quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A chegada da velhice


Primeiro são uns poucos fios brancos nos cabelos, um aqui, outro acolá, leva-se na graça, acha-se bonito, até porque no dizer de uma amiga, não são nada demais, “fod* é mesmo o primeiro pentelho branco, esse sim te dá direito a três dias de depressão sem sair de casa...” Aguardemos... Mas ai, vem alguém, uma tia inconveniente por exemplo, e de graça arranca o fio. Logo alguém emenda: “_Ahhh mas se alguém arranca um nascem três.” Seja pela crendice, seja pela idade que chega imperceptível, eles aumentam, gradativamente. No inicio ficam bonitos, caem bem, dão um charme, e na foto do passaporte dão aquele ar respeitável, como se cabelo (branco ou em forma de bigode) fosse sinônimo de respeito. Às vezes tentamos escondê-los, e vamos às tinturas, sem receio de repetirmos o papel de Dirk Bogarde em Morte em Veneza. Outros muitos optam pelo boné, e aos quase sessenta os usem virados para trás como se fossem um jovem skatista. E quem nem sabe o que é ciático, que dirá dor... A morte é a mesma, só não tem o Mediterrâneo de fundo. Pelo menos livra-se da cena trágica de, ao morrer, o último suor escorrer pelo rosto com a cor da tinta que tentava ocultar a idade.

Mas, a vida continua, vamos a ela... Uma bela tarde está concentrado no trabalho e começa a perceber o quanto tem errado, palavras, números, e resolve marcar um oftalmologista... Suuuuurpresa! Não 0,25, não meio grau, mas uma bela e grande pontuação... Sim, a vista cansou, talvez o brilho dos olhos já tivesse ido na frente e não percebemos, afinal eles estão mesmo embaçados... E ai um dia ao levantar... Dor nas costas? No joelho? Na coxa? Friagem? Mau jeito? Não, é ela com seus passos de alma que mostra que chegou. Como diz a mesma amiga já citada: “depois dos quarenta, no dia que você acorda sem dor, pensa logo: Morri!” Mas vamos indo, pelo menos a dor circula, cada dia é num lugar, para não ficar monótono, claro!

E à medida em que os anos passam, as saudades de tempos passados vão ficando mais frequentes, é a grapette que não existe mais, o bolo de laranja que a tia fazia, o sorvete em tal lugar, e mesmo espécies de fruta que desapareceram. Essa nostalgia também é na verdade... saudades do que éramos àquele tempo, mais agéis, mais alegres, mais despreocupados.

É comum em uma festa mais... “elaborada” cruzar com senhoras muito, muito entradas em anos e vê-las sem uma ruga, nenhuma ruga. Nem de expressão. E ainda dão-se graças aos céus quando a tóxina butolinica é o balsámo da fonte da juventude, pois o efeito bisturi costuma ser pior. Aquela impressão de que se ela sorrir, faz xixi...

Conheço gente que evita envelhecer evitando o assunto. Falou-se em idade, envelhecimento, ou qualquer pormenor que os lembre, fecham a cara, fecham-se em copas. Será senilidade ou medo?

Homens e mulheres tentam aprisionar a juventude mantendo relações, ao mais vezes extra-conjugais com parceiros mais jovens. Como vampiros tentam sugar-lhes a juventude, como se pudessem absorver a pele tenra, o viço no olhar. Não a tôa vampiros exercem há tempos fascínio, na literatura, no cinema, salvo raras excessões são representados como belos, jovens, sensuais.

Bem enquanto escrevia envelheci, células morreram, fios embranqueceram. É inevital e a melhor maneira de envelhecer é... Não querer fugir da própria idade.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Alegres tristezas


             A tristeza não tem razão, ela chega e se instala simples assim. 
 
            Tem coisas que a deflagram, lógico. Um chefe escroto, uma falso amigo, uma traição de qualquer nível, trabalhos enfadonhos, leituras feitas por obrigação onde o autor é prolixo em texto chato e demasiadamente técnico... Se bem que há quem goste dos textos técnicos, como há os que apreciem em romances apenas a técnica e não a sensibilidade mostrada em nuances, aquela gama de sabores que o bom autor traz e que é capaz de nos entristecer também, mas de forma diferente, aquela tristezinha gostosa chamada nostalgia. Que acontece até com e sobre lugares que não conhecemos, coisas que não vimos.

            A tristeza chega no crepúsculo, tarde da noite, ou no alvorecer. Ela não se faz de rogada, íntima que é, não bate à porta. Chega! Pronto!

            Em geral, dura pouco, se bem que há os que se apegam a ela, e erguem-lhe um altar, fazendo com que fique ali, e se ela quer ir embora, ajoelham, rogam, imploram para que fique, pelo menos um pouquinho mais. E ela vaidosa, desfaz malas e deita-se ao lado de seu fiel servidor. E ai ele cultivando-a se entrega, nada está bem, nada presta, não vou para este ou aquele compromisso pois não estou bem. Ah, adoraria, mas hoje não. Ah, gostaria muito, mas hoje não vai dar. Ah, sabe o que é, já tenho compromisso... e tem mesmo... O de cultuar a donzela de olhos fundos. E ela sentindo-se tão amada envolve cada vez seu servo, os braços longos como que se transformam em tentáculos e vão deslizando sutilmente e prendendo o incauto como trepadeiras que se agarram a árvores

            Às vezes você a curte por um dia, ou dois, e nesse dia, pode ter certeza, vai aparecer gente para fazer você ficar ainda mais triste. Do mesmo jeito que urubus são atraídos por carniça, existe gente que sente cheiro de tristeza, poder-se-ia dizer inclusive que alguns são viciados nele, e estão sempre rondado, em círculos vão se aproximando, se chegando, e cada vez mais perto querem saber o porquê, como, onde, como e o que aconteceu para te deixar triste. Afinal a qualquer momento vão poder evocar essas lembranças quando estiveres bem, no intuito de trazer a tristeza de volta. É a única forma que eles têm de se sentir felizes, é sentindo que alguém não está bem.
  
            O poema famoso do Neruda diz: “Estou triste, porém, sempre estou triste, venho de seus braços, para onde vou, não sei...” Que tristeza mais bela, a tristeza que faz criar poemas, imagens, músicas. O filme mais triste que vi foi “Dançando no escuro.” E alguns não gostaram exatamente por ser triste. Oras, de que serve um filme se não provoca sentimentos, se não transmite conhecimento, seja ele qual for. Em outro poema famoso, esse de Vinícius, lemos: “Tristeza não tem fim. Felicidade sim.” Os dois poemas foram musicados, fizeram sucesso enquanto música, ou seja, não sou apenas eu a cultuar vez em quando a tristeza. Adoniran Barbosa já a saudava com seu bom dia e a convidava a sentar-se e beber de seu copo. Vejam só quantas coisas belas a tristeza propicia. Tão belas que fazem da tristeza pura alegria. A alegria de ver que um sentimento dito negativo suscita a arte a apoderar-se dela e transformá-la em beleza!


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Morrer e matar de amor...


            Ontem morreu o cantor Wando, cantor romântico que embalou romances, “pegações” e  outras nuances, fundo musical há décadas de enlaces sexuais, afetivos ou não. Cantando ora em prosa, ora em verso, realidades como em Moça: “Moça, sei que já não és pura, teu passado é tão forte, pode até machucar...”, em uma época que a virgindade ainda era condição sine qua non para que uma moça fosse considerada de respeito. Depois o cantor já não tão romântico passou a colecionar calçolas, calcinhas e tangas atiradas por fãs em seus shows. Estimulando que o fizessem...
            O público romântico é grande, haja visto a imensa quantidade de comentários, lamentos e homenagens nas redes sociais da internet. Também o sol não há como negar. Mas... Vou mais fundo, mais que o romantismo... adoro o “Passional”, aquela passionalidade intermitente que narra o fim dos casos de amor.

