quinta-feira, 19 de maio de 2011

Pegue o saca-rolhas.

 Quando fazia o colegial, ao voltar pra casa na sexta à noite, parava na casa de Samara. Sempre tinha um vinho a nos esperar. Quase sempre um  ‘flacon de sang de boeuf’  ou em bom português, um garrafão (do velho e bom) sangue de boi, naquela época,  o mais comum e disseminado pelas terras tupis. Sempre gelado. Aliás, outra coisa que não faltava na casa de Samara eram latas e latas de feijoada, que depois do vinho, ao final da noite, saboreàvamos, picando um pimentão, uma cebola e um tomate para fazer render. Tínhamos estômagos fortes, e ninguém saía antes do vinho acabar. E quando íamos fazê-lo, Samara sempre clamava que ainda era cedo, que ficássemos mais um pouco, etc, etc... Em uma demonstração que sua carência era maior que a minha. 

Outras tantas vezes, era com Adélia que ia tomar vinho; pegávamos o violão do Vitor e... mas esta é uma peripécia que vale uma postagem só sobre o assunto. Descíamos ao cais com o violão, um garrafão de vinho e uma caixinha de isopor repleta de gelo. Adélia toca, fazíamos repentes, bebíamos, ríamos a valer. Lembro de Godô, diminutivo de Godofreda, uma loura (natural), bonita, que às vezes nos acompanhava, e não bebia. Só chupava gelo. Uma vez a convidamos para almoçar, oferecendo como menú gelo em diversos formatos. Aos puristas que se chocam com o colocar de gelo no vinho, nossos lamentos, pois não conhecem o calor de Floriano, e sim, vinho se bebe à temperatura ambiente... De Paris, no inverno, é claro. Pior fazia o marido de uma colega de faculdade nos anos 1990: tomava vinho com coca-cola. Apesar de ser dado a experimentações, passei.

Pois bem, na época dos fatos descritos, cá nesse pedaço dos trópicos, os vinhos tidos como finos eram Almadén e Chatêau Duvalier. Tomávamos a valer, e depois vieram os alemães, e todo mundo que queria ser fino tomava Liebfraumilch, que depois caiu em desgraça, assim como os “garrafas azuis” que os sucederam. Eram o “the must”, até a revista/bibllía da classe média mostrar em uma reportagem que eram da pior espécie por lá. E aí, rapidamente foram banidos de mesas e despensas.

Vieram os Lambruscos, que até hoje adoro, de rápida ascensão até o Prosseco lhes roubar a fama e tomar-lhes o lugar em todas as recepções e coquetéis.
 
Uma conhecida, tida por muito fina, sempre que estava com a adega vazia chamava a turba à sua casa para recepções à base de vinho. Homens levavam vinhos, mulheres acepipes, queijos, castanhas e assim, ao final da ocasião, ela estava com adega cheia - sempre se leva mais do que se bebe, afinal. E ela mantinha a pose de ‘quatrocentona’ paulista. Na verdade, alguns poucos sabíamos, até pelo nome de solteira, era mesmo carcamana, mas posava muito bem, no château de Higienopólis.

Carmem Lúcia, esta sim, finíssima, serve vinho branco primeiro, às dúzias, da mesma marca, de sua própria adega, com entradas deliciosas e depois com os pratos quentes, o tinto.

Uma das coisas que mais apreciava na Espanha, é que em todas as refeições, do mais fino restaurante aos bistrôs iranianos, acompanha sempre uma garrafa de vinho, e lá se pode beber o vinho da casa sem sustos ou sobressaltos. Aliás, nada como o vinho nacional servido na Europa! 

No primeiro porre que tomei de vinho, morava em Praia Grande, só, e era meu aniversário de vinte anos, sem parentes ou amigos por lá. Saí a beber na praia à noite, uma garrafa de dois litros de Chateau Duvalier. O dia seguinte foi uma das piores ressacas já vividas por este escrevinhador que vos conta esses causos.

O último não foi exatamente um porre, até porque ninguém me aporrinhou, mas um pilequinho, na casa de Alex e Roberta, há algumas semanas, o papo tão bom, o ambiente tão agradável que o vinho descia com a suavidade de uma garoa, sem se perceber, mas encharcando... 

O próximo? Bem... Aceito convites.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Brincando de casinha - Sábado

Acordar tarde
(Que o sol já arde)
Ficar na cama curtindo preguiça.
Morosamente espreguiçar,
(a cachorra imitar).
Fazer café,
Colocar a mesa,
enfeitar.
Tomar desjejum com prazer.

Lavar louça (parece que brota...)
Regar plantas, com mangueira mais gostoso
Menos quando o tempo é frio... (Horroroso)
Colocar roupa na máquina
Ufa!
Ler jornal, que sentar descansa...
Hora da feira que alvoroço...
E agora?
Comer fora ou fazer almoço?

Quando se vê...
A tarde finda...
Um cafézinho... Dá tempo ainda!

Ouvir rádio
Enquanto jogo baralho...
Se der tempo, uma passada na net.
Tomar banho e jantar.
Lanche ou comida?
Sempre a dúvida... Ê vida!

Ver um filme, uma série, um clip.
Alimentar os peixes...
Há vidas nos aquários.
Xi, e os armários?
(arrumar?)
Fica pra próxima, hoje abono.
Chegou o sono, vamos dormir...

terça-feira, 26 de abril de 2011

Se em terra de cego quem tem um olho é rei...

Há pouco ouvia Caetano Veloso, a música: “O estrangeiro”, que traz na letra a frase: “Ray Charles é cego, Steve Wonder é cego, e o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem.” Outras referências à deficiência visual se seguem, até o amor, que dizem também ser cego. Mas a meu “ver”, nada mais cego que a justiça, não como se diz dela, por não fazer distinções, mas ao contrário, por não enxergar nada além do que lhe convenha. Mas enfim, não é desta cegueira que desejo falar, deixemos a justiça míope, com hipermetropias, astigmatismos e daltônica pra lá...

