cornitude; enrolava os chifres como os de um carneiro e, manso como o bicho em questão, levava a vida à calma, sem importar-se com a alegria da esposa, fazendo de conta nada saber. Um dia, eis que ao acordar pela manhã, teria dado com um enorme par de chifres de boi em cima do capô de seu carro, que trazia pichado ao vidro a expressão: “Fulano: Corno manso.” E me poupo de não citar o nome do corno, que na hora teve um ataque cardíaco fulminante e morreu, dai a cidade toda a comentar em tom de sussurro: morreu de chifre!
            Chifres, melhor não tê-los, mas em tendo, melhor não sabê-los, muito embora a literatura erótica traga noticias de cornos contumazes que sentiriam prazer em saber ou ver as esposas a ter relações com outros... Embora, a mim, seja difícil imaginar que se sinta prazer ao ver o cônjuge a fornicar com quem quer que seja, taras, gostos e manias os há de todos os tipos. Vai saber se na verdade em assim os vendo realizem as fantasias de estar no lugar delas... Tudo muito cheio de elocubrações, sensações que não se ousam revelar, interpretações equivocadas... ou não... Enfim, tudo muito esquisito, pelo menos aos gostos convencionais. E não, não vou entrar na discussão do “é normal, mas não é natural” e vice-versa ou qualquer outra semelhante.
            É óbvio quer há aqueles que não tem o cuidado necessário com seus cônjuges e os encaminham ao leito de outros, por falta de carinho, de amor, de atenção, de apetite sexual... E também os há por um fogo nas “bacurinhas” e nos “santinhos” que não são aplacados em casa. Também há a cultura do macho que tem que trair, e da mulher que tem que se vingar, e assim há traições e cornos de todo o gênero, em altos números e em graus impressionantes.
            Não há como não falar nos que tem prazer em tornar alguém corno, seja pelo desejo à mulher ou marido alheios, ou por ser justamente do outro, e ai voltamos ao capítulo das taras. Uma vez inclusive, duas conhecidas conversavam sobre uma terceira que só gostava de homens casados, e uma dizia a dar risadas: vai ver que é porque assim ela sabe que funciona.
            Há aqueles que, após uma corneada bem tomada, tomam-se de mais amor e carinho pela amada, e vai saber se não é justamente por adivinhá-la com outro. Vai saber se no fundo ele não gostaria também de estar com o outro, ou se pelo fato de ela ter outro ele se sente desprezado e só assim a valoriza, por medo de ser deixado definitivamente. Mais ou menos como o brinquedo que em criança jogamos no fundo do quintal por ter enjoado, cansado da brincadeira, por ter aquele perdido a cor, estragado uma rodinha, ou seja lá o que for... Um dia, um priminho em visita, um filho da vizinha, uma criança qualquer, entra em nosso quintal e se encanta por ele, e ai, mimados que somos, corremos, tomamos dele, e abraçamos o velho brinquedo que ali estava jogado e esquecido, e fazendo bico e cara de mau, dizemos: “É meu!”           
            Abençoados sejam os cornos; se não os houvesse, pense que grandes obras literárias teríamos perdido... “Madame Bovary”, “Ana Karenina”, “Gabriela” e quem sabe até Capitu, que não se sabe ao certo se o Dom era de fato corno, ou não, e a dúvida persiste, e por isso Casmurro. Será que se tivesse sido sanada o faria Dom Alegre? Afinal de quem eram mesmo os ciúmes: da mulher ou do amigo? De quem a traição pior? Ah, as traidoras do século XIX...
            Mas deixemos os cornos em paz, que não atravessem nossos caminhos para que não tenhamos que pisar em seus rastros. Afinal chifres, reza a lenda que até o diabo os tem.
           

