quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Umas palavrinhas sobre exclusão de perfis




Quando deleta-se uma conta, numa rede social, é como que se fizesse um suicídio diante do grupo de pessoas que o seguem, que acompanham (ou muitas vezes não, apenas ocupam ali um espaço com uma pequena fotografia a fim de lembrar aos outros sua existência), o seu dia-a-dia, suas fotos, sua pretensa vida social e ativa, seus pensamentos, gostos, critérios, martírios e enfados cotidianos.

A exclusão dessa página é como se dissesse a eles: não aguento mais, nem a mim, e nem a vocês, e é por isso que vou-me embora. Não seria talvez para Pasárgada, pois lá até o rei já deve ter sido destronado e nem sequer se dava a conhecer, quanto mais a ter grandes amizades.

 Ao sair, sempre se lembra de quem antes abandonou a rede, como no “corvo” de Allan Poe “outros amigos voaram antes e não voltaram jamais”.

Muitas vezes, a maioria das saídas é só por um tempo. Muitas vezes excluem-se apenas as páginas falsas, que fazemos para diversão ou para o que não temos coragem de dizer sem máscaras, ou que conforme vamos dizendo sem as tais, essas já não fazem sentido, e então mata-se o heterônimo. Aí então seria o assassinato de uma persona latente dentro de nós? Não, não chegamos às faces de Eva nem à genialidade de Pessoa, mas sim, a cada ambiente, a cada espaço, somos um, temos um id e um superego sempre em guerra, e a cada vez um marcha à frente, por isso vários somos, nem sempre gostamos desses que nos formam e por eles também somos tomados, a poesia bela que escrevemos ou a rispidez que enrijece os músculos da face. E ultimamente o “livro de faces” é grande fomentador dessas nuances, por isso o suicídio (ainda que aí possa ser temporário) das nossas personalidades sociais. Na “rede”, muitas vezes sente-se enredado.

 

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Réquiem a Lourival, meu tio querido.

Tio Louro, foto: Nilton de Souza
Ele era o mais velho dos três irmãos.

Em nosso último encontro emocionou-se muito ao falar de meu pai, de quem sentia enorme pena não estar junto em seus últimos dias. Falou-me de como meu pai desperdiçou seus últimos dias por conta do alcoolismo, de como isso lhe causava terríveis sensações sendo ele mesmo alcoólatra na juventude. Tia Maria Klaus, aquela bela moça que desposara ainda pouco mais que garoto sofreu muito com isso, mas ele largou a bebida a tempo de refazer um lar. Falava do meu pai com forte impressão, de como ele próprio trabalhava a fim de que os irmãos estudassem. Sobre tudo o Olavo, meu pai, que ele achava o mais inteligente, e Raul, o mais novo. O Lindoval, esse que depois de um casamento rico afastou-se do resto da família, nunca sobre muito, e sobre esse ele também não falou-me.

Era o mais humilde, satisfeito com sua vida simples, lembro, entre as mais antigas reminiscências as visitas a sua casa, como eu me sentia bem ali, a geladeira antiga que eu achava linda, e destas que hoje poucas existem nos apartamentos dos descolados, e minha paixão o fogão a lenha, que um dia ele desmanchou, tendo presenteado tia Maria com um fogão a gás… Isso era inicio dos anos 1970. Uma longa estrada de terra percorríamos até lá chegar depois do ponto final do ônibus. Nessa época meu pai tinha acabado com o fusca num acidente onde todos se espantavam de nada ter acontecido a ele.

Mas trago comigo a reminiscência de minha mãe que grávida de mim, enjoava com as comidas do hotel, em Santos, em visita a família do marido. Sua melhor refeição naquele dia foi na casa dele, onde meu primo Nilton chegara com os peixinhos pescados no rio próximo, tia Maria os cozinhou, fez pirão, caldo forte. Ele fala-me nesse manjar dos céus até hoje.

Tinha uma mexeriqueira enorme no quintal imenso, mais tarde tomado por casa dos filhos. Um pé de rosas, isso deixou de existir mais tarde. Seus tesouros ficavam em seu quartinho no quintal, coleção da revista placar, flâmulas do São Paulo, time de seu coração, como também do meu pai. Tio Raul era um desgosto, torcia para o Corinthians, Ali ficavam seus materiais de trabalho, eu adorava a morsa, com que prendia coisas para serrar, apertar ou que o valha… Sobre a mesa de madeira onde esta era presa havia um grosso papelão, que com pingos de graxas e óleos, acumulo de poerias e suores tinha tomado uma densidade de couro. Os troféus do Ponte Preta, time da terceira divisão que tomava emprestado seu nome a ponte do Bairro, que nos anos 2000 viria a cair, esquecida pelo patrimônio público. Servia inicialmente a travessia de um trem que não mais existia.

