quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O olho da velha

“Na rua do meu amor
 Não se pode namorar:
 De dia, velhas à porta,
 De noite, cães a ladrar.”

      A quadrinha, que inspirou-me a escrever esta postagem, foi publicada hoje, no facebook de Maria Gonçalves, amiga de Oeiras, Piauí. Oeiras, antiga capital desse estado, ainda guarda joias como praças amplas e belas e igrejas jesuíticas e outras tão singelas, tão belas e tão caiadas quanto, além de um mercado peculiar, e se toma cajuína tão cristalina e fresca que se esquece o sol que torna a paisagem árida... Mas o texto não é sobre a cidade desta vez, nem sobre suas igrejas, praças ou a enorme estátua da santa que, coroada no alto do morro, finge abençoar a cidade. Mas é sobre as velhas que vigiam os namorados.

     D. Carmela, a senhora que fazia nosso café aos tempos que eu trabalhava na Cinemateca, era o contrário, uma fã dos namorados. Naquele tempo, a Cinemateca ficava dentro do Parque público da Conceição,hoje chamado Lina e Paulo Raia, e da ampla sala da biblioteca eu tinha através da sala toda envidraçada a visão da bela flora do parque, palmeiras, eucaliptos e tantas outras árvores. O vigia das casas que acolhiam o acervo, mais do que preocupado com seus afazeres de portaria ou vigilância, preocupava-se com os namorados no Parque, o que não era de sua atribuição, e vivia sempre em rusga com D. Carmela que os defendia, pois era tão bonito ver os casais de namorados a namorar pelo parque, e eles não estavam fazendo nada demais, e ele não tinha nada que prestar atenção no que faziam lá fora... E assim passavam o dia, ele a sair pelo parque passando descompostura nos casais que interagiam mais, ela a defender o amor dos jovens. Mas nem todas são assim de cabeça tão aberta e romântica.

     Uma certa vizinha que tive em Cezídia, invariavelmente à noite, ao ouvir passos na rua, corria e ia abrir uma brecha na portinhola da porta da frente, uma porta cinza em paredes rosas, que anos depois ganhou reforma e mudou de local, e agora me pergunto como será que ela faria então para ter atualizados os fatos sobre quem chegava e quem saía, com quem e a que horas...? Mas então àquele tempo saía eu sempre com uma grande amiga, que hoje já não é sequer conhecida, visto que a desconheço, tipo a música de Chico, o Buarque, não o de Assis, não confundam. “Quem jamais esquece não pode reconhecer.” Bom, mas deixemo-la de lado que nem lhe cabe aqui ou em quaisquer recordações, mas o fato era que a velha, dona da rua, e quem nem era velha apenas uma curiosa, sempre estava lá a olhar quando eu saía com esta ou com qualquer outra pessoa, ou quando minha namorada à época vinha em casa, enfim, a qualquer passo, meu ou de outrem, em direção às noites, até o dia em que não me aguentei e falei: Aqui é Djair, Fulana e Sicrana, vamos à beira-rio, comer picanha, quer mais alguma informação? A fresta deixou de ser aberta a partir de então, ou pelo menos a luz da sala se mantinha apagada...