 Van Gogh era daltônico.
Como Adriana Calcanhoto em "Esquadros". “Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores”. E sejam elas de Almódovar, do próprio Van Gogh, Goya, Velasquez ou Frida Khalo, me encantam. Por outro lado, a maioria das vezes não percebo cores de maldade ou aproveitamento que os ocres sabem bem camuflar. E por isso tropeço, e a cada tropeço levanto e volto a apreciar novos matizes antes opacos. Conheci uma criança daltônica, filho de uma conhecida que um dia o deixou sob cuidados meus e de outra amiga a fim de cumprir sei lá que afazeres. Era um garotinho lindo, de seus cinco ou seis anos, cabelos lisos, louro escuro cortado em franja e lindos olhos negros. Nos demos conta da dificuldade de seus olhos apenas ao dizer a ela para pegar um bombom na caixinha amarela em cima da estante ao lado. Ele alegre foi direto a uma caixinha preta, e retrucamos “_A amarela” e ele partiu a uma terceira não lembro que cor. Só ai é que nos caiu a ficha, embora já soubéssemos de sua deficiência.

 Kátia é o nome de uma cantora cega que fez sucesso no Brasil dos anos 1970-80. Lembro de minha mãe comovida como tantos dizendo que se morresse logo queria que as córneas fossem para ela. Meu avô paterno tinha promessa para Santa Luzia, e em seu dia (13 de janeiro) guardava-o como dia santo. Minha mãe manteve o quadro da mesma santa em casa até viajar e a concubina de meu irmão, que se dizia evangélica, jogá-lo fora (afinal é representação do inimigo - embora eu saiba quem realmente é inimigo ali!) aproveitando-se da ausência da real dona da casa. Eu por minha vez sinto já os efeitos da catarata no olho direito. Possivelmente pelo hábito infantil de olhar direto para o sol. O fato de fechar o esquerdo para fazê-lo explicaria o porquê de um olho só... Quem sabe no futuro um tapa-olho caia bem...



Os clips das músicas citadas no texto podem ser assistidos em: 

Esquadros: http://www.youtube.com/watch?v=EeNUsrw8qA8

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ah, vá tomar banho... Ou, se preferir... vá lamber sabão!

            Desde que soube que Teca, uma amiga de Salvador, tem verdadeiro fetiche por sabonetes novos, cada vez que abro um novo não tenho como não me lembrar dela. E acabo de sair do banho, onde esta lembrança se somou a outras, de sabonetes, banhos, etc.

A mente vagou por Teca e seu pequeno prazer de abrir o invólucro e descobrir o cheirinho bom do sabonete novo e foi para Fabi, que em Ubatuba, uma vez confessou-nos seu estranho hábito de lamber os sabonetes. Foi uma risada uníssona, e ela teve que explicar que eram apenas sabonetes recém abertos, ou de seu uso pessoal e intransferível (esperamos mesmo que seja assim. risos]). Narrou-nos sobre a vez que tinha já abandonado o hábito, mas um dia ao abrir um novo para colocar no box não resistiu e... Lambeu! Motivo de lágrimas por voltar ao vicío, que depois explicou à mãe preocupada com o choro.



Duvirgens, “a louca”, e em um texto futuro hei de explicar o porque do epíteto “a louca”colecionava-os. Tinha vários, de aromas, formatos e ingredientes diferentes.

Patrícia os fazia para Marcos, que era alérgico, em uma prova de gentileza e amor ao marido, e vez por outra presenteava-os aos amigos. Cheguei a ganhar alguns.

Uma vez, depois de uma reunião “fudida”, saí da sala de reuniões de uma instituição onde trabalhei, entrei direto na minha sala, peguei a bolsa e disse às meninas que trabalhavam comigo: “_Acabei de engolir um sapo, que não foi muito bem digerido, então para não correr o risco de descontar em nenhuma de vocês, tô indo embora.” Peguei minha bolsa e saí, acabei indo à 25 de março, comprei uma revista de artesanato, material e fui eu mesmo fazer meus sabonetes. Aquele ano todos meus auxiliares e estagiários ganharam sabonetes no Natal. Hoje raramente os faço, por gostar de variá-los.

Ziza na maioria das vezes não os usa, toma banho apenas com água e bucha natural, mas dependendo do cheiro que tenham cede à tentação, mas apenas para lavar as "partes".

Diô, arredio à água como bom sulphurino da homeopatia, sempre diz que não sabe quem foi que inventou essa história de que banho faz bem.

Vô Erasmo, certa feita, estando adoentado, na casa de Dona Dalma, filha das mais novas, ficou dois dias sem tomar banho. No terceiro, Máxima, a filha mais velha chegou para buscá-lo e ele disse que não ia para casa dela, pois se fosse teria que tomar banho. Máxima apenas encrispou-se e perguntou que história era aquela, e ao saber da falta de banho do progenitor, apenas virou para ele e disse com toda a autoridade: “_Não precisa ir pra minha casa pra tomar banho não, eu vou te dar banho é aqui mesmo. Já pro banheiro!” Como quem a conhece não a contraria, ele cumpriu imediatamente a sentença. Máxima foi auxiliá-lo.
Saiu do banho até rosado, com os pelos do braço fininhos e arrepiados. Passados alguns instantes, aproveitando a saída da filha mais velha, resmungou: “A Máxima me deu banho com uma esponja tão engraçada; era um lado amarela um lado verde, chega que arranhava...” Sim, senhores leitores, a esponja de banho era uma Scott Brite...

Greg, o “terror das empregadas”, tinha como frase de impacto, de inicio da paquera, sempre a boca a perguntar: “ que parte do corpo você lava primeiro quando toma banho?”.

Tia Hercília, sempre que via algum grude exacerbado de namorados, dizia entre  jocosa e irônica: “Mas não é um amor de sabonete Phebo?”

Outro dia, dia internacional da  água, Alex inventou que boa maneira de comemorá-la seria não tomando banho a fim de economizá-la. Iniciou-se imediatamente uma campanha contra o suposto ato de sacrifício e, ao chegar, Roberta, sua esposa, já o encontrou banhado e cheiroso.

Quando viajo, a única exigência em hotéis é que tenham banheiro no quarto, afinal banheiro coletivo não dá. E nada mais gostoso que um bom banho com sabonete bem cheiroso e depois deitar em um lençol que foi acabado de colocar.

Em uma de nossas idas à Casa do Norte, ao ir embora, cruzamos com um rapaz que tinha acabado de sair do banho. Maluce notou na hora. Era Dove!

Bem, caro leitor, tenha um bom banho! Afinal, como dizia dona Anna Piantino, água e sabão lavam e limpam tudo, só não lavam língua de mulher faladeira.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Que tapete lindo!!! Posso puxar???

       De uma coisa há que se dar o braço a torcer quanto aos maus-caráter. Ao mais das vezes são simpáticos e/ou divertidos.