Aquela área rural onde ele se situou por décadas era então bela geograficamente e sentimentalmente me desperta saudades de um tempo feliz. águas limpas a correr em riachos, morangos e amoras silvestres, no meio do bananal que já não existe. No quarto dos tios uma lâmpada azul, que pouco iluminava. Dormíamos ali, em visita quando vinhamos de Minas. 

Os primos calorosos, os mais velhos, Nilton, Nilson, Eliete, Neide e Nereide encontramos anos depois já casados e com suas próprias famílias, mas sempre a gravitar em torno dos tios, pais amantíssimos. Elizete, Dida e Marlene mais novos, regulando as idades comigo e meu irmão, brincavam conosco, brigavam conosco, conversavam e assim tecíamos planos e sonhos. Esperavam sempre o tio que vinha diariamente almoçar em casa. Quantas vezes eu também ali estava. A ouvir suas histórias do dia-a-dia. Depois voltava ao trabalho até a noitinha, ganhou medalha de funcionário padrão, que foi juntar a seus tesouros no quartinho, junto aos álbuns de fotos da família, com gente que só ele sabia identificar. Ao lado de Carlos Magno e os 12 pares de França, livro volumoso que fora de minha avó, e, que nunca tive a oportunidade de ler.

Um dia deu-me uma jaqueta de couro, preta, que usei até onde não sei mais. Outra feita uma camisa de compridas mangas, bege, que foi minha preferida até acabar.

Seu sorriso era tão gostoso que dói-me hoje lembrar. Emociono-me e sinto saudades. Uma vez fomos a um jogo do São Paulo, no Morumbi. Ele, meu pai, meu irmão e dida, nosso primo, no jogo contra o atlético eu era a ovelha negra, torcia para o Palmeiras, time de meu avô, já contei aqui isso, e de como meu tio perdeu no estádio seu radinho, onde acompanhava o jogo do corinthians.

Houve um tempo onde tia Maria, Nereide e Eliete frequentavam uma igreja episcopal, a casa da Benção, em Santos. Ele as acompanhava e nos levava. Íamos pela fara do passeio. Logo voltou a religião de origem, afinal vó Felina tinha sido filha de Maria, congregada Mariana, e ele cedo voltou às missas dominicais

Gostava das excursões, Poços de Caldas, Aparecida, Caverna do Diabo…

Engraçado como na sua imagem para mim está sempre a sorrir. Magro como sempre foi, e atrás dos óculos. Poderia estender-me horas em lembranças… Os jogos de canastra, sua empolgação com as pequenas viagens, com o time de várzea, já citado, do qual foi presidente por muitos anos, e após o jogo chegava com os uniformes para minha tia lavar. De seu jeito calmo, do rádio grande que comprou de presente para Elisete, um motorola, que ficava em cima do bufê, e onde ela ouvia Ely Corrêa enquanto com capricho arrumava a sala, de como aconselhava meu pai, acolhia tio Raul, empolgava os sobrinhos e netos com historietas. Seu caminhar vindo ao longe em passo apreçado para almoçar com a família a tempo de voltar ao emprego…

Noventa anos… 90 anos é muito tempo… Por mais que se goste da vida, e ele gostava, imagino o cansaço, o desconforto do corpo que já não responde como gostaríamos...

Ontem ele se foi… Em mim ele fica. É parte de minhas boas lembranças. Jamais terei como equacionar seus ensinamentos. Sinto inveja de seus sentimentos. Era um homem bom. Cumpriu sua missão.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