     Ao comprar uma casa em um bairro bem mais residencial, sabia da fama da senhora que a habitava, Dona Ana, uma portuguesa já bastante entrada em anos, que vivia solitária com o marido e para quem a casa tornou-se grande; durante anos ela alugava quartos a comissárias de bordo, mas intrometia-se de tal modo em suas vidas, que o negócio acabou por ir água abaixo. Na rua, sua fama era de que não dormia, dando contas da vida de um, outro e ainda mais alguns... Mas maledicência dessa gente pois que ela não teria tempo para isso, coitada! Pois bem, fechamos o negócio, e só depois de mudar percebemos o defeito na persiana do quarto. A enorme janela de madeira podia ser deixada aberta apenas com as abas ripadas, o que permitia o ar circular livremente, refrescando a casa no verão ou, no inverno, fechando-se apenas os vidros. Era o quarto da frente, o que a tal senhora ocupava, afinal era o maior da casa, suíte, como chamam hoje os quartos com banheiro, que logo devem inventar um novo termo em inglês para combinar com os espaços gourmets que se tornaram as cozinhas e os livings que deram lugar às salas. Mas enfim, o que havia de errado com a tal persiana de madeira da janela? Ela tinha uma enorme abertura entre duas das ripas, exatamente à altura dos olhos de uma pessoa em pé à janela, que ficava assim invisível a quem está de fora. Pequenas marcas de mão (grude mesmo) comprovavam a abertura do espaço para a visão, dando assim completa visão da rua e lembrando o Muxarabiê que vi em Diamantina – uma sacada em treliça trabalhada onde as pessoas de dentro (em geral senhoras, bem guardadas da vista do povo) podiam apreciar todo o movimento da rua sem serem vistas.

     Mas D. Lucia, que naquele tempo era conhecida em Cezídia como a “não se pode” e aí deixo que o leitor pesquise o folclore nacional para saber a história do “não se pode” a fim de não alongar ainda mais a prosa que já pode se tornar cansativa e morosa a quem chegou aqui, e volto a D. Lucia que pobre como Jó sustentava a casa lavando roupa pra fora e, reza a lenda, passava o tempo passando a roupa à noite... uma bala de mel pra você que já adivinhou... a tomar conta da rua... Aquela noite fazia um pouco de frio, inventamos de ir namorar na praça, e levei em uma sacola grande uma manta, que inclusive fora presente de uma tia, a Balola, e fomos lá... Na volta, a Não se Pode da rua lá estava em sua calçada, e eu vinha por um beco de atalho, passando ao lado do cemitério que logo ia dar em nossa rua. A vi na calçada, sentada num tamborete, fumando... a conversar com alguém de quem não mais me lembro... voltei sorrateiro atrás do passo dado, tirei a manta, envolvi-me nela, a cabeça, o dorso, parte das pernas, como hoje fazem os mendigos e craqueiros do centro de São Paulo, estiquei-me todo e saí meio fazendo um gingado, e a balançar ombros e sei lá que outras presepadas atravessei a rua em passo firme. Vi que ela se esticava toda para observar e tão logo atravessei o logradouro corri até a esquina, enfiei a manta no saco plástico e vim fazendo cara de assustado. D. Lucia de olhos arregalados me pergunta que marmota era aquela na rua escura e se eu tinha visto... E eu pondo as mãos ao peito, respondi: nossa, não sei não, mas quase morri de susto. E ela: você viu... os dentões deste tamanho, medindo com as mãos. E eu a confirmar isto, e mais as pernas cabeludonas que ela vira e os cabelos compridos que estes sim podiam ser as franjas da manta que, longas, pareciam cabelos com um grande esforço de imaginação... O resto só mesmo naquela fértil mente... Não faltou assunto no dia seguinte sobre o trem esquisito que por ali passara.

     O que me enseja uns versinhos, para encerrar como se iniciou:

Naquelas ruas de Cezídia,
não se pode namorar, 
pois o que as velhas não veem, 
põem-se logo a inventar. 


Fotos: Djair - A  fresta de Don'Ana.
                    - Catedral de Nossa Senhora da Vitória de Oeiras

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Réquiem a meu pai

12 de fevereiro de 2013, àquele dia, uma terça-feira de carnaval, meu irmão encontrara meu pai morto, em seu quarto, caído ao chão, posição fetal, as duas mãos sobre o rosto, como gostava de dormir. Talvez a queda tenha sido causada pela dor sentida ao aproximar-se o momento de sua partida, sabe-se lá o porquê, um ataque cardíaco, ou qualquer outra desculpa dessas que a vida usa quando a morte vem ceifar-nos a presença física daqueles que amamos. Mas ali, ao lado da cama, o corpo não teve ânimo, e menos ainda, forças de voltar à cama.

