quarta-feira, 8 de maio de 2019

Animalidades


Tenho imenso gostar pela escultura de Giacometti “O cão”; talvez seja a escultura que eu mais goste. Além do cão retratado, animal que tive muitos, durante infância, adolescência, fase adulta, e agora, na velhice, também tive gatos, jabutis, peixes de aquário e até um tamanduá que recebeu a alcunha de Marina Correia Lima, em homenagem à cantora que eu tanto apreciava à época.

Mas “o cão” de Giacometti me fala mais através de sua história. Segundo me chegou, e já não sei de onde veio a informação (ora leitor, faça seu trabalho de casa e pesquise; a mim, basta a lembrança verdadeira ou não, mas que se tornou afetiva junto a imagem da peça), o escultor teria dito de sua obra que era um autorretrato. Um dia de chuva, ele todo molhado, sob uma marquise, vê passar um cão, e pensa: “esse cão sou eu”, molhado, humilhado, cabisbaixo... E ao chegar em casa faz a escultura. Coisa mais, coisa menos, foi isso que li. E assim identifiquei-me. Quantas vezes também não me senti um cão! Tanto o cão humilhado, como o cão raivoso, o cão terno, carente, desprotegido, agressivo... Um cão.

Foto: Djair - Parque dos Budas - Bombarral - Portugal
“Animal tem que viver como animal, quando não vivem como tal, se matam.” A pichação em Santos – SP, nos anos 1980, nunca mais saiu de minha cabeça. Fica ali adormecida e vez em quando aflora. Aflora quando vejo nossa animalidade, em mim, no próximo, em amigos, familiares...

Animal tem que viver como animal...

E como estamos próximos a eles, sim, próximos porque nos esquecemos que também somos um, o tal de animal racional, que destrói tudo a sua volta, esquecemos nossa efemeridade e construímos ermidas que atravessam séculos, estradas que ligam povos, mas há que se cobrar pedágio que enriquece alguns... Quem? O rei leão? Afinal, o rei dos animais recebeu esse título do homem, que dizima o meio ambiente deste e o seu próprio, assim destruindo a eles e a si, e a toda a cadeia próxima, não só a animal, mas a de todos os reinos... Ai de novo: a palavra real. Só o homem, em sua animalidade, tem essa necessidade de coroar cabeças e espécies. Talvez pela fragilidade de sua existência, senão o mais frágil o mais necessitado de cuidados de todos os reinos. E assim cria armas e formas de defender-se, mais amiúde essas formas de defesa são a forma de extermínio ou ameaça do outro. Outro homem, outro bicho.

O cão de Giacometti, os cães de Pavlov, o cão dos Baskerville, o melhor amigo do homem. O cão talvez seja o animal mais próximo e mais presente ao homem, em todos os estados já descritos acima, e outros que fogem à falta da memória de elefante que já não tenho. Famílias tem cães por conta das crianças, alguns pais e mães metem medo às crianças dizendo que o cão morde; sem conhecer o cão, já o julgam e condenam. Que outro animal condena a sua espécie e as alheias?

Essa “superioridade” autoproclamada é mesmo um complexo animal de inferioridade às avessas. Uma constante afirmação de que o animal é o outro, pois julgamento e preconceito, se o homem não for a única espécie que os tem por distinção, é das raras. Só conheço o preconceito animal em O Pássaro Pintado, de Jerzy Kosinki, onde o autor narra que, como diversão, uma personagem pega um pássaro e o pinta de outras cores diferentes à sua espécie e depois o solta. Ao cantar como os seus, esses não o reconhecem e assim batem-lhe até à morte. Essa metáfora quanto à não aceitação do outro, ao deslocamento que se sente em certos habitats sociais, é perfeita. Que outro animal pratica bullying? Importa-se se o seu igual é mais gordo, ou baixo, ou de outra cor? Se tem uma preferência sexual diferente da sua?