       E é isso que os fazem angariar simpatias de pessoas para as quais a profundidade de uma folha de papel (de seda) basta. Recordo de um destes seres trevosos que trabalhou na mesma empresa que eu, em setor diferente, graças a algum merecimento que eu devia ter com o plano espiritual. Essa criatura foi demitida por justa causa pouco tempo depois, mas enquanto esteve por lá fez estragos diversos, e chegava ao descaramento de dormir no trabalho, até ser pego neste ato por sua chefia. Fazia serviços particulares em seu horário normal de trabalho, utilizando-se de meios da própria empresa, inclusive da mala direta da instituição - o que foi sua perda.

       Dos poucos que lamentaram sua ausência, a justificativa era: “_Ah, mas ele era tão engraçado...”

E é assim que eles conseguem ludibriar incautos. Entre um sorriso e outro, entre um gracejo e uma piadinha preconceituosa... Há os que dotados de alguma beleza ou magnetismo pessoal usam a natureza para seduzir chefias carentes ou com instinto maternal não saciado, a quem a mais das vezes, estão ávidas por mostrar simpatias, admiração e compreensão em troca de pequenos favores e deferências. E assim são dispensados em emendas de feriados e mesmo em dias de jogos de seus times. Conseguem fazer tratamentos odontológicos que os dispensam mais cedo, por manhãs ou tardes inteiras durante anos a fio, parecendo ter mais dentes que células...

      Claro há os que não tem beleza, simpatia ou o dom da veia humorística e utilizam-se de puxa-saquismo e puxação de tapetes. E permanecem assim onipresentes aos pés da divindade de sua chefia.

      Uma outra havia, que era bem mansa até e ao menos não prejudicava a ninguém, presente estava sempre, todos os dias, mas ninguém nunca sabia onde... Por trabalhar apenas meio período, nunca se sabia se vinha pela manhã ou pela tarde, e assim dava plantão em seu escritório particular. Mas sempre estava ali para levar a chefia ao banco, ou ao dentista, quando esta necessitava. Como não dirigia, aceitava-lhe a oferta com muito gosto, e pegava caronas até o metrô quando saia... Mas quem é o aproveitador e quem é o aproveitado nesta estranha simbiose?

       E há os que defendem ardentemente as idéias de chefia ou empresa, sem questionar, o que poderia levar a uma discussão produtiva e resultados idem ao trabalho especifico, a normas e modus operandi de departamentos e firmas. Mas estão também, sedentos para mudar de idéia ao primeiro sinal de novo rumo na direção do vento; tornando-se "cristãos novos " assumem de pronto outros pensamentos e concepções. E os defendem com tal fúria e vigor que ninguém reconhece o espectro anterior.

       Lembro, tempos atrás, em horário de almoço onde dividia a mesa com vários colegas, que surgiu uma crítica a uma antiga chefia que saía para ir ao massoterapeuta na tardes de terça, drenagem linfática e massagem facial nas quintas, a cada três semanas bronzeamento artificial (nunca confie em ninguém de quem você não sabe a cor), e voltava aos finais da tarde plenamente relaxada (não vou dizer bela e formosa porque não o era, e ia apenas à clinica de estética não à clinica de cirurgia plástica). Vigiava ela, como um bom cão fila, para que ninguém saísse cinco minutos antes, o que seria motivo de explosões coléricas. Bem, situado o assunto voltemos ao almoço que transcorria. Uma das pessoas à mesa levantou-se em tom ríspido: “_Mas ela é chefe, e chefe pode tudo!” Repliquei apenas que já havia ocupado cargos de chefia por duas vezes e nunca agira assim pois achava que o exemplo tinha que vir de cima. A pessoa em questão enfiou um naco de carne à boca e calou-se!

       E chega de falar de chefias, só vou falar da que me disse uma vez, após ouvir argumento sobre a biblioteca que era apenas um setor dentro da intituição: “_Então eu mando por escrito e você tem que obedecer!”

       Há os amargos, os que sempre sabem da última, o que o outro falou, o que o outro fez, o que fulano Falou de Sicrano e o que José Abano replicou. E se questionados, nunca falaram, nunca viram, nem sabiam... Fica o dito pelo não dito, e viva São Benedito!

       O mais engraçado é como nos deixamos ludibriar por eles; vêm de mansinho como a serpente que busca o rato arisco, e aos poucos vão sondando personalidades e qual influência cada um tem no meio, para então escolher de quem e como se aproximar. E sempre tem os de gostos fáceis e os que sem maldade confundem sorrisos com amizades. Como nunca exerci influência e nem escolho amigos pelo que têm ou cargo que ocupam, não me dou bem nesse jogo de tabuleiro e mantenho-me à esquerda de risos cínicos e fáceis e favores pessoais que sempre serão cobrados de alguma forma. E mantendo-me à esquerda, sigo fiel a meus princípios e mantenho minha fama de mau. Afinal, sou ruim mesmo, pior que merda mexida sem tempero!


quinta-feira, 31 de março de 2011

E quem fica com vergonha sou eu...

             Era um senhor que até então eu acreditava mais ou menos respeitável, até o dia em que, ao receber a consagração do cargo de diretor de uma instituição, disse de cara aos funcionários que era uma honra, mas como tinha que cuidar de suas empresas, a tal instituição ficaria a cargo de sua assessora...
Era uma manhã de inverno quando ele adentra a biblioteca, sem cumprimentar ninguém,  acompanhado da turma do beija-mão, e depois de olhar em redor, vê na sala de atendimento dois micros (os velhos 361) e fala em tom irônico: "_Éééé, eu não tenho um computador..." Lembro que pensei, e depois comentei, com uma colega: “Nem eu tenho uma ilha!”

***

            Era uma senhora distinta, com aura respeitável, conferida por suas posições e seus livros, um dos membros mais notáveis do conselho da instituição. Um dia, toca o telefone, e era ela. Pediu para falar comigo, responsável pelo atendimento na biblioteca. “_Ah, é que eu estou enviando um rapaz que é filho de um amigo, ele precisa fazer uma pesquisa, e eu queria que ele fosse muito bem tratado!”
            Aquilo feriu-me os brios, até porque ainda não era misantropo e adorava o que fazia. A resposta foi apenas: “_Bem, ele pode vir, que será muito bem recebido, muito bem atendido, assim como são TODOS os demais usuários que nos procuram, independente de recomendações.”
Na verdade, acho que sempre iria atender melhor quem não viesse com recomendações ou carteiradas...