A fome que passou nos últimos dias, sem conseguir ingerir qualquer alimento, e sequer água, devido à obstrução do tumor no esôfago, lhe minavam força, vontade, ou qualquer sentimento que necessitasse para uma reação maior. Negava-se a soro ou internações e à mera menção destes surgiam fortes irritações, como são as minhas, que ora, já se sabe de onde vêm.

Morreu em casa, como queria; de mim, não se despediu, embora o abraço que lhe dei no momento antes de minha partida, na última vez em que fisicamente estivemos juntos, lhe falasse de amor, de admiração, de carinho por aquele homem que era então uma caricatura suja e amassada do que tinha sido, seus orgulhos vencidos de há muito pela perda de tudo que tivera, posses e família, família que depois viera a resgatar, numa profunda descida rumo ao fundo de um poço que ele cavara com a ajuda do álcool, da teimosia, da intolerância.

Resgatamo-lo de uma condição triste, mas ai então já não era mais o mesmo homem, anos de bebida e outros desregramentos o tornaram irreconhecível a quem o via de terno, a debater política, religião, direito.

Ali no chão, sob o quadro do Sagrado Coração de Jesus e Imaculado Coração de Maria, que fora de minha avó, ele já não era mais coroinha, advogado, pai, filho, nem estava ali o espírito que, se não santo, mortificou-se ao fim de uma vida digna de enredo fílmico, pela fome, dor e sede. Nunca dormia sem rezar, nem jamais se levantava sem benzer-se, e acredito essa fé tenha sido o que lhe valeu no martírio de seus últimos dias. Até à véspera da morte, quando ao despedir-se de meu irmão, recomendou como sempre: “Vai com Deus, tá tudo bem!” O quadro, temo tenha o mesmo fim de uma imagem de santa Luzia que minha mãe sempre teve, de quem meu avô era devoto, que os “evangélicos” deram fim, aproveitando-se de sua ausência quando veio visitar-me. Está morto; uma boa morte é prometida pela Igreja Católica a quem tem em lugar de honra em sua casa os sagrados corações. Está na quinta e na décima segunda promessa do sagrado coração de Jesus: “Serei o seu refúgio durante a vida e em especial na hora da morte.” “(...) não morrerão no Meu desagrado(...) o Meu Divino Coração será o seu refúgio de salvação nesse derradeiro momento.” Será que lhe valeram? Não sei. Mas vejo o sofrimento de seus últimos dias como uma mortificação da carne como sugerem os espiritualistas.

Está morto; em mim abateu-se uma grande tristeza, por não tê-lo visto nos últimos dias, embora o medo de ver o estado em que sabia se encontrar fosse grande e apenas quinze dias nos separassem do encontro que eu já havia programado; as passagens compradas servirão apenas para lhe visitar a cova.

A morte de entes queridos muitas vezes causa nas pessoas uma ruptura pessoal com Deus, noutras nos aproxima d'Ele. Em mim, não sei dizer, sei apenas da imensa falta de energia psicológica que me abate e que talvez com este texto tento exorcizar, rompendo o silêncio cauteloso e gradual que se instalou em mim, cauteloso porque sentimentos de intolerância e raiva com coisas menores me diziam que devia evitar a verbalidade para não descontar em ninguém a frustração comigo mesmo, por não ter de alguma forma ter estado mais presente junto ao pai que partiu, gradual porque cada vez menos sentia vontade de falar ou interagir, muito embora palavras de apoio e pesares recebidos de amigos, por visita, telefone e redes sociais me confortassem de verdade, diminuindo o sentimento de orfandade, de abandono. Da mesma forma que a ausência de uma palavra, que fosse um simples: “força” ou “abraço”, vindo de pessoas que se dizem tão próximas e tão amigas, foi como um: “você está sozinho, sim!”

No imenso quintal de sua casa um enorme ajuntamento de madeira, galhos, ali ficou; era madeira que ele juntava para que eu fizesse fogueira quando lá fosse, já que eu sempre gostei de fogueiras desde criança, e bastava que eu desse as costas ele já as começava a juntar para a próxima vez que eu fosse. Em um móvel, está uma caixa de castanhas, para quando eu fosse...