O homem reage a isso com ferocidade... “Ferocidade”, algo condicionado às feras... Ao animal... E o quão ferozes podemos ser... Pedro Nava disse uma vez, naquela minha década preferida, os anos 1980, que achava o homem o pior animal da criação e que tinha essa impressão do próximo, e de si mesmo. É outra das frases que foram tatuadas em minha memória que já está a falhar. Aliás, isso é algo que preocupa-me e mete-me medo. E o medo não é mesmo um instinto animal? O instinto mãe de toda a agressividade? E lá vem de novo o círculo, agressividade seria um instinto... animal... Círculos não tem ponta e, por isso, voltamos aos temas.

         E o tema dá panos pra manga, daria para cobrir um circo de tão extenso é o tecido e entremeações de sentimentos e reflexões sobre o homem e os bichos. Inclusive, o objeto escolhido para a hipérbole, o circo, é ele mesmo a casa de homens e animais postos em exibição, uns como talentos, outros como feras domadas... Nenhum outro animal submete outra espécie a seus caprichos senão o homem, o mais feroz... Ops, submetem sim. Os cães submetem seus donos, com sua fidelidade, carência e demonstrações de afeto. Ou os gatos, companhia das mulheres solitárias, segundo alguns. E quem poderia tecer um comentário tão maldoso e difundi-lo a ponto de torná-lo quase um senso comum em determinados círculos, senão a besta humana? Como disse Fernando Pessoa a respeito desta: “Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem”, que entre todas as espécies é a que ferra e marca a sua e as outras espécies!

E se fossemos continuar como as citações em uma tese, poderíamos partir para a “vida de gado” do “povo marcado” de Zé Ramalho, e tantas outras. Mas esse animal que digita cá está cansado, assim como o leitor pode também já estar irritado com esse texto que nada diz além do óbvio e que ulula constante sobre o tema. Encerremos aqui, é o que diz o bom senso, aliás, criação humana, o bom senso que distingue o homem dos animais. Ou não...

domingo, 28 de abril de 2019

O Filho Gay


O amor ao filho mingua conforme ele deixa de corresponder às expectativas dos fornecedores de gametas que o originaram. Talvez porque vejam por aí que não terão controle algum sobre este, mas ainda assim tentam. À maioria das vezes, as histórias de “criar filho para o mundo”; “ele será o que quiser”, são balelas inúteis e discursos usados para atenuar sua incapacidade de controle desse casal de gametas feito carne e posto ao mundo, alguns arrancados literalmente a fórceps...

Grafite em muro no Faro - Portugal
O amor, ou a maior parcela dele, seja lá o que isso seja, já que cada um tem sua ideia própria de amor e de reagir ao excesso ou falta dele, é destinado, em caso de mais de um, ao filho que se deixa controlar, ser amoldado com os princípios e interesses dos criadores, e assim, perante a vergonha fundamental dos pais, o amor é condicionado àquele que mostra-se mais receptivo às suas referências, o de comportamento mais aceitável dentro dos círculos sociais desses pais, afinal são criados à sua imagem e semelhança, como já ouvi isso em algum lugar...

O pai sempre irá gostar mais do filho bêbado e inútil, mas hétero, que de um filho gay, por mais “certo na vida” que este tenha dado. A mãe, por seu turno, apesar de em geral reconhecer mais de si, ou até por isso, no filho mais frágil, vai orgulhar-se do reprodutor da família, pois alguém tem que ser bom em algo! Muitas vezes, essa mãe fragilizada pelo próprio companheiro, nega a fragilidade do filho, porque ela própria odeia ser frágil. E não, não estereotipamos aqui todos os gays como frágeis e carentes de proteção, mas isso é inegável em uma grande parcela de certa faixa etária. Até por conta de muitos nunca saírem do armário, embora todos saibam que estão com a mão à maçaneta. E assim, aceitar-se, assumir-se, é mesmo uma forma de fragilidade, de autoproteção, de medo.