O maldito frequentador das salas


A tomar um chá para acalmar-me o coração, afinal, esse já enfartado e maltratado, de modo que qualquer dorzinha me chama a atenção.
            Vinicius de Moraes tem um texto de 1943, que adoro, intitulado “Obom e o mau fã”. É engraçado como os maus fãs se reproduzem mundo afora como baratas, conforme diziam os estadunidenses sobre nós, os cucarachas.
            Pois bem, entre os inúmeros e-mails da universidade – que, na maior parte só servem para encher a caixa de entrada - havia um que era mesmo bué da fixe. Tratava da exibição de um filme. Um documentário espanhol, narrado por José Mujica. 81 minutos, 2016. Imediatamente interessei-me. Marquei o e-mail como não lido e estrelado, para não o perder de vista. Marquei na agenda, dia horário, e até adiei em um dia, entre outros motivos, não apenas esse claro, mas também ele, uma ida a Lisboa. Ok. Será mesmo fixe e instrutivo.
            Correria com os trabalhos do mestrado, muita correria e tensão com os trabalhos do mestrado, extrema correria, tensão e preocupação com os trabalhos do mestrado. Sobretudo em dias de total desânimo.
            Mas é hoje o dia do filme. Pausa nas leituras e trabalhos e vamos lá. Será culturalmente enriquecedor, e uma pausa nas correrias e no desânimo. Estou mesmo a precisar. Almoço a correr, pois, está em cima da hora. Chego um tanto esbaforido, mas a tempo.
            Ninguém de publico ainda na sala. Ótimo que não atrasei-me. Também faço eventos e esse é um momento de tensão, quando o público ainda não chegou e os convidados da apresentação lá estão.
            Sento à quinta fila de cadeiras, Vinicius aprovaria.
            Converso com o responsável pela exibição, que vem de Leiria, onde ocorre um festival de documentários. Falamos sobre isso e sobre o cinema, como é cá, no Brasil... Somos interrompidos, chega mais uma pessoa, se diz professor, e está estarrecido por não haver público. Que ele mesmo nos próximos vai trazer alunos, para ser avisado... Muito bem. Também acho o desinteresse da malta grande. O gajo senta-se na quarta fila... Pax-ciência...
            Pois então, o cidadão abre lá seu laptop e começa a... Sei lá... Trabalhar? Vai ver que não preparou as aulas que tinha a dar... Pode ser isso.
            Resolve-se começar a exibição, afinal a espera já passa 15 minutos além do horário, e nisso chega mais um rapaz. Simpático, senta-se à sexta fila.
            Luz apagada, exibem-se os trailers da mostra de cinema documental que ocorre nos próximos dias. São cerca de uns cinco, e nada do gajo desligar o notebook. Começa o filme... O notebook ainda ligado. Queria mesmo ver o filme, mas já começo a irritar-me. Pois é, sou o estrangeiro enervado... Então... Saio do lugar e vou sentar-me ao meio da terceira fileira. É mau. Muito em cima da tela, e com meus olhos biônicos – sim, os dois foram operados – a imagem não é tão boa vista dali. Percebo então o apagar da luz da tela do computador do outro... Ok. Ótimo, posso voltar a sentar-me acima...
            Pego o casaco, o guarda chuva, e volto para minha querida quinta fila, logo, estou novamente atrás do tal “professor” – não me perguntem de quê, bons modos é que não é. Pois bem.... E corre-me o frio na espinha a pensar que poderia ser de cinema, ou som e imagem, já que há ali esses cursos. E penso em Luciana Araujo, Maria Rita Galvão, Adilson Mendes, Arthur Autran, Roberto Noritomi e outros tantos colegas que são ou foram professores de cinema, e mais que isso realmente gostam da luz sobre o ecrã.
Sento-me e começo a curtir o filme.
            Passam-se apenas alguns minutos, ainda não deu tempo de pegar gosto pelo filme, e a raiva ainda está presente, quando o gajo, saca o celular, e então a luz deste, como um sabre de luz Jedí, invade a sala. Afinal, o outro não pode deixar para ficar a teclar no WatssApp  depois do filme. Não, tem que achar que a sala de cinema é a sala de estar da casa dele. Bem, sou um enfartado, é melhor perder o filme que a vida, pego novamente o casaco e o chapéu de chuva e saio da sala irritado, triste e com raiva por perder o filme mas com uma raiva maior pela falta de educação da humanidade. Rogo mentalmente mil pragas e ódio eterno. E raiva de mim por não ser do tipo que faz logo um escândalo e manda desligar aquela porra.
Muito já se anunciou o fim do cinema, primeiro era a televisão a acabar com ele depois era o videocassete, em seguida seu exterminador era o DVD logo perdendo para a TV a cabo, mas o que vai realmente acabar com o cinema são seus frequentadores.
 