            Em Bilhete, de Ivan Lins e Victor Martins, interpretada por Fafá de Belém (não a dos pastéis de Belém, mas a cantora da capital paraense), há alguns dos versos mais fortes, a meu olhar pelo menos, acerca dos fins de relacionamento. “Eu limpei minha vida. Te tirei do meu corpo. Te tirei das entranhas. Fiz um tipo de aborto. E por fim nosso caso acabou, acabou, está morto.”  Difícil uma comparação mais forte... É a imagem de ressentimento e resolução. E para que não restem dúvidas do fim, prossegue: “Jogue a cópia da chave, por debaixo da porta, que é pra não ter motivos de pensar numa volta. Fique junto dos seus, boa sorte. Adeus!”

            De cara me traz a lembrança de falecidos relacionamentos, por exemplo, a de uma amiga cujo marido achou que precisava de um tempo, mesmo depois de um tempo longe, forçado pelo trabalho. Ela não teve dúvidas: “Como a casa é minha, você tem duas alternativas: ou você arruma suas coisas, ou... eu arrumo suas coisas, qual você escolhe?”.

            Muitas músicas como esta evocam imagens, caso de Espumas ao vento, de Accioly Neto, interpretada por Fagner, Ricky Vallen e estupendamente por Elza Soares. Nessa composição o autor pernambucano “chora” as mágoas de um amor que morre, tentando com o pranto e dor oferecidos, como se fosse uma dose de epinefrina, ressuscitar o moribundo amor: “Sei que errei, estou aqui pra te pedir perdão. Cabeça doida, coração na mão. Desejo pegando fogo. Sem saber direito aonde ir e o que fazer.Eu não encontro uma palavra para te dizer. Mas se eu fosse você, eu voltava pra mim de novo.” No filme Lisbela e o prisioneiro, na cena que vai à tela com a música ao fundo, a epinefrina não surte efeito, o amor já está morto, substituído, e foi unilateral. A mulher abandonada chora, limpa lágrimas, retoca pintura e vai em busca de vingança.
            Um casal conhecido, ao separar-se depois de poucos anos de convívio, onde um não queria a separação, no caso o marido, executivo bem posicionado, saiu-se com a vingança de... dividir os presentes de casamento, por pura picuinha, e levou metade das panelas. Deve ter jogado no primeiro lixo à frente, mas vingou-se.
            A Passionalidade, permitida às mulheres com choros e ranger de dentes, ganha aspecto masculino na vingança, agora um pouco mais evoluído, passa pelo financeiro. Outrora era fatal, lavar a honra com sangue era uso corrente, principalmente porque nos idos anos da história adultério era crime. Podia mandar pra cadeia. Mas os senhores de suas esposas não perdoavam, e  apenas para ficar nos casos famosos, Lindomar Castilho (que era cantor de músicas apaixonadas, passionais... Como: Nós somos dois sem vergonhas A vida imita a arte?)  e Van Doca Street foram notórios casos de desfecho funesto. Helena de Grammont e Angela Diniz foram para as covas, mortas supostamente por amor. Vieram campanhas nacionais “Quem ama não mata” e outras por condenações aos assassinos em uma época que Maria da Penha não era lei e a mulher era ainda mais desamparada.
            Mas a passionalidade musical nem sempre é tão perversa, e exceptuando Amado Batista em  Não faça jamais como eu fiz, não me recordo de outro caso acabado em morte. “Se acaso lhe acontecer de amar uma mulher da vida, você nunca deve esconder, não faça jamais como eu fiz. Matar uma pobre infeliz pelo amor que ela foi vender.” Este amor infeliz é mais comum às literaturas e caiu em desuso no cinema.
            Talvez a canção mais clássica sobre separações seja Trocando em Miúdos de Chico Buarque de Hollanda, que aprecio em todas as versões, do próprio Chico à Zezé Mota. Nela o casal faz a partilha dos bens e arremata ao dizer que o outro “Pode guardar as sobras de tudo que chamam lar.” E  no desfecho uma praga: “Aceite uma ajuda do seu futuro amor, pro aluguel.” Afinal, nos rompimentos sempre se deseja que o outro lembre que sua própria vida era melhor com aquele a quem deixa. Mas Chico deixa claro o fim com o verso: “Aquela esperança de tudo se ajeitar, pode esquecer. Aquela aliança você pode empenhar ou derreter.” E... lá me vem a memória mais um “causo”, de uma amiga que após alguns anos do término do relacionamento, já passado luto, foi empenhar a aliança, e ao ouvir da caixa: “Nossa, mas tão bonita, tão diferente, a senhora tem certeza de que quer mesmo empenhar?” respondeu a sábia amiga: “Minha filha, o marido valia muito menos, e eu já larguei. Passa esse dinheiro pra cá!”
              Renato Russo, entre muitos, prova que o coração roqueiro também sofre, em versos como: “Estamos medindo forças desiguais, qualquer um pode ver, só terminou pra você” (Os barcos).   E, aproveitando a deixa do verbo terminar, fico por aqui; se fosse uma tese ou dissertação iria fazer uma análise comparativa e discorrer sobre muitos outros casos e causos de amor e canções, mas como não se trata de... ficamos aqui, quem sabe retome o assunto em outro momento. Outras músicas.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pauta: A síndrome da reunião

                Uma amiga carente, daquelas que ainda não resolveu os problemas de déficit de atenção da primeira infância, dizia sempre: “Reunião boa é aquela em que você sai dela com outras quatro ou cinco reuniões marcadas!” Para mim, que nunca tive a síndrome da reunião, ou a de palco, era a morte. Nada contra reuniões produtivas, mas o problema é que a maioria delas... não são!

                Uma vez ousei dizer que precisávamos ser mais pontuais e objetivos, ao invés de ficar nos auto-elogiando, dizendo como éramos lindos e maravilhosos; depois soube que haviam dito que eu era muito duro no falar.

                Bem, os adeptos de tais ajuntamento de gente vão me acusar de disfemismo, com certeza, mas o que se nota é: as pessoas não tem o menor respeito com o tempo dos outros. E tome discurso incoerente do tipo: “Isto está resolvido”, e lá vamos nós falar dele novamente daqui a cinco minutos... na mesma reunião! E tome-lhe o mesmo assunto e tatibitate... E você, com licença da enxurrada de gerúndios que o  assunto merece, vai cansando, bocejando, afundando na cadeira, e o saco enchendo, às vezes a bexiga também, e... quando finalmente o orador chega ao ponto final, você ajeita-se na cadeira e respira... ele começa tudo outra vez! Ai de mim... Deve ser o tipo de pessoa pela qual as telenovelas globais fazem flashback no meio e no fim do capítulo, do que ocorreu na primeira parte daquele mesmo dia. Devem ficar felizes da vida. Quem sabe até tenham orgasmos... Multiplos...

                Será medo de não se fazerem compreendidos? Mas raios, se estão entre adultos, aptos e em plena faculdade... Ora pois...

                Ou é a síndrome do palco? A necessidade de mostrar sua oratória, seu conhecimento de tal ou qual assunto? Ou de ser visto. Lembro de Isoldina, uma colega que nas reuniões sempre tinha o que comentar, o que dizer a respeito de tudo, num tom mais alto que os demais. Um belo dia estivemos em um aniversário de uma amiga comum, havia caraoquê (nem vou entrar no mérito da infeliz idéia que não deixou mais que fluíssem conversas), mas quem foi a primeira a pegar o microfone? A própria Isoldina. E canta, e canta, e grita, e berra, e urra, e muge... A tia da aniversariante consegue a custo tomar-lhe o microfone e começa a cantar enquanto Isoldina vai sentar-se em uma das mesas. E na metade da música... levanta e vai cantar junto com a tia, dividindo com ela o microfone! Até que a tia desiste e entrega novamente o microfone a Isoldina, que canta, que berra, que grita... É a mesma síndrome (se não for a mesma pessoa).