A fragilização é um componente a mais das vezes presente durante toda uma vida, desde o pai que acredita que sendo mais autoritário vai servir de exemplo de macheza, sem se perguntar se o filho não quer é justamente fugir desse exemplo, ser o mais diferente possível desse pai. Tias e tios, primos e vizinhos que lançam olhares de contestação ou mesmo condescendentes de afeto, mas, conscientes de que há ali algo errado, que não corresponde ao esperado... E as crianças, então? Ah, as crianças sabem ser cruéis e discriminatórias, sim. Crianças são bonitinhas (nem sempre), o que é diferente de serem boazinhas. A mãe fragilizada não reconhece a fragilidade do filho, o quanto ele é dependente de seu afeto e exige dele a fortaleza que ela não teve.

Não existe isso de “gosto de todos da mesma forma”, isso é balela, uma impossibilidade tangível. Pode-se dar os mesmos presentes, a mesma educação (que por mais semelhante será diferente até por uma questão temporal), mas a atenção, o afeto e as demonstrações de orgulho e apreço, ah, isso é que não! Estas estarão sempre reservadas, com maior ou menor grau de discrição, ao que mais corresponde aos valores dos pais. Valores morais, religiosos, reprodutivos, no que tange à perpetuação desses em netos, bisnetos, com os quais incorrerão nos mesmos erros. Se é que isso é um erro, por ser natural do ser humano ter suas preferências e simpatias. Aceitar é bem diferente de “amar” ou “respeitar” e depender e/ou reconhecer é ainda tão diferente quanto.

Ao filho também é dolorida a constatação do “ser diferente”, do ser menos amado, da derrubada do mito da perfeição dos pais. E a desconstrução deles é mesmo dolorosa, demorada; é um trabalho longo, tedioso, que passa pela negação, raiva, desprezo, culpa. Mas, uma vez desconstruídos, nem Picasso dirá onde eles têm olhos, boca, nariz... Talvez não restem mágoas, pois assim como não houve amor suficiente de uma parte – e que talvez já não seja mais necessário, do outro lado também foi minimizado o sentimento.

Mágoas, dores, alegações de amor, de cuidados e carinho, não serão mais equacionados num teorema positivo. A verdade é dolorida, mas as feridas nos joelhos, na infância, também são; essas, primeiro param de sangrar, com o tempo deixam de ser úmidas e criam a grossa casca escura que se quebra, solta-se, às vezes volta a ter um pouco de sangue e pus, mas logo se reveste de nova pele, a princípio rósea, fina, mas que logo se integra de tal forma ao resto do tecido que ninguém repara o dano, pelo menos externo, pois bem que um dia a dor na rótula torna a aparecer. Assim são as feridas no ego, na alma... Na mente também irão cicatrizar, e cicatrizar também é diferente de curar – e aí se possibilita a convivência com elas.



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Com Pimenta, com Coentro, com Cominho e com Pequi


Hoje, em um dos grupos que participo numa rede social, após a postagem da foto que ilustra o texto, um desabonador comentário foi postado.

“O pequi é igual ao alho, coentro e cominho. É só usar pra estragar o prato e ele virar tudo um gosto só. Quem usa pequi, alho, coentro e cominho não sabe cozinhar.”

Bem, quem julga quem sabe cozinhar ou não apenas pelo ingrediente usado, sem levar em conta quantidades, acompanhamentos, harmonizações não merece muito crédito, mas logo uma pequena celeuma se fez, bem, e lembrei-me de ingredientes, pratos, comidas, sabores que fazem parte de nossas culturas individuais, nossas histórias, memórias gustativas...