***


           Engraçado como algumas pessoas têm sempre que querer tirar vantagem de algum conhecimento, de algum contato. Em geral, pessoas miúdas sem expressão que fale por si, e que ao querer tirar vantagens mostram apenas sua pequenez. Dentre tantos exemplos rotineiros e que farfalham impunemente por aí afora, citarei dois destes exemplos para manter-me no tema.
Certa vez, uma “moça” queria emprestadas algumas obras das quais não se fazia empréstimo e que eram de uso restrito. Era apenas para mostrar na faculdade dela, além disso pretendia que o material de sua pesquisa fosse separado e depois fotocopiado e então enviado a ela, sem nenhum custo inclusive. Ao saber das impossibilidades, tanto dos empréstimos quanto da pesquisa segundo seus moldes, não teve dúvidas: “_Ah, mas eu sou amiga da ***, que era a diretora da instituição, e se eu falar com ela?” Respondi apenas: “_Bem, como você sabe ela é diretora e não bibliotecária, então não vai poder auxiliá-la em sua pesquisa.”
Isto, óbvio, por contar com o apoio e confiança da chefia imediata e da diretoria geral, a quem devo agradecimentos profundos.
Uma outra feita, já não contávamos com a mesma diretora, naquela mesma instituição, a mesma morrera há cerca de seis meses... Estava então em um dia normal de trabalho e toca o telefone; era um senhor querendo, ele também, material que não circulava,  a não ser para alguma exposição ou o que o valesse, já que tratava-se de material raro.
O mesmo queria que lhe fosse enviado por um motoboy, que ele mandaria apanhar, para selecionar em sua instituição, e depois então ele enviaria a solicitação. É claro que lhe foi explicada a impossibilidade, ao que ele rapidamente disse: “ Ah, mas sou muito amigo de Fulana de tal que é diretora, se eu falar com ela, tenho certeza que ela libera!” E eu compassivamente:Pois é, como grande amigo dela, o senhor sabe que ela não é mais nossa diretora, não é?” “Como assim? Eu não sabia, o que aconteceu?” “_Então, como o senhor é muito amigo dela, o senhor não soube que ela faleceu já há uns seis meses?”... Silêncio constrangedor e explicação de não saber por estar fora, etc... E não houve mais solicitação alguma...

domingo, 27 de março de 2011

Observações sobre o blog, e minha interação com ele e contigo.

Observo que os textos protagonizados por Francinette tem sido bastante comentados, a personagem realmente encanta e faz rir. E talvez o blog tome esse caminho, o das crônicas... Ou não, afinal este texto já não é uma delas. Não tenho sentido vontade de escrever sobre comportamento social, seja localizado ou global. Maus-caráter continuarão a sê-lo, independente de criticas positivas ou negativas a sua postura. Fofoqueiros continuarão a tomar conta da vida de outrem, independente de quantos gatos (cada um com sete vidas) lhes dermos para que tomem conta. E cá entre nós, alguns tipos de comentários e fofocas às vezes apenas fazem rir, e não ter raiva, em outros podem até servir de exemplo de como se comportar, ou na maioria das vezes, não se comportar.

Sim, é bem mais fácil escrever contos, causos, crônicas, bem mais prazeroso também, afinal, eles suscitam risos interiores, e para quem  tem fama, justificada é bem verdade, de mau-humorado, rir, e conseguir fazer rir, é de certo modo uma redenção.

Como já disse uma vez em postagem antiga, nunca me preocupei muito do que trataria o blog, o que me causou alguma critica sobre ele ser apenas para mim mesmo, mas se agora quase dois anos após, alguns amigos gentis, e mesmo leitores que não conheço, o lêem e fazem comentários é sinal que tem agradado a outros ângulos de visão.

Dia destes pedi a um conhecido que o divulgasse e recebi como resposta que “proselitismo apenas em família”. Bem, ia perguntar o que há no blog que o envergonhe, mas em todo caso, melhor deixar pra lá. Afora alguns que o abandonaram por rusgas pessoais, ele continua firme à véspera dos 70 seguidores, se Paulo Leminski, que é PAULO LEMINSKI, tem pouco mais que quatrocentos, para mim esse número é a glória, e se chegar a cem, terei que cumprir a promessa feita a Silvia de publicar o livro. (risos)

          Bem, é sobre isto que trata esta postagem, um texto de agradecimento a você que lê meus textos, ainda que de maneira esporádica e bissexta. Muito obrigado! Você me faz mais feliz!

quarta-feira, 16 de março de 2011

Vai descer no próximo?

 O café na copa geralmente me rende boas inspirações e lembranças de causos mais ou menos antigos que acabo por transformar em postagens no blog. O de hoje se deu quando, dia destes pela manhã, tomávamos café no trabalho e entra uma colega, sempre alegre, sempre sorrindo, sempre de vestidinhos ou saia e blusa que valorizam o belo corpo, cintura fina, flancos e seios de medidas capazes de alegrar velhinhos sem saúde. Pois bem, vem ela de ônibus, em um horário em que eles costumam estar sempre cheios e não sei porquê na hora, me veio a pergunta, que verbalizei no ato: “Marcela, nunca te encoxaram no ônibus?" De chofre ela responde: "Já sim, várias vezes"!! E o que se ouviu em seguida foi a risada a largo, dela e de todos que ali estavam, em seguida, contou-nos brevemente pequenos detalhes cômicos do ocorrido.
 
Foi aí que me lembrei de Francinette. Nos tempos que vivi em Cezídia,  Nette, já apresentada aqui, em outros causos, é de baixa estatura (não tinha em altura o que tinha em quadris, como se diz por lá: “Quadril de mulher parideira!”), me contou ela certa vez, que vindo de trem (e os trens de Cezídia são tão cheios quanto os ônibus de São Paulo), de repente sentiu algo cutucando-a... Estranhou, já que nunca fora “encoxada”, devido à altura que não favorecia o ato libidinoso por parte de possíveis interessados em tal tara!
 
A insistência do “cutucão”, o formato anatômico que sugeria o estranho objeto a fez voltar-se para verificar a razão do incômodo, e eis que se depara com um sujeito franzino, da mesma (pouca) altura que ela, tentando ficar mais próximo, bem mais próximo...
 
Tentou esquivar-se, mas a quantidade de gente no vagão a impedia de afastar-se o suficiente, devida também à insistência no contato físico por parte do fã.
 