                Concluo daí que andam juntas: a síndrome da reunião e a síndrome do palco. A mais das vezes, muita gente com coisas a falar acaba por conter-se e desistir. Recentemente vi uma pessoa pedir a palavra por quatro vezes em uma reunião, sempre sendo dada a palavra a outro, que era interrompido por um terceiro e por um quarto que se alternavam. Nunca soube a colocação ou dúvida a ser explicitada por aquele companheiro!

                Sim, tem gente que mete o bedelho em toda e qualquer colocação que tenha a fazer, depois usa seu próprio tempo, e... pede licença e sai antes da reunião acabar por ter outro compromisso.

                Também tem gente que preside reuniões e usa da palavra mais do que devia. Por seu cargo, por sua necessidade de falar. E tome piadinha, e tome repetição, a anáfora toma conta, pode deixar...
                E ai de quem tem compromisso posterior, ai de quem ainda vai pegar metrô, ônibus ou o raio que a parta para chegar em casa, no trabalho ou simplesmente a sair do lugar da reunião que pode ser remoto, sobretudo quando se tem pólos empresariais, estudantis ou o que quer que seja em diferentes locais. Ou seja: falta de respeito com o tempo do outro.

                Para que uma reunião seja produtiva ela deve ser pontual, dinâmica, sem diálogos ou discussões fora do proposto. Sem que os carentes e necessitados de palco a tornem um catalogo de elucubrações a respeito do que já foi dito. Bem, e antes que o texto se torne o mesmo imbróglio de reuniões, querendo chamar a atenção mais do que devia, encerro por aqui. Comentários abaixo ou se inscrevam pra pauta na próxima reunião!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

São Paulo 458 anos

São Paulo 458 anos

Hoje aniversário da cidade de São Paulo.

Visto preto.

Visto luto.

                Luto por todas as àrvores sãs que cortam sem motivo, ou porque as folhas caem na calçada e dá trabalho, ou porque a paisagista da prefeitura não gosta, ou para fazer mais uma vaga de estacionamento.

                Luto pelos que estacionam carros na calçada e acham que é correto, pelos jovens que ocupam as vagas de idosos nos estacionamentos de supermercados, shoppings e afins; pelos estacionamentos e pontos comerciais que fazem da calçada extensão de seus domínios.

                Luto pelos rios e corregos da cidade, que não estão morrendo, estão mortos.

                Luto pelas pessoas que usam mochilas nas costas nos corredores de metrôs e ônibus lotados e ainda assim se acreditam educados. O mesmo para as moçoilas com bolsas enormes  que enfiam à cara das pessoas sem se importar com quem está ao lado. Aliás, luto pelo transporte público sucateado, porque pobre não tem vez, melhor abrir uma nova avenida para mais carros que um corredor de ônibus, e assim melhor o trânsito, não o transporte, luto pelo descaso com a população.

                Luto pela vergonhosa câmara de vereadores; luto por quem vota em celebridades, sejam artísticas, instantâneas ou religiosas. Luto por quem cai em artimanhas políticas que apresentam candidatos antigos como se fossem novos, e pior ainda, como tábua de salvação.

                Luto pelas faixas táteis do terminal de ônibus da estação Santa Cruz do metrô, onde  a faixa de piso táctil (para cegos) leva a uma coluna, sai de trás daquela e leva à... Outra coluna.

                Luto pela falta de espaços onde o cidadão possa se apropriar deles, luto pela falta de parques, luto pela progressão escolar, que desmoraliza e desincentiva ainda mais os professores.

               Luto pela arrogância e preconceito.

               Luto pelos engarrafamentos por falta de transporte público de qualidade.

          Luto pelo metrô que segue por bairros nobres e menos populosos, mas que dão maior visibilidade que bairros populosos como o Jardim Miriam que está há poucos quilômetros do Jabaquara o que facilitaria sua inclusão no transporte público de maior qualidade.

                Luto pelas salas de cinema fechadas.

          Luto pela falta de ciclovias, pela falta de banheiros públicos decentes que evitariam a fedentina no centro.

                Luto por um teatro municipal que só é “municipal” no nome já que não serve ao povo.

                Luto pela maioria das pessoas não se importar.

                Luto por jornais que fazem campanha contra censura e demitem pela mesma causa.

               Luto pela violência, luto por policiais que fardados passeiam pela Av. Paulista e peitam e dão ombradas em transeuntes por serem “a lei”. E esquecem que por isso mesmo deviam dar exemplo.
                 
                Luto pela falta de cordialidade, de educação.

                Que o luto em sinal de pesar tenha a força de luto do verbo Lutar.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Criança feliz, é criança educada.

                Há uma tendência generalizada, a se achar que crianças são boazinhas, especialmente as mulheres com seus instintos maternais e estrogênio em abundância.

                Não são! Crianças são apenas bonitas. E olhe lá... Pois pequenos ogros estão por ai, e muitos deles em concursos de beleza infantil.

                Pais despreparados, mães culpadas por não terem tempo suficiente para se dedicar a eles, avós permissivos e encantados pelo feitiço incompreensível que os netos exercem sobre eles. Tios corujas, padrinhos deslumbrados em “ter” um afilhado.

                Todos cúmplices, todos criadores, mantenedores e fomentadores de pequenos egos que fermentam e crescem mais rápido que epidemias de conjuntivite no verão. Mais rápido que os próprios pequenos.

                Conheço dezenas de casos... A “princesinha” que pais, avós, tios, dia após dia diziam ser linda e ao ouvir repetidamente tais e tantos elogios, neles crê, e que fazem crescer no mesmo ritmo uma personalidade oposta ao elogio.

                O neto, já pré-adolescente que sempre morou com a avó, e que, após os pais separarem, cede à chantagem emocional da mãe, que o quis abortar, e vai morrar com aquela. Com ela assite filmes madrugada adentro, acorda ao meio dia, e vai almoçar... Na casa da avó. Após a sobremesa sai às carreiras e vai para lan house. Joga até o tempo acabar e retorna à casa da mãe. À hora do jantar liga ao pai que vai buscá-lo e, já jantado não se demora e volta à asa materna(?).

                Uma pequena miss diz a mãe que não quer que esta vá a festinha na pré-escola pois tem vergonha da mãe ser mais feia e mais velha  que as das coleguinhas. Pois que a mãe continue a incentivar a beleza externa e colha mais louros.

                Uma conhecida, de tempos atrás, dizia que para ser mãe se deveria fazer vestibular. É vero, os pequenos monstros, não domados, cada vez mais não tem que fazer esfoço para nada, para agradar ninguém. Apenas ser bonitinhos e engraçados...

                E antes QUE o texto fique ainda mais denso, vou concluindo com aquela “lindezinha de mamãe” que aos sete bem vividos anos disse à mãe noite dessas que não iria jantar, pois não queria ficar gorda como ela. Detalhe a mãe da “lindezinha” não pesa mais que 70 kilos distribuídos em seus cerca de 1.73m.

                São essas as que me despertam imensas saudades de Herodes...