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Salve latinha

            Aquele dia, à noite, brincávamos na rua, que era uma rua em “L” sem saída, onde poucos tinham carro; afinal, naqueles anos 1970, carro era um artigo raro, e o ar das cidades muito melhor, assim como o transporte público, o trânsito, a educação das pessoas, mas enfim, a rua era larga e propiciava um lazer ótimo, eram piques, queimadas, garrafões, mãe-da-mula, balança caixão, e tantos outros que realmente faziam nossa alegria e com que fossemos assim, íntimos, de uma intimidade sem malícia e uma proximidade irmã.
            A brincadeira daquela noite era “salve-latinha”, uma espécie de esconde-esconde, onde jogávamos uma lata à maior distância que nossos pequeninos braços podiam, e quem estava na vez tinha que ir buscá-la, na maior carreira possível, afinal era o tempo que tínhamos para nos escondermos. Lata na mão, lá vinha o caçador, e a postava no local determinado, em geral quase ao meio da rua, a uns dois metros em linha reta do poste, onde ficava pousada ali, enquanto quem estava na vez, procurava os escondidos, ao  “achar” o escondido, corria até a latinha e batia com ela no chão por três vezes, dizendo: fulano está em tal lugar. Cada um dos encontrados ficava junto ao outro, que se mantinha com uma das mãos no poste, formando uma corrente e esperando a salvação. Caso o acusado corresse mais, pegasse ou chutasse a latinha, estaria salvo, ah, e o primeiro a ser achado, seria o “buscador” na próxima rodada; em compensação, se o último conseguisse se salvar e tocasse a mão do último que estivesse na “corrente de meninos” salvaria a todos os outros, e recomeçava-se a brincadeira com aquele jogando a latinha e o mesmo menino ficando de buscar os demais.
            Minha casa ficava depois do cotovelo do “L” que a rua formava,  sendo que os fundos davam para o quintal da casa da Ana, filha de nossa vizinha da direita, cujo nome já não tenho na memória, mas que  se lembra da imagem dos presépios que ela montava. Bem, Ana, que fora morar ali logo depois de se casar, cortava caminho com o consentimento de meus pais, pelo quintal de casa, subindo uma escada que meu pai colocara ao fundo do quintal, logo atrás do abacateiro, para este fim, pois a rua de cima ficava num nível mais alto. 

            Não lembro quem jogou a latinha aquele dia, nem recordo-me quem foi buscá-la, só sei que corri, corri pela avenida (era onde iniciava-se o “L” e onde jogávamos a latinha) no sentido contrário ao que ela foi jogada, me escondi num vão e esperei que o buscador entrasse na rua, continuei e dei a volta na quadra, entrando pelo quintal de casa, desci a escadinha esbaforido, fui até a esquina e me abaixando via já uma longa fila de meninos junto ao poste. Voltei em casa, peguei um lençol novo que minha mãe tinha comprado por aqueles dias, embrulhei-me todo, coloquei uma peruca de minha mãe, peguei no quintal um bastão, algum cabo de vassoura provavelmente, enverguei a coluna e lá fui andando imitando um andar claudicante...
            Passei pelo buscador, que guardava a penca de meninos vigiando ao meio da rua, já que faltava apenas um, do qual ele estava determinado a não deixar se aproximar e muito menos salvar os demais... Nisso só ouvi alguém dizer: deixa a velhinha passar... E o buscador afastou-se e, como um relâmpago, corri a todo fôlego, dei a mão ao último menino, chutei a latinha e salvei a todos. Fizeram uma algazarra tremenda, e eu, sentindo-me vitorioso, era ovacionado pela molecada. Quem disse que não há momentos coroados?

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Noite de Lua Cheia... Uivemos.

 

Foto: Estela Takahachi (Tomie) Lua em  vista no céu de São Paulo, 2012.