           

terça-feira, 8 de maio de 2018

Sem simpatias

Cai o garfo
Cai colher
Nem te animas, ninguém vai chegar
Nem homem
Nem mulher

Cai a faca
Diz, que deve riscar-se o chão com ela, três cruzes, no lugar exato onde caiu
Ou...
Vem briga na certa, a casa ruiu

Ah, basta de bobagens, nem te apoquentes
Ninguém vai chegar
Não inventes,
Não terás com quem brigar

O exílio é assim solitário
Mas finges rir.
Posta nas redes, uma foto assim com um sorriso na cara.
Hão de colocar logo um comentário do tipo: "Cara boa", "vida boa". Algo assim, até não é ruim.

Ai de mim.
Valei-me Raimundo Correia e seu "mal secreto"
Já que não valeu-me a Nossa Senhora
Deixemo-la lá descansar até que chega a boa hora.
E ela pegando-me a mão diga: _Agora chega, vambora.


Foto: Azulejo a representar N.Sra. de Fátima - Fátima - Portugal
(réplica do painel de azulejos da Capelinha das Aparições, datado de 1927.
Carlos Ramiro (Pintor), cerâmica de Bicesse 2007

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Nosso estranho modo de sentir afeto


O que é que determina nossa tolerância?
O que determina nossa tolerância em termos de amizade?
O que nos leva a romper laços?

Talvez o fato desses laços não serem fundamentados em um nó sólido… Talvez por serem laços não de atar, mas puro enfeite… Laços coloridos, multifacetados… Como são certas convivências, que as vezes são longas mas não enraizadas.

O que nos faz perdoar os achaques de um e não de outro? A dimensão das coisas vividas? As intimidades? Os favores devidos? A carência, nossa, ou a dependência e admiração em relação ao outro?

Foto: Djair -Estátua da Virgem de Fátima - Fátima - Portugal
Eu que sou de tomar partidos, e sim, sei que isto é mal, já rompi laços com alguns por amar a um terceiro e vê-lo maltratado por quem até então era também amigo. Por ser amizade mais antiga, por ser mais verdadeira, por não tolerar grosserias, ou seja lá qual for o motivo da minha simpatia pelo outro naquele momento.

Já perdoei coisas que não sei porque perdoei. Já levei a ferro e fogo muita bobagem e me arrependi em seguida, e lógico, óbvio, que não tive humildade ou coragem para reconhecer meu ego inflamado e pedir desculpas. Claro que não.

Já deixei pra lá o fato de ter amigos trabalhando ao lado e nunca ter partido deles um convite para um almoço no restaurante ao lado da “firma”, embora o mesmo convite já tivesse partido de mim. Já execrei outros por terem faltado a um convite e dado uma desculpa rota para justificar a falta de interesse. A uns perdoei serem mais amigos de outros, a outros não perdoo serem mais amigos de uns.

Difícil determinar onde somos, eu pelo menos, simpáticos e onde não gastamos tempo com isso. O que nos liga, em geral é a convivência, e a consciência de um certo destino comum. Talvez aí esteja a razão de uma afinidade eletiva, a consciência de um destino, um sofrimento comum. E quanto mais comum, mais partido tomamos a favor deste, afinal é o mesmo trajeto, ainda que por poucos passos, ainda que o caminhar se afaste ali adiante, mas a forma com que caminhamos juntos pode ser tão intensa, que fará falta no que resta da caminhada. Outros ansiamos por nos distanciar ou sentimos aquela “saudade aliviada” quando se afasta. De outras carregaremos sempre uma pequena mágoa, sobretudo quando nos sentimos usados, ou quando não sabemos o porque do rompimento.

Uma parte das vezes ansiamos retomar a amizade, noutras não queremos aproximação. O que muda? O sofrimento que o rompimento causou? De que perspectiva observamos esse distanciamento? O que foi maior? O prazer de estar junto, a dor do rompimento? O medo de se repetirem ações e gestos? De quem se sente saudade? De quem estranhamente esquecemos o nome? E pior, de quem sentimos raiva a mera menção, ou vaga lembrança quando como um espectro nos surge a mente e nos faz inconscientemente fechar a face, franzir o senho travestindo a face numa incômoda máscara de gárgula? E o que faz com que toleres aquele amigo do teu amigo? Por não ferir ao primeiro? Por medo que ele escolha o outro?