                É óbvio que existem crianças lindas, educadas e simpáticas, muito queridas por todos e por estas, estão de parabéns os pais que lhe impõem limites, que lhes educam verdadeiramente, com conceitos morais e éticos, que ensinam respeito e bondade. Mas se não são assim... Não, não deixai que venham a mim as criancinhas...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Chupa essa manga


                Estava eu a ler Fatos de Fato, blog da Mary Miranda, e eis que um post sobre “Mangas” lembrou-me variadas mangas, de manguitas que nunca mais vi às mangas rosa de quintais alheios, cobiçadas e muitas vezes roubadas, como as mangas de fiapo da casa de D. Juscelina.Em uma  ocasião inclusive, em galho altíssimo, estava uma lá posta em sossego tal Bela Inês, dependurada e brilhante à luz do sol, e Patrícia, prima minha, a olhava cobiçando a dizer que podia cair, e... Com uma brisa rara naquele calor de Floriano, a tal manga cai, e ela corre apanhando para lavá-la e degustá-la com gosto. Lembro também das manguitas, pequeninas e cheirosas que comia quando morávamos em Minas e que meu pai na feira comprava às dúzias. Uma vizinha, excepcional, que em sua infância tinha dificuldade ao falar, sempre que íamos à feira, vinha em casa e dizia que “A mamãe mandou falar pra mandar uma manga pra ela, pra colocar na ferida de papai”. Não sei de onde ela deve ter tirado que manga poderia servir como cataplasma, e como sabíamos de certo que as mangas não seriam para curativos, sempre dávamos a ela mangas para a família toda.
 

                Já as dúzias de mangueiras de tia Maída tomam um enorme pedaço de chão na roça do “quebra cangalha” e não posso lembrar dela sem lembrar do padre que ao pedir algumas colocou dois sacos no carro dando voltas que víamos da janela, mas pra finalizar o serviço pegou apenas meio saco e passou mesmo pelo quintal da casa (na fazenda). Escorregou rolando saco, mangas e padre... Tia Maída, com seu sorrisinho malicioso de canto de boca, apenas falou sobre o castigo: “Mas que bobagem, pode pegar à vontade, que as mangas estão a fazer lama, e tem tanta gente na paróquia...”  
 
                Lembro das mangas rosa de Dona Caetana, avó da esposa de um primo, de quem eu muito gostava, e ela de mim, tanto que, mesmo em outra cidade, sempre que tinha oportunidade, ela mandava-me sacolas de manga. Quando ia visitá-los é que comíamos com gosto. Chegava às vezes de madrugada das festas, sentávamos eu e minha tia Teresa, na praça em frente a casa e às quatro de “la matina” púnhamo-nos a comer manga rosa... 

                Aliás mangas rosa me perseguiam. Quando em Recife, as mangas rosa da casa do Terceiro, que morava em Olinda, eram saborosíssimas, e ele como bom amigo sempre me dava aquelas delícias. E lembrando as mangas de sua casa não há como não lembrar que lá também havia pimenta malagueta, e que certa feita um tio dele colheu um pacotinho e o levou no bolso de trás da calça. Contou depois as peripécias de quando se sentou no ônibus que o levaria à casa e as pimentas com a pressão do peso... bem, fizeram sentir seu ardor... e ele sem lembrar a causa do sofrimento tentava se ajeitar na poltrona e mais esmagava, e nisso mais elas ardiam em uma região tão inóspita que mesmo quando “caiu-lhe a ficha” sobre o porque de seu tormento, e tirar dali o saquinho de pimentas, o mal estava feito e o pobre velhinho ficou a arder-se por horas. 

                Mas voltando às mangas lembro-me do Rogério Magri, ministro do governo Collor, que em uma viagem para reunião da OIT em Genebra na Suiça, faltou à reunião e afirmou que tinha saído para comprar... “Mangas”...
 
                Bem, ela poderia ser a fruta do pecado no lugar da maçã, que é mais seca, e a meu paladar causaria mais tentação. Mas as da casa do Sr. José, pai da Socorro Rocha, eram algumas das mais saborosas que já provei. Tinha espécies que apenas por lá vi, e eles nos mandava aos quilos; aliás tinha uma que chamávamos manga de quilo, devido a sua dimensão e peso. Muitas vezes estive debaixo daqueles pés, enquanto Socorro ou Maria José lavavam roupas com água do poço... Era realmente um pedaço de paraíso aquele quintal.
 
                Na praça atrás da Faculdade de Direito no centro do Recife, existe também dessas mangas enormes (assim como jambos roxos) e é preciso cuidado quando elas estão maduras e a cair. Em um bar que ia muito no Jockey em Teresina, acima das mesas, as mangueiras iam alto e perigosas. Mangas pairavam por sobre nossas cabeças enquanto a cajuína aplacava calor e adoçava boca e espírito. Nunca fui atingido por uma manga, fruta asiática que aqui (em que se plantando tudo dá) plantada se adaptou tão bem que parece nativa. Em boa hora um antigo prefeito de Floriano (Pi) arborizou a cidade com elas. As mangueiras, da família Anacardiaceae, estão por toda cidade, abençoada sejam.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Reflexões sobre pensamentos e ações

                Clarice  Lispector quando ia escrever um livro, exilava-se em um hotel, ainda que no bairro das laranjeiras, o mesmo em que residia. E ali, deitava a pena a folha sem preocupar-se com nada a não ser a dar cor, em forma de letras, às suas idéias.
                Tarsila, já habituada ao cotidiano de Paris, ao retornar ao Brasil trouxe seus experimentos pelo cubismo na bagagem. Aliás, cubismo que o próprio Picasso só foi experimentar ou pelo menos trazer à luz, depois da famosa “fase azul”. Afamado, afortunado...
                O processo criativo que nos chega como notícia de massa, beira o excentrismo de facto, porque parece dado livremente àqueles já abastados ou beijados pela fama.
                Pelas narrativas de cantores, compositores, atores e outros “ores” donos de outras dores, temos registros de brigas para fazer da sua arte, o que se quer, o que se acredita. Uma vez perguntada porque tinha aceitado um papel desprestigioso em um filme a atriz estadunidense Daryl Hannah, teria respondido que aceitava papéis de que não gostava por ser uma atriz que precisava trabalhar para comer...
                Nas artes em geral, no dia a dia...
                A fotografia do feio choca o gosto fácil pelo belo. O afago meigo que disfarça a mão – a mesma que apedreja – rude.
                A resposta que traz consigo novas perguntas e questionamentos, que faz mexerem-se neurônios, ao contrário das “short answers” que com suas respostas objetivas não fazem ninguém pensar nas possibilidades atrás de cada interrogação, mas trazem sim pontos finais, sem possibilidades de novos questionamentos.
                E assim se emburrece na leitura fácil do semanário que dita modas e comportamentos. Nas novelinhas que mostram que o “ficar” é mais importante que o gostar. Que o que importa não é o gasta, o quê se pode pagar e sim o comprar para mostrar aos outros que se tem.
Afinal, se o “tem olhos para ver, que vejam” se resume a pré-estréia da fita com mais efeitos “especiais”, quem é que vai ouvir?

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Confraternização? Vou não!

                Sem tempo para fazer balanços ou reflexões. Muito menos promessas de fim de ano que serão quebradas ao raiar o ano novo do calendário Gregoriano.

                Como tenho dito por ai, ando mais aperreado que jumento de cego em estrada nova, e é verdade, tudo se acumula nesses finais de ano, como já disse na postagem do final do ano passado, porque não diluir pelo ano inteiro essa necessidade de ver, tocar, estar...?

                E tome confraternização, inclusive com gente que nem gosta da gente e vice-versa, já que em geral, isso é recíproco. Já vi até gente que sai da copa na hora do almoço quando entra alguém de quem não gosta. Levantam-se e em tom sério: “_Dá licença que eu vou comer na minha sala.” Para não dividir o mesmo espaço, e agora, com as bênçãos de Noel, quer marcar almoço de confraternização, amigo secreto, lanchinho da tarde etc...