Ontem indo à dentista, caminhando, pela rua, já noite, olho e me deparo com uma das mais belas luas que pude ver nessa cidade. Cheia, tão branca quanto a poluição da urbe permite, o que quer dizer que estava mais pro amarelo, bege, ou o que o valha, e perderia feio para a vestimenta da asséptica Silvia (a dentista citada), com sua roupa descartável que a deixa com ares de noiva, de orixá, de freira da ordem das Marcelinas; enfim, a lua não tinha o seu branco total radiante, mas ainda assim bela, mística, encantadora... Sim, sim, tens razão, é um texto piegas, daqueles que luas e romances suscitam.
Afinal, a lua começou a desencadear lembranças a seu respeito, de uma vez que eu revoltado sei lá com quê, possivelmente comigo mesmo, pois as revoltas sempre são com o desalinho em que nos encontramos com as situações, estejamos certos ou não. Estava de bode, portanto, e uma amiga daqueles distantes anos 1990 chamou a atenção para o quanto estava bela a lua, e eu, que só dei conta de minha condição mental naquele instante, respondi: Devia cair!
Mas a de ontem, ah, a lua de ontem. Fez-me lembrar de Minas, de Ubatuba, quando pela estrada à noite, a dirigir, sempre que a oportunidade aparecia, parava o carro em um trecho de estrada sem luz para apreciar lua e estrelas. A visão do céu no planetário é linda, mas artificial, nada a que se possa comparar a delicia de parar numa estrada longe de luzes artificiais e contemplar o céu. E daí me veio à cabeça o romance da lua, cantado por Amelinha nos (mais distantes ainda) anos 1980, tradução de um poema de Garcia Lorca, em Romanceiro Cigano,  onde os ciganos, apossando-se da lua, “com seu coração fariam anéis e colares brancos.” E veio-me à mente a imagem de ciganos a trabalhar pedaços de lua com martelos, bigornas em fogueiras, que também combinam com ciganos, e em fornos, que devem servir a isso, a trabalhar metal, a forjar joias e não armas, a servir para assar bolos, tortas e biscoitos, e não gente. Sejam de que etnia, religião, ordem forem, tenham o sexo ou preferência sexual que tiverem, sejam inocentes ou filhos da puta, até porque muitas putas tem filhos bons, muitas putas são boas mães, e putas também têm sentimentos e moral. E a lua brilha pra elas também.
Não, não me lembrei da “Lua de São Jorge” do Caetano, que só agora me ocorre, mas dos ciganos, das putas, do desejo que ela caísse. Não me lembrei do anel da Lua que Omar Cardoso, astrólogo, fazia propaganda em tempos em que se acreditava que ele (o anel) era feito com pedras trazidas da lua por astronautas, eu cujo uso seria de alguma forma benéfica.
Lembrei de outra lua cheia, linda, à beira da praia de Boa Viagem, em Recife, e outras tantas luas... A maior delas em João Pessoa, em uma noite linda enquanto comíamos um belo pargo frito e tomávamos cerveja a guisa de jantar. Pois é, a lua ainda me suscita essas coisas, o que me leva a concluir que ainda não estou de todo perdido... É isso... Hoje tô de Lua.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Deus salve a gafe nossa de cada dia