Olho fotos dele e vejo o corpo franzino, debilitado, o orgulho vencido em parte, pois seu gênio, esse, nunca foi domado. As lembranças presentes, de sua chegada com gibis que trazia na infância, do carpir de quintais, dos cachorros que tivemos, de construir chiqueiros e galinheiros no grande quintal que tínhamos e onde aos fins de semana ele reinava, e nós, meu irmão e eu, o ajudávamos nos divertindo com o “serviço”. Minha mãe chegava com as “baciinhas” de plástico, com farofinha, onde um comia o fígado, o outro a moela e o terceiro o coração do frango que seria servido com macarrão no almoço, junto a elas vinham a caipirinha para ele, e a meu irmão e a mim, nos nossos copos com canudinho, a limonada com casca de limão e gelo dentro – era a nossa caipirinha também, para ali junto com o pai, estarmos na mesma toada, já que a vibração e sintonia era completa. As mesada recebidas dentro de envelopes de holerites, com nossos nomes datilografados, da subida na serra para buscar coquinhos, dos jogos de damas onde ele nos deixava ganhar, o jardim que montávamos com as mudas que ele mesmo trazia, as enormes hortênsias que causavam admiração da vizinhança e que ele se orgulhava. Tão diferente do final, onde já sem compreender que as próprias folhas viram adubo, não deixava cair uma folha no quintal sem que a catasse, como se estivesse limpando um salão; as plantas, ele regava todos os dias, necessitassem ou não, e se lhe era tirada a enxada e escondida para evitar que ele, agora fraco e debilitado, se expusesse ao sol inclemente, abatia-lhe uma tal depressão que ela lhe era logo devolvida diante de tanta tristeza.

Lembranças de tempos distantes e outros de instantes atrás se misturam, como se os varresse e misturasse, juntando-os em um canto como se fossem cisco, que o vento vem e espalha novamente. O pedido para pintar portas e janelas de seu quarto, onde ele mancharia em instantes a camisa do São Paulo, seu time de coração, que acabara de lhe dar, vem junto com as do balanço que ele fizera no abacateiro de uma das casas onde moramos, para que ali brincássemos, ou do seu desejo de comer uma gemada de 12 ovos de pata, com a qual ele atormentou minha mãe por dias, até que ela resolveu fazer, não com a dúzia, mas com três, e ele não deu conta de comer, por ser tão forte que encheu-se antes de devorada a metade. E aí retorna o momento antes da internação recente onde não conseguia tomar o suco de acerola, que ele mesmo colhia no quintal, e seu lamento em dizer que era uma pena estar com sede, ter um suco tão gostoso e não poder tomar por não conseguir engolir. Vêm as lembranças de diagnósticos que não caberão aqui por não ser um escrito de relato de caso para revistas médicas, ou para de certa forma lhe poupar seja lá do que for.

Que ele esteja em paz.

Foto: Djair - Olavo de Souza - meu pai, em uma das últimas visitas que lhe fiz.
Vídeo - Youtube -Gabriel Fauré - Requiem

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Coxinha, de rabada, de bucho ou galinha.

Existem e fazem moda confrarias de apreciadores de charutos, comidas e bebidas, do nhoque à pizza de domingo, da cachaça à cerveja, passando por todos os maltados e destilados...

Se eu fosse criar uma, possivelmente seria a confraria da coxinha. Desde a infância adoro. Íamos viajar com minha mãe, e ela sempre comia uma coxinha com café, aliás, come até hoje. Uma das lembranças de sua última vinda a visitar-me é indo à 25 de março e pararmos para tomar um café... Com coxinha. Toda vez que passo em frente àquela lanchonete, próxima à estação S. Bento, lembro-me dela, a xícara de café numa mão e a coxinha na outra, num dia feliz. Lembro um caso sem muita importância que tive com o misto quente, mas que durou pouco, e a coxinha permanece.