                Outra, que passa o ano sem me ligar, tem por costume querer passar em casa pra deixar uma lembrancinha. Ora, se não lembrou o ano inteiro de ligar para saber como eu estava, porque lembrar agora?

                Gente que nunca entrou em minha sala quer marcar de sair... Tem certeza de que é comigo?

                Estranhamente, gente que não quer marcar nada, não precisa comemorar nada, se faz presente o ano inteiro. Um sorriso, um almoço juntos, uma mensagem em redes virtuais, uma ligação se falto ao trabalho por motivo de doença para saber se melhorei...

                Uma mensagem no celular, um comentário no blog, um e-mail... Estão ali... E bravamente insistem cotidianamente em se fazer presentes, em mostrar que não estou só. Obrigado a eles que não precisam que o ano acabe, que o natal chegue ou que seja meu aniversário!

                Como diria uma personagem de humorístico semanal:

                Ele é chato? Ele é! Ele é mal-humorado? Ele é! Ele é ranzinza? Ele é!

                Feliz Natal, o blog volta ano que vem!


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Na cartilha, no trem, na ilha...

“Bitu era pequeno, pequeno...
Fofinho era gordinho, gordinho...
Mas Zecão era grande, muito grande...”

E aí...

Aprendi a ler...

            Sim, foi com a história dos três cabritinhos e da onça gabola...
           
            Vieram daí a pouco os livros de comunicação e expressão, que era como chamávamos a matéria ora denominada “Português”: o nome da língua, da última flor do Lácio, inculta e bela, como disse Olavo Bilac. Lembro bem do livro João-de-barro de Domingos Paschoal Segalla. Foi ele que seguiu às cartilhas. E depois vieram outros de autores e títulos que se perderam na memória e lembrarei no futuro, quando não puder lembrar o que se passou há cinco minutos. Isso se Deus não permita que o Alzheimer vier visitar-me. Mas, lembro bem de alguns textos e personagens que davam cor e sabor a eles.

            Lembro de um texto que detestei, uma turma estava à mesa de uma lanchonete e o personagem, de cabelos vermelhos e cheio de sardas, era descrito como o Gordo... “O gordo tirou meleca do nariz e colocou embaixo da mesa dizendo: O lado de baixo da mesa é feito para colocar meleca...”

Mas lembro também de outro texto delicioso, pura aventura, que discorria sobre o prazer de andar de bicicleta, onde o personagem descia correndo pela Alameda Nothmann, o vento batendo no rosto da personagem a fazer-lhe os cabelos esvoaçarem...

            O tempo passou, a quinta série chegou, e com ela: “A Ilha Perdida” de Maria José Leandro Dupré. O primeiro livro de romance, assim, inteiro... Era o livro de férias, para ser lido nas férias de julho. O primeiro... As letras não eram grandes, as gravuras, como chamávamos as ilustrações, muito poucas. Mas... Que delícia... Não foi preciso mais que poucas páginas para apaixonar-me. A história de Eduardo, Henrique, Simão e o macaco Lucas, fisgou-me por inteiro.



            Áquele ano, fomos passar as férias na casa de minha tia Hercília, em Guarapari, no Espírito Santo. A viagem de trem, de Coronel Fabriciano, no Vale do Aço mineiro à Vitória, capital capixaba, margeava o Rio Doce. Hoje não sei a quantas anda o rio, mas à época, anos 1970, era largo, portentoso, de águas barrentas, correnteza forte, inúmeras ilhas fluviais... E nelas imaginava os personagens, recriava “A Ilha Perdida” e, na utopia que criava, enlevado pelo prazer do livro que levava às mãos e alternava com a paisagem, também eu era personagem.

            Outros livros vieram, à mão cheia, centenas deles, várias histórias, mil nuances... Mas este, o primeiro, ficou para sempre gravado à alma. E é por ele e por professores queridos que vieram depois, Dona Maria das Graças, e Profa. Lenir no Schmidt, Tamina Oka Lobo no Nobel, que incentivaram-me a ler, a escrever, que, no “frigir dos ovos” como diz minha mãe, tornei-me bibliotecário e estou aqui a escrever. Obrigado por ler.

Foto: Internet - Divulgação


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Lê pra mim?

A foto é antiga, em um preto e branco desbotado, onde o branco é amarelado e o preto... Claro.

Eu aos 5, 6 anos... Magrinho, e com os olhos tristes, como ainda hoje são. Deus podia ter tido melhor humor e ter alegrado o olhar e ter mantido o corpo magro, mas enfim, quem entende seus desígnios...

Na foto seguro nas mãos um exemplar de: “Lico, o coelhinho”. O pequeno livro tinha a forma estilizada do láparo que lhe intitulara. Não recordo sua história, mas a cara/capa do coelhinho/livro ainda é nítida em minha mente. Um verde claro, embora obviamente não existam coelhos verdes, mas isso não tinha a menor importância. O nariz era vermelho, redondo, de plástico, como fosse uma pequena bola cortada ao meio e colada no meio da cara, cheio de miçangas para que fizessem o barulhinho característico delas quando o livreto era balançado.

Detalhe... Eu não sabia ler.

Àquela época, ler era coisa que só se aprendia no primeiro ano primário, aos sete anos de idade. Era minha mãe, ou meu pai, que sempre o liam para mim. E aos cinco, seis anos, não se cansa de ouvir a mesma história. Uma, duas, dez, dezessete vezes...

Ás sextas-feiras, dia de pagamento, meu pai sempre chegava em casa com uma revista feminina para minha mãe. Uma Capricho ou Claudia, Contigo ou Ilusão, Grande Hotel ou Sétimo Céu. Ou algum especial só de fotonovelas. E para mim sempre vinha com um gibi. O fato de eu ainda não ler era menor. Devorava as figuras, fossem de Disney, ou a turma da Mônica, Brazinha ou Riquinho.

Na capa, invariavelmente a dedicatória, que era a rubrica de meu pai, que forma um coração, e dentro dele, nossos nomes. Ah, as folheava comendo as figuras, fingindo ler. Sei lá se vem desde esta época a mania de folhear revistas de trás para frente que dura até hoje...

Meu tio Raul, à época o mais querido dos tios, era livreiro. Logo, meus primos tinham coleções de livros infantis, tantos e tão ilustrados que eu ficava excitadíssimo quando ia visitá-los, por manusear e encher os olhos com tantos e tão belos desenhos. Como eram mais velhos, e já leitores, meus primos em uma das férias passadas em sua casa, em Santos,  eram quem liam para mim. Pinóquio, Alice no País das Maravilhas, Cinderela, Dumbo, e por aí vai... Pela manhã atravessávamos a rua e íamos a praia, tia Lourdes nos levava pela mão, voltávamos à hora do almoço, e depois de tomar banho na enorme e aconchegante banheira, almoçávamos e fazíamos a siesta.

Acho que foi nesse tempo também, de descobertas e ansiedades, que apaixonei-me por peixes e aquários. Meus primos tinham um lindo aquário de vidro redondo, repleto de conchinhas e com peixinhos dourados. Na entrada do prédio, um arranha-céu como se dizia nos anos 1970, de pastilhas e estilo art-deco, havia também um enorme laguinho com fonte e inúmeros (pelo menos para quem também ainda não sabia contar) peixinhos coloridos. Lembro de um senhor de bigode branco e poucos cabelos sob o chapéu, que colocava sempre uma folha de palmeira na água: “_Para fazer sombra para eles”, explicava-nos.