Hoje, como volta e meia acontece no meio político, do esporte e qualquer outro, foi dia de gafe. Ao anunciar as atletas da seleção de de futebol feminino da Coreia do Norte, foi exibida no telão do estádio em Glasgow, na Escócia, a bandeira da Coreia do Sul. Provavelmente alguém perdeu o emprego, ou no mínimo levou uma “encarcada” daquelas. Ainda mais em se tratando que a gafe envolve países rivais politicamente e que se estranham amiúde. As jogadoras saíram de campo antes da partida contra a Colômbia e retornaram depois de mais de uma hora. Organizadores emitiram pedido de desculpas e, apesar do constrangimento, o que poderia abalar a equipe da Coreia do Norte, serviu para (ao que me parece) estimular, e ela venceu a Colômbia por 2 a 0.
            Mas... Quem nunca cometeu uma gafe? E tantas, e quantas? E feias? Daquelas que fazem rir e viram causos àquelas que tiram noites de sono e causam remorsos. Eu as coleciono às dúzias, e me puno mentalmente por elas, por minha irreflexão e falta de tato, então deixemos elas lá bem quietinhas e falemos das dos outros, que a nossos olhos condescendentes são sempre menos graves e mais risíveis que as nossas, afinal a vergonha foi do outro.
            Uma que nunca esqueço foi ainda em Cezídia; naquele dia, à noite íamos todos a uma boate, recém-inaugurada e bem afamada por ter bom som, bom DJ, etc, etc, etc. Estávamos todos na casa de Pedro, a quem eu tratava de padrinho, por ter apadrinhado um relacionamento fugaz mas que serviu para dar-lhe tal alcunha.  Enfim, éramos umas 10 pessoas, fizemos as contas e já prontos vimos que precisaríamos de dois táxis, mais a entrada da boate, mais bebida, etc.; sairia uma grana a diversão noturna, mas a noite prometia. Descemos todos e vimos uma faixa na quadra do prédio, haveria uma festa com bingo em uma das casas vizinhas, não sei de quem partiu a ideia, mas... E se fôssemos à festa ao invés da boate, a diversão seria a mesma, dança, bebida, risada, etc, etc... Todos de acordo nos encaminhamos para lá... Ocupamos duas mesas no jardim e lembro que consumimos duas caixas de cerveja e uma de refrigerantes. Conhecemos a Marta e sua irmã, que moravam no mesmo prédio do padrinho, um andar acima e que juntou-se a nós. Ríamos, contávamos causos, um ou outro entrava e dançava por um tempo e depois voltava. O resto do pessoal? Bem... Pouquíssima gente, a festa fora um fiasco, e até por isso e por sermos um grupo que consumia, éramos tratados pelo rapaz que organizara o mico com o maior apreço, afinal prejuízo pouco é bobagem.
            Uma das meninas foi embora, não lhe lembro mais o nome, apenas que era bonita.. E fanha... Fosse eu Machado de Assis, e fosse o blog Dom Casmurro teceria: “Se fanha porque bela, se bela... porque fanha?” Mas enfim o causo era que a essas horas estávamos todos na mesa a cantar e, à saída dela, que era uma das mais cantantes, começamos todos a cantar imitando-lhe a nasalação, e dá-lhe “Encosta sua cabecinha no meu ombro e chora, e chora, e choooora...” Pode não ter graça aqui, mas a maldade feita em grupo, e depois de várias garrafas de cerveja, era de despertar gargalhadas homéricas, altissonantes, intermináveis. E para quem  está a esperar que ela voltasse e nos pegasse no ato e daí viesse a gafe da história em questão... Pois bem... Isto não aconteceu...
            Bem, voltando à festa, Victória, que não bastasse o pré-nome de glória tinha que ser Régia, era das mais animadas com a dança lá dentro, e vinha à mesa volta e meia contar uma piada ou fazer um comentário jocoso... E lá vinha ela a adentrar de novo o “salão de baile”. Numa dessas ouvimos uma discussão... Quem era? Victória... A própria... Envolvida numa tonitruante discussão com outra menina...
            O namorado da moça tinha se engraçado por Victória, e Victória tinha achado muita graça no rapaz, já a namorada daquele... ficou séria e daí veio a discussão, - aliás porque sempre as moças vão tirar satisfação com as outras e não com os mancebos? – Enfim, a moça queria que fossemos embora, etc, etc... O rapaz dono da festa tomou-nos as dores e mandou que ela sim se retirasse; nossa amiga volta passada à mesa, narrando sua versão do acontecido e pedindo mais cerveja. Para o rapaz dono da festa, ela começa a desabafar: onde já se viu... Ah, mas eu conheço essa menina, ela trabalha lá na *Censurado que eu não sou besta*, não é? E ele: É, é sim... Pois ela vai saber quem é Victória Régia não sei das Quantas, ela me aguarde que vai ter noticias minhas. Isso é uma histérica que tá precisando mesmo de macho, e sobe o morro, e desce barraco, e de tão fina vira uma lavadeira (que segundo reza a lenda tinham um linguajar chulo e vulgar). Desabafo feito, ela pergunta ao rapaz que pacientemente ouvia mas agora queria que a gente fosse embora... Ela é o que aqui? Organizadora? Dona da casa??? E o rapaz: Não... é só minha irmã...
                E você, vai contar a sua?

