Existem e fazem moda confrarias de apreciadores de charutos, comidas
e bebidas, do nhoque à pizza de domingo, da cachaça à cerveja,
passando por todos os maltados e destilados...
Se eu fosse criar uma, possivelmente seria a confraria da coxinha.
Desde a infância adoro. Íamos viajar com minha mãe, e ela sempre
comia uma coxinha com café, aliás, come até hoje. Uma das
lembranças de sua última vinda a visitar-me é indo à 25 de março
e pararmos para tomar um café... Com coxinha. Toda vez que passo em
frente àquela lanchonete, próxima à estação S. Bento, lembro-me
dela, a xícara de café numa mão e a coxinha na outra, num dia
feliz. Lembro um caso sem muita importância que tive com o misto
quente, mas que durou pouco, e a coxinha permanece.
Claudia, amiga que também a aprecia, vive me cobrando um texto sobre
isso, uma ‘ode à coxinha’. E de tanto falarmos, há algum tempo,
no shopping no lançamento do livro do Marcus, livro pago,
autografado, abraço dado, saímos de lá, com certa pressa (que eu e
Carol ainda tínhamos um evento na Cinemateca e Claudia e Rodrigo nos
dariam carona). E... andando pelo corredor do shopping, em direção
à saída, vem em sentido contrário uma senhora em cadeira de rodas,
dessas senhoras finas de Moema, acintosamente conduzida por um
serviçal às suas ordens. Maquiada, composta com joias, echarpe de
seda, uma senhora elegante, nas mãos uma caixa que não sabíamos o
que era. Todos a olhávamos quando de repente ela deixa a caixa cair
e esparramam-se pelo corredor quatro coxinhas, enormes, com uma cara
ótima... Não adiantava chorar pelas coxinhas esparramadas. Um
primeiro instante de dó, elucubrando que as coxinhas poderiam ser o
jantar dela, depois lembramos que alguém aparentando tantas riquezas
e com empregados, logo mandaria o subalterno buscar outras e pronto,
mas as coxinhas esparramadas no chão não foram esquecidas e agora
as eternizo nesta prosa pobre.
Enfim, ficamos, Claúdia e eu, com fama de ter olho grande que fez
cair das mãos da senhora as apetitosas coxinhas, as quais me fazem
salivar enquanto escrevo. Aliás, quando nos dá aquela fome à
tarde, por vezes damos uma fugida pra tomar um café com coxinha ‘nos
meninos da boca bonita’. Não sei o nome da tal lanchonete, apenas
que pertence a dois rapazes, irmãos, bem próxima ao trabalho, e
que por aqui sempre dizemos ‘vamos lá nos meninos da boca bonita?’
E se for o Luciano a coisa piora pois ele diz: “Os meninos da boca
linda”. Mas antes que alguém se anime... Nenhum deles tem boca
bonita, ou tem, só que ao contrário.
As do grupo Noel são enormes e macias, provavelmente levam leite na
massa. Outro dia comi com Adriana e Wânia coxinha de rabada num
bistrô da Vila Madalena, bom também, uma vez que aprecio até mais
a massa que o recheio. Outra amiga, também Adriana, certa vez foi em
casa e fez coxinhas inesquecíveis. Meu irmão também é esperto
nelas e sempre que vou a Floriano me presenteia com elas. Já eu, sou
especialista apenas em devorá-las.
Uma lembrança antiga é da oitava série, quando ao recreio íamos à
cantina comprar merenda e refrigerante de máquina, que era mais
gostoso porque podíamos estourar os copos de papel com um pisão,
fazendo um estouro quase idêntico ao de uma bombinha. Mas onde entra
a coxinha? Bem, Ana Angélica tirava sarro da coxinha da cantina do
Alfonso Schmidt, dizendo que o recheio era de bucho. E ríamos,
aliás, eu rio até hoje, e ela caso se lembre deve rir também.
E pode quem quiser comer seus petit fours e torraditas com
ervas finas e caviar, e deixe as coxinhas conosco que estaremos bem
servidos.
Foto: Mima Badan - do Recanto das receita - http://wwwrecantodasreceitas.blogspot.com.br/, onde aliás, tem uma receita maravilhosa de coxinhas de frango com catupiry.