Claudia, amiga que também a aprecia, vive me cobrando um texto sobre isso, uma ‘ode à coxinha’. E de tanto falarmos, há algum tempo, no shopping no lançamento do livro do Marcus, livro pago, autografado, abraço dado, saímos de lá, com certa pressa (que eu e Carol ainda tínhamos um evento na Cinemateca e Claudia e Rodrigo nos dariam carona). E... andando pelo corredor do shopping, em direção à saída, vem em sentido contrário uma senhora em cadeira de rodas, dessas senhoras finas de Moema, acintosamente conduzida por um serviçal às suas ordens. Maquiada, composta com joias, echarpe de seda, uma senhora elegante, nas mãos uma caixa que não sabíamos o que era. Todos a olhávamos quando de repente ela deixa a caixa cair e esparramam-se pelo corredor quatro coxinhas, enormes, com uma cara ótima... Não adiantava chorar pelas coxinhas esparramadas. Um primeiro instante de dó, elucubrando que as coxinhas poderiam ser o jantar dela, depois lembramos que alguém aparentando tantas riquezas e com empregados, logo mandaria o subalterno buscar outras e pronto, mas as coxinhas esparramadas no chão não foram esquecidas e agora as eternizo nesta prosa pobre.

Enfim, ficamos, Claúdia e eu, com fama de ter olho grande que fez cair das mãos da senhora as apetitosas coxinhas, as quais me fazem salivar enquanto escrevo. Aliás, quando nos dá aquela fome à tarde, por vezes damos uma fugida pra tomar um café com coxinha ‘nos meninos da boca bonita’. Não sei o nome da tal lanchonete, apenas que pertence a dois rapazes, irmãos, bem próxima ao trabalho, e que por aqui sempre dizemos ‘vamos lá nos meninos da boca bonita?’ E se for o Luciano a coisa piora pois ele diz: “Os meninos da boca linda”. Mas antes que alguém se anime... Nenhum deles tem boca bonita, ou tem, só que ao contrário.

As do grupo Noel são enormes e macias, provavelmente levam leite na massa. Outro dia comi com Adriana e Wânia coxinha de rabada num bistrô da Vila Madalena, bom também, uma vez que aprecio até mais a massa que o recheio. Outra amiga, também Adriana, certa vez foi em casa e fez coxinhas inesquecíveis. Meu irmão também é esperto nelas e sempre que vou a Floriano me presenteia com elas. Já eu, sou especialista apenas em devorá-las.

Uma lembrança antiga é da oitava série, quando ao recreio íamos à cantina comprar merenda e refrigerante de máquina, que era mais gostoso porque podíamos estourar os copos de papel com um pisão, fazendo um estouro quase idêntico ao de uma bombinha. Mas onde entra a coxinha? Bem, Ana Angélica tirava sarro da coxinha da cantina do Alfonso Schmidt, dizendo que o recheio era de bucho. E ríamos, aliás, eu rio até hoje, e ela caso se lembre deve rir também. 

E pode quem quiser comer seus petit fours e torraditas com ervas finas e caviar, e deixe as coxinhas conosco que estaremos bem servidos.


Foto: Mima Badan - do Recanto das receita - http://wwwrecantodasreceitas.blogspot.com.br/, onde aliás, tem uma receita maravilhosa de coxinhas de frango com catupiry.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Seu cadarço está desamarrado?