Faltavam ainda duas estações e ela a esgueirar-se aguardou como pode, até chegar a próxima. Agora sim, como desceria na próxima, resolveu agir. Pigarreou a limpar a garganta para aclarar a voz, e em alto brado retumbante argüiu: “Gente, gente, socorro! Tem um tarado aqui se esfregando em mim gente!” O rapaz no susto afastou-se o quanto a multidão no vagão permitia, e tentou defender-se: “Não dona, não tô não! É o vagão que tá muito cheio, mas num tô fazendo nada com a senhora não!”
 
E o diálogo prossegue: “Tá sim, gente", e afastando-se aponta para o dito, "tá sim, olha só como ele está, vê bem! Vai se esfregar na sua mãe”.
 
“Não, dona não tô não...
 
E o trem chega a estação, abre as portas e ela rapidamente se atira para fora deixando a confusão rolar, gente a bradar, “aê tarado!” e mais o burburinho de comentários depreciativos...
 
Fora, já subindo a escada, Francinette olha pro trem, já se pondo em movimento, dá uma gostosa gargalhada e solta de si para si mesma: “Este não apronta mais! 

 É... Como diz um conhecido: Tá carente? Pega o Terminal Bandeira - Jardim Miriam das 17:30h. 

 E Você caro leitor(a), já foi encoxado(a)? 

Foto: Outras vias -

quinta-feira, 3 de março de 2011

Votou no prefeito? Bem feito!

Seu Jaca era o prefeito naquele tempo. A alcunha lhe tinha grudado às faces poucos antes da eleição, quando, sem instrução formal, para concorrer fêz um curso às pressas, e segundo as línguas, boas e más, tinha respondido na prova que Jacaré era mamífero. Daí espalhou-se rapidamente por todos os cantos da cidade, independente de quantos cantos tinha, de que classe social habita-se cada canto, o apelido de Jacaré. Sabendo ele sobre o tal apelido, ao sair o resultado da eleição, mandou desfilar em um carro por toda a cidade, preso em um aramado (que fazia às vezes de jaula), um enorme jacaré, e preso às grades, uma faixa com os dizeres: “Jacaré mama sim!” Já que de fato ele tinha “mamado a eleição”!
 
De jacaré a Jaca, foi um pulo, afinal abrevia-se tudo, porque desde Macunaíma a preguiça e o desejo de esforço menor vive por aqui, seja na preguiça de ler, de levantar para entregar um documento na mesa ou sala ao lado, seja no digitar ou abrir da boca para pronunciar uma palavra mais comprida.
 
Já eleito, empossado, titulado, diplomado, vez por outra soltava pérolas, que verdadeiras ou não, quem poderá saber...? Afinal já se disse há muito que o folclórico é o que fica.
 
Fazíamos parte de um movimento cultural. Certa feita, organizando um evento, fomos à prefeitura solicitar cópias xerox para divulgação. Atendidos pelo prefeito (é, já houve tempo em que eles atendiam cidadãos comuns), ele apenas respondeu: "A máquina está quebrada!"
 
Ao sairmos, agradecendo polidamente, Chico dirigiu-se à secretária: “O prefeito mandou tirar 200 cópias.” Daí a pouco, saíamos com as cópias do convite para o evento.
 
Reza a lenda que, quando recebeu uma comitiva do IBAMA, que veio oferecer mudas de palmeiras para arborizar a cidade que é quente como Teresina, o prefeito após ouvir em silêncio a oferta responde: “Vocês já subiram no prédio da Cezíso que é o mais alto de Cezídia?” Ao que estupefatos responderam: “Não!” com a cara de quem viu visagem.
 
E veio a fatídica sentença: “Pois então subam, e vocês vão ver o tanto de mato que já tem nessa cidade pra me dar trabalho!” Reunião encerrada.
Era assim, curto e grosso, à vezes mais curto que grosso, outras mais grosso que curto...
 
No cemitério de Cezídia, a grande maioria das covas ficava no no chão onde se faziam canteiros de flores, onde mulheres pobres das proximidades tiravam seu sustento, regando as covas de famílias mais remediadas duas ou mais vezes por semana, conforme o contrato. Regavam, arrancavam as daninhas ervas que cismavam em brotar com canteiro de terra fértil, já que adubo não faltava ao campo santo. Entretanto, o caminho às covas era inundado delas, formando verdadeiro matagal, em alguns trechos difíceis de transpor.
 
Seu Jaca, em visita ao cemitério durante um enterro de um defunto rico, abordado pelas aguadeiras, que corajosas foram ter com ele, ouve impassível a solicitação: “_Seu prefeito, por favor, tenha dó de nóis (sic), mande carpir o cemitério... Olha como tá de mato, olha como tá meu vestido, tá até bordado cheio de carrapicho.”
 
Seu Jaca insensibilizado, sem mover sequer um único músculo do rosto, apenas olha, e então sorrindo com sarcasmo responde: “_Tá cheio de carrapicho, num tá? Pois  então pegue... Leve pra casa... Faça um chá, e beba!”

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Deu branco

A síndrome da folha branca... 

Maluce sempre fala que sofre dessa síndrome quando vai postar algo em seu blog (Diário de Myrna). Às vezes me acomete também, como hoje, em que não sabia sobre o que escrever. Mas eu e Myrna Gioconda, temos processos criativos diversos. Ela escreve de punho, analisa, corrige, lê, re-lê... 

Eu por minha vez, sento e a mais das vezes sequer releio, as correções são feitas pelo word, ou por amigos, Jair, Carol, Teresa... Se eu mesmo vou fazê-lo, o texto ganha outro aspecto, mudo tudo, enfoque, parágrafos de lugar, e sai outro texto. É uma grande falha não reler, pois em geral poderiam sair melhores, ou... Menos piores... Dificilmente me satisfaço, e como a pedir socorro mostro a pessoas próximas afirmando: "não sei como acabar isso", "esse final não me agrada". Mas sempre acaba indo ao ar do jeito que está. 

Outro fato é a mudança de um tema pra outro, uma frase me remete a uma lembrança de um fato e isto vai ao texto, correndo de um canto a outro da mente sem preocupar-me se as orações são coordenadas (sindética ou assindeticamente).  E por ai vou; depois, quando vejo publicado, é que me dou conta de ter fugido do assunto a que me propus no início, não que ache que isso empobreça o texto, pelo contrário, pode ser um estilo (risos, como costumo dizer: em geral somos muito condescendentes com nós próprios).