Foto: Anjinhos barrocos, safadinhos - São João del Rey

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Fiado só amanhã!

Engraçado, nos propomos às vezes a escrever sobre uma coisa, e o texto como que ganhando vida própria vai serpenteando aqui e ali nas lembranças e aquela que nos despertou para aquele assunto se recolhe a seu quarto, entre outras, se aconchega e adormece, sabe-se lá até quando. Foi assim no texto da última semana; sem querer tratar de assuntos mais pesados, uma vez que estou doce, como campari, por esses dias, fui falar das navegações pelos bares da vida, daqui, dali, de além. E... o que me despertou para o tema foi a lembrança de Parco. Porém, no fim, o texto tomou outro rumo, a prosa cresceu e ele ficou comportadamente quieto em seus aposentos, no fundo da memória, e como arguto e gaiato que era, saiu daí a pouco, tão logo o texto já estava publicado e comentado por alguns queridos amigos que honram-me seguindo este blog, comentando, participando, do blog, dos textos, de minha vida. Mas para que o fantasma de Parco não venha assombrar-me, volto aos bares com ele.
Parco era um colega dos tempos em que eu andava com o pessoal do teatro, no interior; depois de ensaios era comum encontrarmo-nos todos e ir para algum boteco, tomar uma cerveja, ou duas, ou doze. Saíamos todos juntos, cada um rumo a sua própria casa e era um acordo tácito e silencioso que, antes de chegar à avenida onde nos desvencilharíamos,  cada qual pegaria uma rua diferente, pararíamos em algum bar. Afinal era verão, lá sempre era verão, mesmo quando o frio forte fazia os termômetros chegarem à marca dos 23 graus. Brrrrr...
Mas enfim, logo alguém dizia, à primeira vista de um boteco agradável: vamos tomar uma cerveja? Todos assentiam... Menos... Parco. Parco logo falava: Eu não vou, vão vocês que eu tô devendo naquele bar.  Bem, estávamos juntos, ninguém ia sem ele e seguíamos o caminho. No próximo alguém lembrava: vamos ali então? E Parco: Ah, ali não dá. É que tô devendo lá. Como ainda faltava bom trecho, passando em frente a padaria, alguém falava: e aqui? Ah, não rola porque tô devendo, dizia Parco. E assim íamos até achar um bar que ele não devesse. Nunca soube, se era pura blague, apenas para fazer gênero ou por não curtir o visual, música, ou o que quer que fosse, o fato é que ele dizia dever na maioria dos bares de  Cézidia. 
Com o tempo passamos a beber sempre no Arco da Velha, um boteco estiloso que tocava MPB e tinha mesas na calçada. Parco sempre pagava, e já fazia uns dois, talvez três meses, que bebíamos ali pelo menos duas vezes por semana; era certo nos encontrarmos lá. Até que um dia passávamos, Parco se adiantou e falou a Marco, o dono, que àquela altura já nos conhecia: “_Marco, hoje eu tô sem grana, será que você pode fazer um fiado até amanhã?” “Claro, fiquem à vontade, pode chegar!” - respondeu ele com enorme sorriso prestativo. Sentamos e... mal Marco trouxe a cerveja e afastou-se rumo ao balcão, ouvimos Parco em tom de confabulação: “_Ah, gente, vou sentir tanta falta! Eu gostava tanto desse bar!...

Foto: Djair - Confeitaria Nacional - R. dos Correeiros - Lisboa Portugal.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Saúde!!!