Foi aí também, acredito hoje, depois de tantas rememorações, que se deu certa aversão... Quando de minha primeira ida ao cinema, fomos Juninho, Gislaine e eu... Naquela época o Gonzaga (bairro onde meus tios moravam) era cheio de cinemas e podíamos ir às matinês sem sustos ou preocupações. Era uma fita estadunidense, de guerra... Falado em inglês, e com legendas, que nada significavam para mim, que ainda não conhecia o alfabeto.

Escuro, cenas de guerra, uma língua estrangeira... – Talvez more aí minha aversão também ao idioma. Pedi que me lessem e eles explicaram que não podiam ficar falando no cinema, insisti que não entendia, convenceram-me quando disseram que se lessem ali não me iam ler os livros de histórias à noite... Resignei-me até dar vontade de ir fazer xixi... Não podia, se saíssem iam perder o filme... Talvez eu tenha chorado...

Felizmente não perdi o gosto pelo cinema, mas não precisam me convidar para ver filmes de guerra.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Café com leite e um pedacinho de paraíso.


                Hoje pela manhã, Sônia e Enzo falavam em café com leite; logo me veio a vontade. Uma caneca de ágate enorme, cheinha de café com leite, bem clarinho,  quente... Na verdade em minha utopia ela está em minhas mãos e estou ao lado de um fogão a lenha apreciando a chuva que cai lá fora... É uma reminiscência infantil, buscada em antanhos, quando do aniversário de 38 de minha mãe, sobre o qual já falei aqui no blog. Mas na verdade, não da festa e sim de dias antes. Íamos com seu Darcy, vizinho da frente, que tinha um armazém, onde comprávamos. Tinha ele parentes que moravam em uma fazenda nos arredores de uma cidade da região, e foi onde fomos buscar dois cabritos a serem sacrificados para a festa...
 
                Aquela excitação infantil por ir à fazenda nos fêz acordar de madrugada; de criança apenas eu me levantei de pronto, William, filho de seu Darcy, e meu irmão não acordaram, ou melhor, não levantaram, e eu fui a única criança a ir. Estava escuro ainda, garoava... Chegamos sob chuva que durou o dia todo. A fazenda, na região do “vale do aço”, em Minas Gerais, naqueles idos dos anos 1970, já plantava eucaliptos, e é essa a imagem preponderante daquele sítio... Eucaliptos, escuro, chuva... 

 
                Fazia frio e fomos recebidos pelos moradores na cozinha, pelo menos é o que me lembro, mas já não sei se foi por ali que entramos, e ali estava um fogão à lenha, com fogo aceso, quentinho, aconchegante... E talvez por anos ainda mais distantes, quando visitávamos meu tio Lourival, o mais pobre e mais querido dos irmãos de meu pai, onde havia em sua casa um fogão de lenha que lamentei anos mais tarde ter sido desfeito, me senti em casa. Perto do fogo... E talvez, sabe Deus, é daí que venha minha paixão também por fogueiras. 

                Lá fora a chuva caía e nos serviram, em canecas de ágate, café com leite de cabra, produção local, caseira... Deliciosamente quente, doce, forte... E é esta a imagem que sempre vem a minha mente quando tomo café com leite, seja em casa, seja na padaria acompanhada de um pão na chapa. É a imagem que me veio da conversa de Enzo e Sônia. É o que mais forte está em mim, embora também goste de café com leite no prato, em cima de um bom pedaço de cuscuz amanteigado, para comer/tomar de colher. E agora peço licença mas tenho que ir ali, tomar um café com leite e comer um pão na chapa com a alegria destas lembranças.

                     Foto: Dionísio Pedro da Silveira - casa da tia Maída (Margarida Silveira) na roça, vista do sítio do João de Deus e Inês. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

E o palhaço, o que é???

              “Abelhinha, abelhinha, bota mel na minha boquinha...” Era uma das brincadeiras antigas que os palhaços faziam no circo em minha infância. Eram circos pobres, que iam pelas cidades dos rincões, levando alegria e diversão. A lona muitas vezes era furada, pobres como nós, sua plateia. Ficávamos a mais das vezes nas arquibancadas de madeira, sem forração, lisa pelo sentar e levantar do público. Era o ingresso mais barato, e onde estava a maior animação, e quando ficávamos nas cadeiras de plástico, mais próximas ao picadeiro, a maioria dos colegas estava do outro lado da corda que separava os dois assentos. Então a arquibancada garantia também mais risadas, pois não é quem ri por último que ri melhor, como diz o ditado, mas sim, ri melhor quem ri acompanhado. Na verdade, cadeira mesmo só quando acompanhado pelos pais, quando com o resto da molecada, nas matinês dos domingos, a arquibancada era o trono!
                Bailarinas, na maioria das vezes acima do peso, mas em uma época em que a ditadura da magreza ainda não reinava absoluta e curvas tinham mais valor do que a finura sem contornos, como a das tábuas das arquibancadas. Trapezistas, que veiculavam histórias de quedas que teriam ocorrido em outras cidades. Assim como fuga de leões magros e elefantes desidratados. A essas histórias crescíamos os olhos. Pios que éramos em nossa ingenuidade infantil.
                Pipoca era o banquete principal, maçã do amor a sobremesa divina, e existia também uma maquinazinha que descascava laranjas tirando a casca em fios finíssimos, tirados à custa do girar de manivela. Depois dos shows podíamos comprar amendoim e dar aos elefantes; o plural é gentileza minha, pois ao mais das vezes era apenas um único animal. Aos leões, dizia-se que davam gatos que roubavam pela cidade.
                Mas os palhaços, sempre tinha um anão entre eles... Um tempo em que acessibilidade era palavra que não existia. Em um circo ou outro eram vários os que se apresentavam. Na maioria das vezes devo confessar, ranzinza desde criança, não achava-lhes graça, diferente de amigos meninos que viam graça em palhaços até pela TV. Daí o sucesso do Bozzo no antigo programa do SBT. Outros tinham pânico, nunca gostaram deles, salvo erro, o Javas era um deles, confessou já adulto.
                Nunca ficaram gravados os nomes dos circos, mas lembro de vários deles, o local, um detalhe em particular. O dia, e se era tarde ou noite, de uma vez que chovia a cântaros na saída, de minha prima Socorro já mocinha, em um vestido vermelho, presente de minha mãe, dentro do qual despontava seu corpinho de menina transformada em moça há muito pouco.
                Hoje, pelos grandes centros, os circos que restaram são imensos, com espetáculos grandiosissímos, e dá-lhe "Cirque Du Soleil", e outros de grifes tão famosas quanto, e de repente me recordo que na infância o mais famoso por esses tristes trópicos era o “Orlando Orfei” - que nunca vi, mas um dos que citei acima e não recordava, se chamava  “Orlando o feio”! Numa paródia risível!  Bem, os pequenos circos ainda existem e resistem, ainda arrancam sorrisos, gargalhadas e "Ohs!" aos bons bocados. Chegam onde a diversão e o dinheiro são curtos, e não importam lona furada, bailarina de meia desfiada, ou se o leão é desdentado. Mas se o mágico serra a mocinha, se o palhaço mostra a cueca, e se tem pipoca maçã do amor e mentex!
                E é isso, hoje tem marmelada? Tem sim senhor. Tem texto no blog? Tem sim senhor. E o redator o que é? Saudosista é o que é...