Hoje era um dia destes em que não sabia o que escrever, e já que a tela em branco na minha frente conclamava ser preenchida com caracteres que formassem um texto, porque não falar sobre isso? Afinal já era sexta-feira e os textos novos costumam ser publicados no blog às quintas... Eu pelo menos sei disso. E acredito que alguns seguidores (mais uma condescendência a mim) também recordem e vão até lá ver o que há de novo. 

Na verdade, escrever algo novo a cada semana não deixa de ser um bom exercício para prevenir o Alzheimer, e eu que escrevi na juventude dezenas de cartas semanalmente, aproveito para não esquecer a forma das palavras num mundo virtual onde cada vez se escreve mais errado, e novas e bizarras abreviações são criadas a todo instante. É também uma espécie de terapia, onde eu, misantropo e irritado confesso, busco formas de expressar pensamentos e sentimentos íntimos e assim, com episódios odiosos e risíveis, contribuir para o fomento do riso ou da indignação dos que compartilham a leitura. O assunto é vasto, não sei se dentro de mim apenas, mas acredito que prolongar o texto seria torná-lo cansativo e redundante, acho que parar por aqui seria sensato, quem sabe em outro momento tenha mais a dizer. Por ora, paro por aqui.

Foto: Carol Bracht

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Comidas, colegas e causos de infância.

Hoje no café da manhã o papo flui para comidas antigas, comidas de infância, logo: comida de pobre.
 
O item que deu início a essa sessão de rememorações foi “quitute de boi”, que é uma espécie de carne prensada que vem enlatada, e a lata quadrada é aberta por uma espécie de chave que você gira até cortar a tampa. Também vinham latas de fiambre no mesmo formato, isso lá pelo final dos anos 1970, inicio dos 1980... E era também um empurrão rumo aos enlatados estadunidenses, como as almôndegas e os feijões brancos. Tudo pronto e enlatado, moderno!


 
Na TV, “A feiticeira” há tempos já usava o nariz a fim de ligar na tomada o liquidificador e o aspirador de poeira, já que o belo nariz arrebitado não podia de vez acabar com o pó (não confundir com pós brancos e alucinantes) de sua casa ou fazer vitaminas para a família. Lá pelos anos de 1960, sua finalidade como garota-propaganda era disseminar os produtos mundo a fora. Afinal, seu marido era um publicitário que mostrava ao mundo a nova profissão e, sem eles - a profissão e os produtos, a série nem mesmo existiria. Na mesma época, "Jeannie é um gênio" popularizava a Nasa e por aí vai.
 
Mas voltando às comidas, como alguns não conheciam o dito "quitute", terei que comprar e fotografar um deles. Portanto, amanhã ou depois este texto terá ilustrações, não percam...
 
Do quitute, que falamos ser também comida de pobre, pois pobres éramos, passamos para taioba, outro desconhecido do lado direito de quem estava à mesa... Imagine então se eu falasse de vinagreira e bolo frito...

Lembrei de angú... 
 
Lembrei-me de Washington.
 
Washington era um dos coleguinhas de infância; sua mãe, que hoje percebo devia ser fã de musicais hollyoodianos, vestia-se sempre como se fosse sair e usava colarzinho de pérolas (falsas é claro) o tempo todo, talvez por assim chamar-se. Sempre bem penteada, moravam em uma das casas mais bonitas da rua. Na varanda, assim como no interior, vasinhos de flores à moda das casas de filmes das sessões da tarde.
 
Era o contrário da mãe de Kleiton. Esta, a costureira da rua e que, pelo visto, levava vida apertada, chamava-se dona Esmeralda e hoje imagino se ela tinha alguma rixa com dona Pérola, podendo então este texto chamar-se a rusga das jóias.  
    
Brincávamos na rua, já que àquele tempo poucos tinham carro na nossa, que formava um cotovelo e não tinha saída, praticamente uma vila. Em nossa infância mineira estávamos sempre a correr, pular corda, jogar queimada ou brincar de pique na rua ou a brincar em algum dos quintais vizinhos, amplos e com flores ou árvores...
 
Em geral ao tornar-se a tarde mais quente, lá pelas 15:00 ou 16:00 hs., invariavelmente ouvíamos dona Pérola que saía à janela ou varanda a gritar como se estivesse a cantar uma ária de Bizet:
“_Washingtooooooooon... Meu filhinhooooo... Venha lanchaaaaar... Tem pão com salameeeeeee, e guaranááááááá... Traga seus amiguinhooooos...”
 
Imediatamente, dona Esmeralda abria a janela, com força, que sempre batia às paredes e berrava: “_ Creitô! Vem cumê!! (Sic) Tem angu doce! Traz fi-da-puta nenhum não!!!”


Foto: Claudia Cavalcante - Lata de quitute bourbon.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Lavando a louça suja

Uma das coisas com as quais, acredito, eu nunca vá me conformar, é a imundície com que vivem algumas pessoas, o modo como se comportam, mesmo vivendo em sociedade. Não falo de nômades, andarilhos ou náufragos, presidiários ou asilados, mas de pessoas com educação formal adquirida e à primeira vista comportamento social adequado. Mas já disse o cantor: “de perto ninguém é normal.” 

Dia desses, uma amiga, advogada, comentava chocada sobre o atendente da sala da OAB de um fórum, que lhe atendeu comendo bolachas... Já vi pessoas em outros trabalhos com o mesmo tipo de alimento à boca, e os farelos a saltarem na cara do “atendido”. Mas nem me choquei tanto quanto o que ainda havia de ver... 

Um dos absurdos freqüentes é a sujeira em refeitórios de ambientes de trabalho. Afinal, se em suas casas os funcionários quiserem pias em urinóis, que o façam, nada tenho com isso, mas imagine em um espaço compartilhado por várias pessoas, o quão desagradável é chegar para sua refeição, ou um lanche, o que for, e encontrar o micro-ondas repleto de restos de comida, porque as pessoas o usam sem tampar suas marmitas e depois não vão se dar ao trabalho de limpá-lo, é claro. E aí, tome molhos vermelhos, brancos e furta-cores, pequenas crostas que poderiam ser de feijões, arroz, crocodilo... Quem sabe seja um jogo do adivinha que esteja a acontecer e eu é que não fui chamado a participar... 

E a pia? Bem, esta é um capítulo à parte, tem gente que deve achar bonito, vai saber... Mas sempre estão lá, os restos de arroz, enchendo a tela que os impede de ir ao ralo... E não, não é por falta de aviso. Colocam-se cartazes, com ilustrações inclusive de uma pia pavorosa, e com solicitação para que, ao lavarem suas marmitas, recolham seus restos e joguem ao lixo, mas... Dá trabalho... Ou então quem sabe é uma tara semelhante a de um personagem de novela recente que sentia tesão por cheiros fortes... Tem tanta patologia estranha por aí... Por isso mesmo os cartazes foram retirados... Mas também, nem adiantavam mesmo... 