E assim, o que era fastio se fez fome.
 A paciência para com o outro torna-se cada vez mais escassa, talvez isso explique o alto número de divórcios hoje em dia. Mas não é só o fim dos casamentos; entenda-se por divórcio rompimentos de todas as espécies. Quantos amigos você achou que levaria para  a vida toda e hoje não tem a menor vontade de encontrar? E por que? Falta de paciência talvez, por estar mais centrado em si próprio e o que não é espelho não te interessar?
Enquanto está tudo bem, ótimo, os sorrisos e gargalhadas são mútuos, e quando a coisa aperta? Doença, desastre, crise, tragédia? Ah, também... Sente-se a dor do outro, se condói com suas perdas, muitas vezes até carregando também a dor alheia. Mas e quando não há crises ou grandes comemorações? A cumplicidade é suficiente para manter o contentamento com a simples existência serenada pela rotina? Se há cumplicidade, não é preciso assunto novo, por mais salutar que ele seja? Os velhos planos, as mesmas músicas e o pão nosso de cada dia, ali são suficientes? A presença do outro não vai exigir novidades, apenas o calor de estar junto? Primeira? Segunda? Terceira? Marcha a ré? Não importa, a companhia que aprecia a paisagem lá fora, tecendo comentários do quão bonita é, do quão árida parece, da falta que faz algo ou do que embelezaria ainda mais, é o suficiente para tornar a viagem menos cansativa e aí, a monotonia do “transcorrer”,  é dividida, pesa menos?
A cumplicidade, a intimidade, o entrosamento não é feito às pressas, demanda tempo, demanda vivência, realocação e ajustamento de parâmetros, fazendo das diferenças afinidades, e procurando entender o que não se concorda em prol de uma convivência mais próxima, pacífica, duradoura. Muitas vezes se têm convivências extensas, mas sem nenhuma profundidade, sobretudo em locais de trabalho. É comum ouvir: trabalhamos juntos desde... Mas e daí? O que se sabe sobre o outro, sobre o que pensa, sobre seus gostos, medos e sobre o que pensa quando tem insônia? O outro se sente só? Seguro? Mascara seus complexos em um texto rebuscado de certezas e afirmações que não convencem a ninguém? Em uma impostação de voz estudada que não combina com o gestual? Não, isso não é amizade, isto é convivência. Amizade é quando se confia a ponto de mostrar suas fragilidades, não obstante tenha quem faça eternamente o número do frágil e coitadinho, e esses me cansam. Como devem cansar a muitos outros. Não é a personagem e sim a pessoa real que buscamos, por isso muitos laços se desfazem rápida e irremediavelmente tão logo um olhar mais crítico analise o comprometimento.
Relacionamentos são assim, geralmente quem cobra carinho, presença e licitude, não sabe proporcioná-los, então os laços se desfazem, às vezes viram um nó cego, às vezes um longo cadarço a fazer tropeçar. Às vezes é só ter paciência e reatá-lo.
 
Foto: Djair - Ex-votos - Sala dos milagres da igreja da Ordem Terceira do Carmo, também conhecida como igreja do Senhor dos Passos - São Cristovão - SE (Como muios laços, estão por um fio).