Em “A queda para o alto” no poema a um pai adotivo, Anderson Herzer (Sandra Mara Herzer), poeta brasileiro, com auto-identificação lésbico-transexual, diz: “Quando você morrer, eu vou tomar um porre! Pra compensar todas as vezes que você me aporrinhou.”...
Às vezes dá mesmo vontade de tomar um porre para curar os aporrinhamentos do dia-a-dia, das forças contrárias, dos pensamentos retrógrados, das aporrinhações repetitivas, maçantes, cansativas, extenuantes... Mas... fizesse isso e já estaria na fila do transplante de fígado. O mais próximo que aguento são uma ou duas ou cinco taças de vinho, ou um copo ou outro de gim-tônica, sobre o qual aliás, uma conhecida que cansou de tomar em casa agora torce o nariz dizendo não gostar de bebidas perfumadas; ah, esse povo influenciado pelas bichas  finas e semanários da editora abril... tsc, tsc...
Mas o fato é que, em medida moderada, acompanhado por bate-papo com comentários risíveis, ainda que profundos, faz um bem danado, e se o álcool ataca o fígado, a risada o desopila, já que não dá pra evitar o amargor que vem de fora: uma dose de campari amargando por dentro faz milagres. Aliás campari só tem um problema, se é que isto é um problema: dá tesão. Lembro que, ainda no fim do colegial, comentávamos sobre isso e a Alda falou que não, pois tinha tomado uma garrafa de testa, com o Francisco, e ele nem tinha sentido nada, ao que ele rebateu olhando fixamente para ela: “E você por acaso encostou em mim? Pra ver como eu tava?” Foram ótimas gargalhadas; Alda aquela noite estava linda, de vestido vermelho, um belo colo torneado pelas alças finas, cabelos à altura dos cotovelos. Ela sentava-se imediatamente em frente a mim, teríamos prova, mas tendo faltado o professor da primeira aula fomos a um bar em frente ao colégio... Beber o quê? Lembrei-me da propaganda do Conhaque de Alcatrão São João da Barra, que no reclame parecia delicioso; pedi um, Alda outro, aquilo desceu queimando, um horror, um pavor, um terror... Só lembro que durante a prova Alda ria a cada vez que eu cochichava: Alda, tu estás bêbada?
Com Myrna, La Gioconda dançante, uma vez fomos à Casa do Norte em Higienópolis, antes que mudasse de dono e este trocado os garçons, fazendo com que não fosse mais nosso boteco predileto, mas àquela noite ainda era e não fosse pelo metrô encerrar-se à meia-noite, ainda hoje estaríamos ali, tanta cerveja, tanto papo, tantos segredos trocados, e tanta, mas tanta risada, que a felicidade foi buscar conosco um pouco de alegria para distribuir aqui e ali a quem merecesse.
Em outra época, meu bar preferido era na Canuto do Val, o Espetinho Cerveja e companhia, da Lilian Gonçalves, que volta e meia sentava conosco e contava algum causo. Nossa!, tomei não jarras, mas baldes de sangria ali, tinha o melhor frango a passarinho de Sampa, Márcia era gerente de lá e sempre, sempre, nos conseguia mesa na calçada, independente de tão cheio estivesse. Frequentei até pouco depois de Márcia sair de lá e eu perder o status vip que tinha com ela. Levava tribos diversas, pessoal da pós, pessoal do trabalho, pessoal de dois empregos anteriores, amigos diversos. E em uma destas vezes, Ivone bebeu tanto, que indo pegar o metrô deu de cara com um mendigo a pedir um trocado, com o dinheiro a mão foi explicar-lhe que não podia dar pois era o trocado do metrô e o mendigo olhando pra ela apenas disse: Tú tá é bêbada... Fez um gesto de desprezo com o braço e foi embora.
Outros bares vão passando e tornando-se preferidos ou caindo em desgraça, visto  minha aversão a lugares onde tem que se esperar horas por um lugar. As estatísticas mostram que a frequência a bares e restaurantes tem caído na cidade de São Paulo depois da moda de arrastões, embora o senhor governador afirme semanalmente queda na criminalidade e investimento na polícia – deve ser a que lhe faz às vezes de guarda-costas “of course”, mas isso tem um lado bom, pode levar ao retorno daquilo que eu, Wânia, e outros amigos mais gostamos: reuniões em casa, com qualidade garantida na comida, na bebida, no som, no papo. E assim confraternizamos de fato, sem aporrinhamentos. Hoje é sexta: Saúde!

 Foto:Tatiana Yoko Oliveira - Corrigido após alerta da Carol Bracht.  - Galerinha relaxando após as aporrinhações de um dia de trabalho.