Outros tomam cafés, chás, água, enfim, o líquido que os apetece, e ali mesmo na mesa largam seus copos sujos, e quem quiser que os recolha e jogue-os no lixo. Estranho, conheço gente que sempre teve empregados, e que jamais procederia assim... 

Banheiros de espaços públicos, esses então... Não estranhei que o banheiro reservado apenas a funcionários tivesse dia destes com a tampa toda respingada de urina... Não estranhei, não... Afinal, estranhar depois de ler um dia “pixado” na porta de um banheiro de conceituada universidade: “Sou aluno do 4º ano de medicina e todo dia uso este banheiro, nunca dou descarga, para que todos vejam a minha obra”. Comento? Melhor não... Mas a partir daí não me causa estranheza que banheiros femininos tenham que ser fechados ao serem entupidos por absorventes ali jogados... Às vezes, acho que há uma guerra em curso, uns urinam nos vasos porque quando vão lá estão com dejetos, outros não dão descarga porque quando vão usá-los estão com as bordas repletas de urina. E não é porque não tenham mictórios... Trata-se de represália... Só isso explica... 

Outro dia quase falei pra namorada de um rapaz, que era acariciada no rosto por ele, que o jovem mancebo tinha acabado de sair do sanitário e sequer tinha lavado as mãos... Mas enfim, ela o escolheu, ela que arque.
E tem gente que se horroriza quando alguém, por sentir náuseas ou simples excesso de saliva, cospe no chão. Não se choquem, existem coisas piores por vir...


Foto: Carol Bracht Souza - A Pia citada no texto. 
Como hoje é dia de feira, e as pessoas vão comer pastel, não está em seus piores momentos.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sala Inclusiva é inaugurada na Biblioteca Central da Unifesp

  Nesta última quarta-feira, 02 de fevereiro de 2011, foi inaugurada no sub-solo da Biblioteca Central da Unifesp “Prof. Antonio Rubino de Azevedo”, a primeira sala inclusiva da universidade. Fruto do “Projeto Incluir”, do Governo Federal, a aquisição de equipamentos foi possível graças à ação do NAI/UNIFESP – Núcleo de Acessibilidade e Inclusão, do qual fazem parte os Bibliotecários: Maria Elisa Rangel Braga (diretora da Biblioteca Central) e  Djair Rodrigues de Souza. 
              
O projeto desenvolvido no NAI contou com várias frentes e, no âmbito da Biblioteca, após pesquisa realizada, optou-se pela aquisição de equipamentos modernos que compõem a sala inclusiva. Foram adquiridos dois microcomputadores, com teclado em Braille, dois scanners leitores (que escaneam e simultaneamente lêem o documento apresentado na tela do computador); uma lupa eletrônica com monitor de vídeo e 10 réguas de leitura. 
 
             
Além destes equipamentos, também foram adquiridos, com recursos da Biblioteca Central, dois fones de ouvido e um ventilador. 
                 A sala está disponível a toda comunidade, promovendo acesso digital e inclusão social. Para tal finalidade, a Biblioteca também possui rampa de acesso conforme normas da ABNT, banheiro para deficientes e elevador, o que promove maior independência  aos usuários portadores de deficiência locomotora.
 
Fotos - Marcus Vinicíus Garret Chiado :
Panorama da sala inclusiva
Demonstração da Lupa Eletrônica.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Mãe aceita e compreende tudo!

Júnior levou um baita susto, quando logo pela manhã a mãe, de sopetão,  entra em seu quarto; era sábado e ela o acorda às 09:00hs abrindo a janela e erguendo cortinas. Ele ajeita-se na cama e olha para mãe que com ar preocupado e olhar condescendente diz: 
_ Júnior, eu sou sua mãe, sempre lhe apoiei, te amo, e compreendo. Eu quero ouvir de você meu filho: Você é?
_Que é isso mãe? Tá louca? Que história é essa?
_Júnior, eu sou sua mãe, lhe aceito do jeito que você for, já encontrei evidências, já me contaram e foi pessoa séria quem falou. Eu vou continuar te amando, te apoiando, te respeitando do mesmo jeito. Eu só quero que você me diga meu filho. É verdade?
_Mãe, tão enchendo a cabeça da senhora, isso não tem fundamento não. Agora a senhora vai ficar acreditando nesse povo? 
 
A tensão era grande, Júnior já com taquicardia e o sono tinha passado de vez!
 
_Júnior, meu filho, eu vou perguntar pela terceira e última vez. Se eu tiver que saber, prefiro que seja dito por você, e a hora é agora. Se você não me contar agora, e eu souber depois vou ficar muito desapontada. Você é meu filho e ninguém te ama mais do que eu. Eu vou te dar todo apoio e te entender. Você sabe que o que eu puder fazer por você eu faço, então é última vez que eu pergunto: Meu filho, você é?
 
Pausa que parecia ser eterna, Júnior cabisbaixo, ergue os olhos, encara a mãe e dispara:
 
_Tá bom mãe, já que um dia a senhora ia saber mesmo, então tá: eu sou, eu sou gay sim!
 
Se Júnior tinha se assustado ao acordar, quase cai da cama com o alto brado retumbante da mãe:
_O quêê???? Que história é essa? Que eu tava sabendo é que você era maconheiro, mas filho gay, eu não aceito nãããão!!!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Francinette, a hipocondríaca insone


Ainda nestas mesmas da postagem anterior férias, visitamos (Francinette, Mário, que nos hospedava e eu) Clara, uma conhecida em comum que esteve a morar em Fortaleza. Clara era fã de butiques e usava sempre as melhores grifes, por isso mesmo, era comum a chamassem de Clara Dancing Days, ou devido a beleza facial desfavorecida, de Clara Crocodilo, já que apesar do corpo jeitoso, como diziam alguns, o diabo tinha peidado em sua cara. Ginecologista, tinha amizade com Francinette desde tempos imemoriais, estudaram juntas no colegial e passaram na mesma faculdade em Fortaleza, onde os pais, de recursos avantajados, as bancaram. Isto serviu para aproximá-las mais, divisão de apartamento, e até um ou outro namorado. Clara nos serviu iorgutes e biscoitinhos, foi uma tarde agradável, depois pizza lá pros lados da Volta da Jurema, e nos recolhemos na casa de Márcia que nos hospedava.