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Carrinhos de areia


 Devia ter então por volta dos 8 anos, meu irmão uns quatro, a casa de quintal enorme tinha nos fundos um barranco, onde gostávamos de brincar. Na véspera, à noite, ao chegar do trabalho, meu pai tinha nos trazido, para cada um, duas miniaturas de carrinhos, de metal, coloridos; ficáramos encantados, os meus, um vermelho e um branco, os de meu irmão um amarelo e um negro. No dia seguinte, brincávamos junto ao barranco, fazendo estradinhas, desenhando uma cidade imaginária como é, ou pelo menos era, comum às crianças que brincam com carrinhos em espaços suficientes para que a imaginação crie estradas, pontes, viadutos, postos de gasolina e por aí vai...
Não sei por quê, tivemos que sair, acompanhando minha mãe; não lembro onde fomos, recordo apenas que ali mesmo deixamos os tesouros de então, os preciosos carrinhos...
Ao voltar, eis que um pedaço do barranco havia caído e, no desmoronamento, cobriu estradas, construções e... os carrinhos. Revolvemos praticamente tudo em busca deles; nunca os achamos, mas nunca deles esqueci, volta e meia me vêm à lembrança. Possivelmente alguma criança da vizinhança ali entrou e os levou, e derrubou um bom pedaço dos montes de areia que ali se formavam – naturalmente para ocultar o crime.
 ***
 Naqueles dias, seu Leôncio (nome que está em extinção, assim como Carmela, Bonifácio e outros), resolvera reformar a casa, e em frente a ela abrigou um enorme monte de areia. Todos nós, meninos da Rua dr. Euzébio de Brito, fizemos festa; tínhamos ali mais um local para brincarmos – a areia grossa, que devia estar meio molhada, nos proporcionava cavar túneis além das estradinhas; era tudo o que queríamos: o imenso monte, que esperou dias pelos pedreiros, era nosso lazer. O monte inteiro virou uma autoestrada, sem que soubéssemos o que era isso, mas dada a quantidade de viadutos e construções faraônicas combinava bem com as que eram lançadas à época, Itaipu, Transamazônica, Rio-Niterói... Seu Leôncio não se importava, pedia apenas que não espalhássemos a areia além das madeiras e tijolos que cercavam o monte no sentido que a rua descia. E ali estávamos a brincar quando veio uma chuva dessas de verão, sem muito aviso e, enriquecendo as brincadeiras, proporcionou a construção de represas e transformou cadernos velhos em barquinhos. E a brincadeira enriquecida continuava, não havia medo de gripes ou constipações nasais; naqueles tempos, as mães nos deixavam tomar banho de chuva, nos esperando depois com toalhas secas e direcionava-nos ao banho de fato, para livrar-nos de resfriados e sobretudo das areias pelo corpo. Antes que pudéssemos ir direto à merenda da tarde. Era a felicidade plena que se afastaria um pouco com o crescimento e que agora se chama saudade.


Foto: Djair - Fundos de um dos quintais da casa de minha mãe.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Sexo selvagem, aquele que vende...