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2011

            Mais uma vez a Casa Fasano, no Itaim Bibi, Zona Sul de São Paulo, esteve lotada, repleta de gente, poesia e romance. O Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa divulgou os vencedores desta nona edição.
            Depois de “O Leite derramado”, de Chico Buarque de Hollanda, arrebatar o primeiro lugar o ano passado, desta vez foi o romance "Passageiro do fim do dia", Editora Companhia das Letras, de Rubens Figueiredo, a estar no topo dos 371 livros inscritos nesta edição. Rubens Figueiredo é carioca, professor de português e um renomado tradutor de obras russas. Rubens afirmou, durante pequena entrevista: "Eu só começo a escrever quando tenho alguma coisa para dizer". Tímido e discreto, Figueiredo recebeu o prêmio com poucas e emocionadas palavras:  “_Fico muito feliz e só consigo dizer isso: me desculpem o mau jeito!”

            "Passageiro do fim do dia” se passa dentro de um ônibus urbano que leva Pedro a casa de sua namorada, em um bairro pobre de uma cidade fictícia. Durante o percurso, o personagem mistura recordações com as imagens e cenas que acompanha do ônibus.
            O escritor português Gonçalo M. Tavares, com o romance "Uma viagem à Índia" (Editora Leya), ficou em segundo lugar. Seguido por  Marina Colasanti, com o livro de memórias "Minha guerra alheia" (Record).
            O prêmio avalia romances, contos, poesias, biografias e dramaturgia em português, publicados no Brasil.
            Entre os 10 finalistas, divulgados em setembro passado, constavam dois escritores portugueses e oito brasileiros. O primeiro lugar recebe um prêmio no valor de R$ 100 mil, o segundo de R$ 35 mil e o terceiro de R$ 15 mil.

            Os dez finalistas do prêmio neste ano foram:
 Rubens Figueiredo, com "Passageiro do fim do dia" (Editora Companhia das Letras)
João Tordo, com "As três vidas" (Editora Língua Geral)
Gonçalo M. Tavares, com "Uma viagem à Índia" (Editora Leya)
José Castello, com "Ribamar" (Editora Bertrand)
 João Almino, com "Cidade Livre" (Editora Record)
 Marina Colasanti, com "Minha guerra alheia" (Editora Record)
 Alberto Martins, com "Em Trânsito" (Editora Cia das Letras)
 Elvira Vigna, com "Nada a dizer" (Editora Cia das Letras)
 Ricardo Aleixo, com "Modelos Vivos" (Editora Crisálida)
e Donizete Galvão, com "O homem inacabado" (Portal/Dobra Editorial).

            O Júri Final foi formado por:  Luiz Ruffato, Benjamin Abdala Júnior, Maria da Glória Bordini, Antônio Carlos Viana, Eneida Maria de Sousa, Regina Dalcastagné, Lourival Holanda (Curador), Maria Esther Maciel (Curadora), Regina Zilberman (Curadora), Zelma Caetano (Curadora Coordenadora).

Fotos: Djair -   Rubens Figueiredo segundo antes de ser anunciado ganhador.
                        Os premiados, diretores da Portugal Telecom e os apresentadores do prêmio.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O não fazer...

     Muito se fala do ócio criativo. E o ócio destrutivo? Aquele que nos deixa incapazes de executar qualquer tarefa, nos incapacita inclusive de pensar? Bem, o que nos leva a este estado de inércia? Daquilo que nada agrada, nada satisfaz, nada dá alento? “Non, je ne regrette rien.”

    O que causa essa incapacidade mental que se estende aos músculos? Em época de doenças psicológicas dirão logo: “Isto é depressão.” Afinal a doença deste início de século é esta e suas companheiras, transtornos bipolares, síndromes de pânico e por aí teremos uma enorme gama de outros distúrbios catalogados nos códices e index Medicus.

    Há alguns anos trabalhei com alguém que reclamava o tempo todo da instituição. Naquele tempo, eu era uma pessoa mais ativa e dinâmica, e cheguei a oferecer vários tipos de novos trabalhos, que sempre eram recusados com a frase: “_Eu até gostaria muito de fazer isso, mas no momento não!" Tratava-se de uma pessoa que era versada em línguas, com texto conciso e interessante, mas limitava-se a um trabalho mecânico, que poderia ser executado por um aluno de quinta série. A ela apenas interessava a arte, o cinema, o teatro... E eu a admirava, até perceber que não passava de Blague. Uma máscara para ocultar a mediocridade e evitar todo e qualquer tipo de trabalho que lhe tirasse o mínimo da rotina, cultuada a extremos. Com certeza uma patologia...


    Outros tipos, esses clássicos, são os que nunca conseguem dar conta das coisas que tem a fazer, sempre a bradar: “_Ah, não consegui terminar tudo que eu tinha pra essa semana”, ou dia, ou mês... Mas... Observe atentamente; estão sempre ao telefone, MSN, ou qualquer outro afazer que não o de cuidar o trabalho que lhe foi entregue. Realmente este é um clássico!

    Bem, isso difere daquela preguiça que nos acomete, a todos, vez em quando, a vontade de ficar na cama e de preferência que alguém nos traga ali o café, com leite, com um bom pão de queijo e um belo bolo. O que me lembra uma amiga que disse sonhar em ter uma bandeja destas de pé, na qual se leva o café na cama... Perguntei-lhe porque não comprava e ela na lata responde: “Por que não vem com alguém junto para fazer e levar o café!!” Mas esta preguiça, é diferente, gostosa e benéfica, se ficamos na cama, logo estaremos com um livro à mão, um filme aos olhos ou elocubrando futuros que desejamos, e que a partir daí serão transformados em realidade. Ou não! Enfim, é uma higiene mental. Aliás, lembro no primário que tínhamos um momento após o recreio, que eram alguns minutos dedicados à higiene mental, cujo objetivo era nos acalmar, porque no recreio mesmo nossas energias afloravam, em correrias e gritos, um estado de excitação que não cooperaria em nada para o aprendizado de matemática da aula seguinte. Era um momento de silêncio onde esvaziávamos (pelo menos a intenção era esta) a mente.

    Sinto falta destas coisas, aliás, sinto falta de Educação Moral e Cívica e religião nos currículos escolares. Afinal, hoje pais não passam muitos esses valores aos filhos. E estudantes ocupam reitorias de universidades para protestar contra a imposição de leis seus campus, como se ali fosse um estado paralelo onde as leis nacionais não atuassem. Mas essa é outra discussão, o tema inicial já divagou tanto quanto as interrupções sofridas no decurso em que escrevia esses parágrafos; enfim aí estão algumas reflexões e o blog manteve sua periodicidade.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Histórinhas mal-cheirosas