 
Fomos todos dormir. Anette antes de recolher sente cólicas e constata diarréia. Daquelas fortíssimas, constantes e mal-cheirosas. Começa aí seu dilema, era inicio dos anos 1990 e a doença da vez era cólera. E Anette, sem querer acordar ninguém, fica a remoer-se, é cólera, eu vou desidratar, vou morrer aqui longe de casa, e agora? E toma água para reidratar-se, e se lastima pela morte próxima, tão jovem, nem tinha feito nada na vida ainda, e morrer de cólera, logo ela que era médica, quando de repente lembra: Ah, mas não tá como água de arroz não... Então não deve ser cólera, mas é o quê? AIDS? Ah, meu Deus, como foi que eu peguei isso? Eu sempre me cuido, não é possível, e agora?, e a vergonha quando minha família souber?, quanto tempo eu ainda vou ter de vida? Mas... Se fosse AIDS meu cabelo já tinha começado a cair... É cólera mesmo... E esse dia que não amanhece, e eu aqui desidratando... E ninguém acorda... E faz soro caseiro, e impacienta-se cada vez mais, pois já não consegue beber mais água do que já bebeu, e... Peraí, mas se fosse cólera eu estaria vomitando também... É AIDS mesmo...

E assim foi grande parte da noite...
 
Quatro horas da manhã, depois de suores sem fim, mas com a diarréia já um tanto controlada, "não tinha mais nada pra sair mesmo", Anette lembra: “Foi o iogurte envenenado que aquela bruxa me deu!.  Amanhã eu a mato!!!"
 
E vai dormir. Só na manhã seguinte é que soubemos do drama da noite insone, entre gargalhadas nossas e xingamentos de Francinette.

Foto: Djair - Mesa posta para café da tarde (sem iorgute!). 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Francinette, a hipocondríaca voluptuosa

Francinette, ou como todos a chamavam: Anette, era ginecologista, baixinha, loura (naquele tom que no Nordeste chamamos de "fogoió", termo que minha mãe definia como: "cabelo da cor de mel com terra"), magérrima, fogosa, metida a sensual... Em seu jaleco branco trançava os corredores do hospital alegremente alargando-o com o cadenciado balanceio dos quadris avantajados para o corpo franzino.
 

 Tida como excelente médica, era hipocondríaca... Certa feita, estávamos na praia do Futuro (Fortaleza – CE) quando ela sentiu uma pontada no peito, da barraca (subindo ao céu) vimos quando levou a mão ao peito. E parou!
 
Todos ficamos apreensivos quando ela chega esbaforida e vasculhando a bolsa nos entrega a chave do carro. “_corre pro hospital que eu estou tendo um infarto!”
 
Saímos meio desconfiados já por conhecermos a tendência a exageros da colega. Antes do final da rua, metemos o carro, a coisa que nossa heroína mais amava, em um enorme buraco, e todos apreensivos pela bronca olhamos para ela ao mesmo tempo, que apenas disse: “_Mete o pé, não se importa não!” A coisa então era grave!!
 
Chegando ao hospital, ela prontamente atendida após identificar-se como médica que era de fato, empoleirou-se em uma maca e sumiu corredor adentro levada por um enfermeiro bonitão no qual ela não deixou de reparar...
 
Quase uma hora depois, feitos os exames e radiografias, volta Anette meio que desconfiada e cabisbaixa... “_Eram gases!” A risada geral só não foi mais alta e duradora pelo “Psiu!” que recebemos da enfermeira com cara de poucos amigos.
 
Juntamo-nos para sair, mas antes de passar pela porta da frente, ainda ouvimos de Anette: “_Ah, mas vocês viram o enfermeiro??” – Novos risos.


Foto: Rodrigo de Luca - Escultura não identificada - Museu de Belas Artes - Rio de Janeiro 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Àgua por cima, formiga por baixo...





A chuva cai lá fora; não é motivo de esmorecimento, ainda que fosse tormenta; a  lenha a crepitar no fogão traz calor e viço. Dásia frita peixes que Herculano e eu pescamos no dia anterior. Busco um limão no pé dos fundos, correndo debaixo da chuva que tira sarro de mim.
 
Comemos alegres, rindo e lendo as recomendações coladas na janela, entre causos de pessoas simples que chamam filtro de firto e de Rita, que quebra todos os cabos de ferramentas - pás, enxadas e tudo que tenha cabo. As risadas espantam a chuva e quando as gotas ficam menores, saímos para pegar as mangas recém-caídas de altos galhos; as palmas estão tão belas que não resistimos e as mutilamos no intuito de trazer a beleza para dentro de casa; as uvas da parreira estão verdes e nos frustram. Formigas sobem pelo corpo, tira-se a roupa para acabar com a correição*. Dio, vendo a irmã de calçola a matar as formigas pelo corpo, grita: “_É a visão do inferno!” Rimos às pampas, e ainda mais quando retruco: “_Tem uma na sua bunda!”
 
Deixamos as uvas pra lá, estão verdes mesmo, já diria a raposa. Ao contrário das lichias, saborosas em sua sensualidade rósea. A água das folhas nos banha, mas a ganância pela fruta é grande ao descobrir o sabor da fruta no pé e comer ali mesmo. Os pêssegos de igual modo; o problema em colher pêssegos é que se colhe um e comem-se dois. Até o Zi, que não gosta nem de àgua nem de lama nos acompanha e  se atira a frutaiada com gosto... 
 
Com a chuva, a cacimba está cheia, a água meio barrenta e não bebemos por isso. Limpamos folhas da bica que forma-se ao final do canal que transborda encharcando o caminho. Acima da nascente, o cruzeiro nos espera paciente para mais uma prece, mais um agradecimento, mais um pedido...
 
Retornamos contentes, o fogo ainda está aceso e um café fresquinho é produzido enquanto trocamos as roupas molhadas, tiramos os carrapichos e o picão das que trajávamos. Tio Onofre, o vaqueiro de dentes perfeitos em seus quase noventa anos,  chega contando causos de benzeção e livramentos; o céu diante de tanta alegria recolhe suas nuvens e já não há vestígios de mau humor. Ê vidão!!!


*Correiçãodesignação comum a inúmeras espécies de formigas carnívoras. 

 Foto: Dionísio Pedro da Silveira - Casa da roça - Sítio de Dionísio