São questões sem respostas, mas que muitas vezes faz bem colocar para tentar nos entender. Afinal, quantos matamos dentro de nós? Quantos lembramos sem saudades, e de quantos outros sentimos muita falta, sem saber onde estão ou o que se tornaram? Quantas lembranças apenas você e uma outra pessoa tem? Afinal apenas vocês dois podem tê-la, por serem os únicos a viverem aquilo, mas você nunca mais vai encontrá-la, e nem sabe que fim levou.

Saudades que gritam, nós na garganta, silêncios constrangedores, abraços que não querem mais de desfazer… A nossa humanidade, nossas afinidades, nossas simpatias… Para onde nos levam, com quem nos levam?

Toda a gentarada que nos cerca… Um oceano, ondas… em quais mergulhas, e de quais foges, só quando mergulharmos ou fugirmos saberemos, mas o porque, isso nunca.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Sobre eles, sobre vocês...

Meu pai, Rafael, Zé Luís, Asael, Zuleica… A lista é enorme, não nos damos conta até começar a lembrar de tantos e tão queridos amigos que partiram e aí, temos ainda os que não lembramos de imediato, e os que lembramos mais raramente, de acordo com a proximidade que tínhamos, com a frequência com a qual nos encontrávamos ou de acordo com o espaço que ocupavam em nossos corações.

E é assim… de repente nos damos conta que talvez não tenhamos demonstrado o quanto eram-nos importantes, o quanto gostávamos deles, de quanto apreciávamos seu riso, seu humor, sua atenção. Muitas das vezes porque nem nós sabíamos, ou porque tínhamos vergonha, porque o outro nos parecia duro, escondendo-se atrás de uma máscara para defender-se do mundo. Ou, quem sabe, porque nós mesmos com medo de demonstrar nosso afeto - medo de ser machucado? - também nos escondemos.
Foto: Djair - Florzinha - Caldas da Rainha

E aí, quando se vão se fica - quem fica - a pensar, será que ele(a) sabia o quanto eu lhe tinha respeito, afeto, admiração? Mas nem por isso mudamos de estratégia, é sempre o mesmo medo de se expor. Sim, talvez porque a especialidade dos humanos seja machucar o outro, ou porque nós é que nos magoemos por tudo. A fragilidade de um é proporcionalmente inverso a capacidade do outro de ferir. Mas e a empatia com essas pessoas que amamos? Porque não é capaz de romper essa linha imaginária de limite afetivo?

E aí se vão. Contrário Fernando pessoa quando diz que “Só serão lembradas em duas datas aniversariantes / Aniversário de Nascimento / Aniversário de morte.” Reproduzo de cabeça e a frase pode não ser exatamente essa. Mas sintetiza-se nisso. Apesar de ser um de meus poemas favoritos, o “Porque não te matas?” por mim peca aí. Lembro deles, sinto saudades, queria que tivessem sabido o quanto lhes apreciava, o quanto fazem falta.

Quanto mais velho ficamos, menos amigos temos. E por mim, pelo menos, também diminui em muito a capacidade, talento, ou paciência para fazer novos. Talvez por isso os fantasmas me rondem. Ou vai ver já é preparação para com eles encontrar-me. Eu que tenho uma quedinha pela morte…

E os que aí estão e me fazem a mesma falta? Digo-lhes? Não! Demonstro-lhes? Não sei. Quero-lhes bem a meu modo. Um modo torto muitas vezes impaciente, ignóbil. Tosco feito um Shrek e sem expressão feito uma Macabéa. Mas sim, fazem e farão falta. Fazem saudades, muitas vezes, como digo, uma saudade aliviada, mas fazem. Afinal já fazem parte de mim. Em alguma parte foram importantes, cada um a seu modo, cada um dentro de uma especificidade. Sejam aqueles que são amigos, sejam os que assim o foram considerados até terem sido atirados no lodaçal e afundados como ídolos que já não servem ao culto. Afinal, quantas pessoas achamos por vezes que seriam aquele amigo que levaríamos pelo resto da vida e mais seis meses, e que hoje não ousamos convidar para que adentrem nossa casa? Mas seguirão sempre numa lembrança ou noutra, e não importa se vivos ou mortos, e não apenas em datas aniversariantes, mas num gesto, num carinho, num arrependimento, numa mágoa ou sorriso, numa flor que se vê, numa falta que se fez ou num comentário que o lembra.