                Mira era conselheira de uma instituição em que trabalhei, uma senhora séria, por trás de seus grossos óculos de acadêmica; já não dava aulas, mas trabalhava em pesquisas particulares e da tal instituição da qual era membro. Escritora laureada com inúmeros livros publicados recebera vários prêmios de literatura.
                Entre outras citações de sapiência, ficou na memória o ensinamento: “_Ah, eu gosto muito de caminhar logo depois do almoço, a gente fica o dia sentada, e essa hora é ótima pra andar e eliminar os gases.”
                Dia destes fui a uma festa, em uma cidade a cerca de 300km; junto, um amigo que fazia a estrada parecer curta, e íamos rindo, contando e inventando histórias, possíveis, impossíveis, e pelo riso incessante... Risíveis.
                Tudo correu bem e a festa para crianças foi um sucesso, doces, pipocas, brincadeiras, refrigerantes, bolos, sanduiches. De lá fomos ao sítio de outro amigo, que ficava na localidade, vinho, churrasco, queijos, presunto...
                Na volta aquilo tudo começou a pesar, mais que o escuro da Rodovia Raposo Tavares, mais que a chuva que caía...
                Dores lancinantes dos gases pressionando órgãos internos, já nem ria mais das besteiras que eu mesmo falava, dos casos que ouvia.
                Por sorte, o amigo que estava de carona morava uma cidade antes, e assim o deixei quase uma hora antes de chegar em casa, e tão logo ele saiu do carro, os gases puderam ser liberados e as dores passaram.
***
                Claudio trabalhava em um grande centro de documentação. Àquele dia, já final de tarde sente a pressão dos gases originados a partir da feijoada do almoço. Sabe como é, feijão preto, couve, torresmo... A comilança foi boa, tanto que seu abdômen lembrava o do porco que comera... Sentindo-se aperreado, subiu ao depósito superior, onde ficavam apenas revistas antigas e onde portanto dificilmente alguém ia até lá... Passou pelo primeiro corredor de estantes, pelo segundo, pelo terceiro, e no quarto decidiu: estava longe de qualquer ser vivente...
                Aliviou-se, sem estrondos... Uma careta talvez... Mas... Sabem como é, gases costumam ter odores, e esses eram perigosamente fétidos...
                Bem, já estava aliviado e resolveu descer ao setor, quando vem chegando ao final do corredor, ali, na quarta fileira de estantes de acervo histórico, que ninguém solicitava... a Margarida, moça bonita, que trabalhava em outro setor, aliás, chefe de outro setor.
                Ele apenas continua seu caminho, respondendo sério e preocupado ao cumprimento da moça, que se direciona para o fundo da quarta fileira de estantes...

***
                Conheci Zilá quando morava em Santos, ela uma cafuza original, arroxeada, cabelos lisos, baixinha, rosto redondo, com um sorriso constante nos lábios e uma jocosidade em todo seu gestual. Morava em um amplo apartamento já nas imediações de São Vicente, quinhão que lhe coube na separação do marido, estrangeiro que já não me recordo a naturalidade, e que se apaixonara pelos traços nativos e que segundo ela já devia ter voltado à sua terra.
                Segundo a própria, separaram-se por um peido...
                Lembro-me de ter ficado estupefato e quis saber: _Mas como assim?? E ela não se fazendo de rogada disse que um dia, já depois de alguns anos de casada, estava ela na copa arrumando algo, que nem lembro e nem vem ao caso, enquanto o marido assistia televisão na sala.
                Em determinado instante ela solta um “Pum”, que pelo andar da história saiu em alto brado retumbante... Prrrrrrrrrrrrrummmm. E o marido pergunta: _Que foi isso? Ouviu um barulho! Ela responde:_Um pum. E ele parte ao ataque em tom ríspido: Isso é uma falta de respeito, má-educação! E na minha terra o marido larga a mulher se ela faz isso! Ela não tem dúvidas: _Ah, é? Pois então leva essa pra sua mãe: Prrrrrrummmmm!!!! Leva esse pro teu pai: bruuuuuuuum! Leva esse pro teu irmão: Puuuuussssssh!!!!
                E assim ele pediu a separação alegando que a esposa não respeitava o marido. O juiz deu a ela o ganho na ação pelo direito ao imóvel, já que não via ali motivo de separação. Ela prosseguiu a vida, contente e já sem gases.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Reflexões sobre a morte... Sobre quem fica...


            A morte de mais uma amiga, esta semana, me fez novamente pensar na morte. Já comentada em postagem anterior*.
            Recentemente, em viagem a Portugal, conheci em Évora a capela dos ossos, que se localiza em anexo da Igreja de S. Francisco. Suas paredes e pilares são revestidos com ossos e crânios, ligados por cimento pardo. As abóbadas de tijolo, pintadas com motivos alegóricos à morte. Foi calculado o número de ossos em torno de 5.000, provenientes dos cemitérios anteriormente situados em igrejas e conventos da cidade. À entrada, a frase: "Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos"., que nos lembra a transitoriedade da vida.
            Este ano, perdi algumas pessoas próximas, pela mesma causa, o câncer... Mas voltando à morte em si, para mim, em minha visão pessoal é o término de um ciclo e o inicio de uma nova jornada. 
            Geralmente vamos aos enterros pelos que ficam, para de alguma forma tentar consolá-los e reconfortar, e não exatamente por quem partiu. Nesse último, fui exatamente por quem partiu. Apesar de saber não estar mais habitando aquele corpo inanimado, quis render-lhe minhas últimas homenagens em forma de preces e recomendações, a que costumamos às vezes chamar interseções. Penso muitas vezes no dia em que perderei meus pais, coisa que cedo ou tarde há de acontecer se o curso natural (os mais velhos na frente) for seguido. E penso que será uma tremenda dor e estarei ainda mais sozinho... E logo busco afastar o pensamento, como se diz, para não “agourar”.
            Ainda este ano, a esposa de um amigo nos deixou. Por serem ateus, só soube depois do enterro; não houve velório, não houve missa, não houve portanto modo de render-lhe homenagem alguma... Que é também como encaro o rito. Cada qual segue o rito conforme sua crença, ou falta dela. Eu, pessoalmente, faço minhas preces e não gosto de ficar - como alguns - o tempo todo falando sobre como o finado vai fazer falta, que isso e aquilo. Rendo minhas preces e que ele siga em paz.
            Em alguns velórios, conta-se piada, já fiz isso inclusive, e fato,  me agradaria se fizessem no meu, relembrando passagens alegres com os que viveram comigo. Mais do que lágrimas, que me deixariam mais triste, isso me faria feliz. Então, se estiver no meu, lembre-se do texto da Francinete** e dê boas risadas. Aliás, no meu funeral ,gostaria que só fossem mesmo pessoas que realmente tem apreço por mim. Nada de chefes que vão só para cumprir obrigações sociais, nada de gente que não me gosta ou aceita. Vão ao bar, ao cinema... Por que perder tempo com defunto que nem gostam?
            Em um velório que estive, uma das donas do defunto, em prantos, foi acalmada, consolada, e mal enxugava as lágrimas, lhe veio a chefe que tinha ido bater ponto  e lhe pedir que, assim que chegasse em casa, lhe mandasse um e-mail com tal e qual trabalho...
            Outros vão a velório como evento social, procurando se mostrar íntimos do defunto, com o qual muitas vezes sequer tinham afinidade. Creiam, já vi isso. E acham que ninguém percebe... A falta de naturalidade é tão flagrante que a coisa toma ares de ridículo, e a ópera bufa continua., com falsos abraços em pessoas que sequer conhecem, enquanto o defunto fresco ao lado vai lentamente se decompondo.
            O puxa-saquismo também está presente na hora da morte, ou algo justifica o recebimento de 162 coroas de flores ao velório da ex-primeira dama Ruth Cardoso?
            A mãe de uma amiga que queria ir morar no interior, onde aquela dava aulas, porque com o pai, que era divorciado da mãe há alguns anos, agonizante, levou-o para junto dela, e, vindo a falecer, o velório foi imenso, os  amigos da filha compareceram em peso. A mãe encantada queria um velório igual.
            Diz minha mãe: Quem tiver que fazer algo por mim, faça agora, depois que eu morrer pode jogar no monturo ou enterrar dentro da rede, que tanto faz. Mas muitos que ficam, erguem enormes jazigos, em mármore como era uso outrora, ou os enterram em cemitérios modernos que mais lembram jardins e parques. A cremação ainda não é tão usada no país, e sempre lembro-me de que Cazuza, o cantor, meu herói da adolescência que morreu de overdose, queria ser cremado, e que suas cinzas fossem jogadas no Arpoador... Não lhe respeitaram o desejo.
            O único fato é que todos vamos... E enquanto não vamos, em Évora, os ossos que lá estão, pelos nossos esperam.


Foto: Djair - Umbral da capela dos Ossos - Évora - Portugal