Foto: Ana Célia Araujo
Quanto ao pequi, quando criança, eu não suportava o cheiro, quando minha mãe o fazia eu saía de casa para não senti-lo. Tenho uma conhecida que do alto de seus quase setenta anos ainda hoje faz o mesmo, detesta a época, pois diz é a época da fedentina, mas, é uma chata, também implica com o cheiro do caju. E maldiz os setembros piauienses... Mas, retomemos os caminhos do pequi em minha vida. Após anos de reclamação, já aí pelos 19 anos, um dia cheguei na casa de uma tia e estavam todos a comer baião de dois com pequi dentro, acompanhado de carne de sol. Comiam com tanto gosto que resolvi experimentar. Nunca mais deixei de aproveitar essa delicia. Nunca cru, como fazia minha mãe, a cortar a polpa e colocar por cima do prato, ou a comer in natura, porém, uma vez em Goiás Velho, pude provar o sabor do fruto no sorvete. Que coisa boa!!! Que delicia era aquilo, o amarelo suave, o sabor, a cremosidade, o perfume... Um sabor para nunca mais esquecer, só batido ali mesmo pelo sorvete de gengibre, feitos ali mesmo na praça de modo artesanal, abaixo do que outrora fora um coreto, numa praça onde velhinhos sentavam-se para prosear tomando a fresca da tarde e onde crianças brincavam sem medo.

Já o coentro era uma coisa que minha mãe tirava do meu prato, eu realmente era uma criança chata, já hoje, não sei fazer uma boa caldeirada ou moqueca de peixe sem ele. Aliás, quando faço caldos, para convidados, coloco sempre várias cumbucas com coentro, cebolinha picada, torresmo e salsa (cada qual em sua vasilha) para que as pessoas possam deles se servir a seu gosto, e quem não gostar que não coloque ou coma calado. E olhe que tem gente que sempre arruma de que reclamar, é a cebola, o pimentão, ou está apimentado, ou o vinho é forte e por aí vai... Uma vez que fiz um peixe em casa e convidei uns vizinhos, isso ainda a morar em São Paulo, as pessoas a comer e o Roberto, um dos convidados, diz-me: Eu adoro peixe assim, mas se eu fizer em casa ninguém come pois dizem que não gostam e aqui estão a repetir e elogiar, pois eu vou passar a fazer assim e vão ter que comer. Risos. Minha mãe o colocava (o coentro) no feijão, depois dele pronto, as folhinhas frescas. Hoje também o faço vez em quando, gosto do coentro mas com moderação, pra mim ele vai melhor no peixe, caranguejo, caldos e no baião de dois.

Quanto ao cominho sempre gostei, e já reclamaram de minha comida também por isso. Não a ponto de dizerem que eu não sabia cozinhar como foi o infeliz caso que nos traz a essa postagem, mas reclamaram. Adorava o arroz da minha mãe com um pouquinho de cominho. Aliás adorava a comida dela, hoje já não tanto. De tanto ficar a beira do fogão porque cada um come uma hora e ela fica ali a pajear os comensais e a preparar o que cada um gosta, perdeu a mão. Tomou a si hábitos que tiram-me o apetite, enfim, uma pena... Mas o cominho... No nordeste do Brasil é um dos principais temperos, e no norte de Portugal também. Há pouco em uma viagem maravilhosa a região do Minho tive o prazer de conhecer o sarrabulho, arroz cozido no sangue de porco, com carnes em separado. A entrada foi um chouriço assado na brasa, ah, que delicia, e o vinho verde, tinto e fresco para acompanhar. Rui, que levou-nos a esse templo gastronômico, onde sequer nome a porta havia acertou em cheio, ao entrar passa-se logo pela cozinha, onde a dona, já viúva, mantém as receitas na cabeça, onde os cabelos competem com a cor branca do lenço comanda sua equipe, no salão o filho a comandar o atendimento. Ah que prazer pode ser maior que boa comida, boa bebida e excelentes amigos? Flávia que dizia não gostar, adorou, e a partir daí já não dispensa a iguaria. Jair que sempre evitava miúdos, sangue, etc., lambeu os beiços e não foi preciso pedir uma cabaça de arroz branco a parte conforme estava previsto. Não vou falar das azeitonas e do pão também à entrada que esses já são por si famosos em todo o país. Mas por cima do arroz de sarrabulho uma farta porção de cominho moído na hora. Mais do que eu normalmente acharia necessário, mas estávamos em Ponte de Lima, que é um pedaço do céu que caiu cá em Portugal, e nada era excesso, nem a comida, nem a bebida, nem a amizade nem os sorrisos. E viva os temperos.