E aí, que tem dias que não temos mote para escrever, fica aquele vazio, escrever sobre o quê? A musa não vem, está de greve, enfezada, e batendo o pé jura que só volta sob mil condições, as quais não tenho a menor vontade, capacidade, competência para executar. E a queda de braço entre a determinação de escrever e a inspiração que não se faz presente vai ganhando proporções maiores – a ponto de irritar; o bom da irritação é que ela passa. E então para que passe mais depressa, pois pra isso não há limites de velocidade, vamos enfrentar e pronto.
Sobre o quê? Humm, o tema preferido de muitos, principalmente os que não o praticam: Sexo!
Por que? Porque há dias estou mentalmente engasgado com uma palestra de produção científica a que fui assistir, teve inicio com a preleção acerca de um  acontecimento que se deu com uma cientista canadense. (“se não me falha a memória e a verdade não me mente”, como diz minha mãe). Ela havia editado em seu blog pessoal comentários sobre descobertas da NASA, mas a agência norte-americana teria dito que não aceitava questionamentos não publicados em revistas científicas, etc, etc... O desenrolar dos fatos é que cientistas de todo o mundo usaram a aparelhagem de seus laboratórios em universidades e empresas e realizaram a  pesquisa tal e qual a instituição estadunidense recomendara. E acabaram por publicá-la em redes de blogs científicos com acesso aberto, uma vez que as revistas científicas lucram com a venda de artigos que obtém de graça a partir daqueles que tem ânsia em divulgar suas pesquisas e angariar louros acadêmicos, ou os mais diversos interesses...
Mas o que tem isso a ver com sexo? Tem que o maior acesso registrado em um desses blogues científicos tinha justamente o título: Sexo selvagem na praia.
Tratava-se de uma foto de dois besouros de espécie rara se acasalando em uma praia, seguida pelo estudo sobre a reprodução entre tais coleópteros. Com o título, o acesso ao tal blog disparou, muito além do que alcançaria em buscas de caráter científico, o que segundo a palestrante seria ótimo se alguém realmente o lesse. Aliás, enquanto digito, penso em valer-me do artifício no título do post, a fim de alavancar o blog, o problema é que alavancar e avacalhar são palavras muito parecidas... Mas a tentação é grande e como já se disse a melhor maneira de acabar com a tentação é ceder a ela.
Essa semana, um amigo postou que Chuck Norris é gay. Questionei, antes que viessem piadinhas de outros amigos desse amigo heterossexual e portanto a coisa descambasse pra chacota, e ele responde. “Ele tomou coragem e depois de 40 anos se assumiu, achei massa e ao mesmo tempo doido... Maior ícone de macheza é gay.” E o assunto morreu por ali, não houve mais comentários, os sarcásticos de plantão que travestem preconceitos não se animaram.
A vida sexual do outro é sempre objeto de especulações; se a “dadeira” do colégio dá pra todo mundo, o problema é dela e de quem ela resolve dar, mas aqueles pra quem ela resolve não dar são implacáveis. E aquelas que não dão, mais tiranos ainda. Principalmente os que não comem e os que não dão por falta de opção.
As revistas que mais vendem são as de fofoca. Que importância saber para quem tal atriz está “dando”? Ou quem tal ator está “pegando”? Mas aí, tem aquelas outras mais caras, que se travestem de sérias e trazem ótimas entrevistas, mas ali no meio botam as dicas para atingir orgasmos, ensaios sensuais, sugestões de como seduzir...
Tudo porque é algo feito com a pecha do pecado, do proibido, do entre quatro paredes. O que acontece em Vegas, fica em Vegas.
E nem acho que deva ser escancarado, pois importa apenas àqueles que se entendem e decidem fazê-lo. Se alguém especula é porque não está feliz com sua própria vida sexual. E lembro-me de outros casos que não teria nada demais contar, mas o blog é também lido por crianças e por pessoas que poderiam chocar-se com termos menos nobres, então omito, em respeito a eles. Embora me cocem línguas e dedos.
Lembro uma amiga uma vez a comentar: “Eu já tive oportunidade de dar”, o que me arranca risos até hoje. O contexto da conversa não interessa; o que importa é que ela é bem resolvida e pelo andar da carruagem já deu.
Quando em Lisboa, ao lado do prédio onde me hospedava (no primeiro andar) á rua dos Correeiros havia uma sex shop em cuja vitrine manequins masculinos e femininos  em trajes de sadomasoquismo, ali turistas tinham as mais estranhas reaões, do risinho contido e nervoso de algumas mulheres, as gargalhadas de alguns grupos e olhares plenos de interrogações de senhoras e senhores que não atinavam com o que seria aquilo, vários fotografavam, e daí que resolvi também fazê-lo e não é que hoje me serve para ilustrar o texto?
Então fica, quem sabe, voltar ao tema em outro momento, que já me alongo e o texto não é um tratado acadêmico, daquele que tem de ser longo, maçante e ter uma conclusão.  É o que tem pra hoje!

Fotos - Djair - vitrine de sex shop à rua dos Correeiros em Lisboa.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Drogado



Das minhas drogas preferidas, teu beijo é a mais suave
Das minhas drogas favoritas, teu corpo é o que mais entorpece
Quando da overdose de ti, enrijeço, cresço, pulso, desfaleço.

Das minhas drogas mais ativas, a tua voz é a que desperta todos os meus sentidos
Das minhas drogas usuais, ouvir sobre teus pensamentos, sentimentos e achados é a que mais me satisfaz.
Quando a overdose de tuas palavras... Me calo.

Das minhas drogas mais benéficas, a luz de teus olhos é a que mais me ilumina.
Das minhas drogas mais viciantes, teu elogio é a que mais anseio.
Das minhas drogas mais maléficas, o teu desapontamento é a que mais temo.

Das minhas drogas mais inebriantes, repetir teu nome é a mais constante. O som, o tom, as sílabas...
Das minhas drogas mais letais, o medo da minha morte, e da tua morte é a mais sombria, se vou antes quem te cuida? Se vou depois quem me olha?
Das minhas drogas mais prazerosas, a  maior é nossa casa, nosso jardim, nossas rosas.


Foto: Djair - Flor de beira de estrada, Caminho da Guia, Floriano - PI