segunda-feira, 10 de maio de 2010

Três Marias dolorosas


Maria, embora fosse de uma família de classe média em uma cidade onde isso é uma das cartas de referência para toda comunidade, era independente, como a mãe que na cidade pequena, sempre fêz escola em atitudes que por vezes podiam causar escândalos e comentários maldosos.
Maria foi miss da cidade, foi estudar fora, foi cuidar da vida...
Conheceu um rapaz, que era da mesma cidade, mas que assim como ela foi fazer faculdade fora, e embora morando em cidades diferentes, ela viajava até ele, ele viajava até ela, ambos viajavam até a cidade natal.
Foram anos nesse vai-e-vem, amor crescente, desejo ardente, passeios, cerveja em barzinho, retórica e discussões filosóficas...
A mãe de Maria, que há muito vinha doente, morreu, e ela como filha amantíssima, abatida, sofrida, carente... Ele estava na cidade, foi até ela, e levou-a a um canto para conversarem, e assim, antes do cortejo fúnebre sair, terminou o relacionamento.
***
Maria Amália, prima de meu pai, porém, um tanto mais velha que ele... Naquele tempo, anos 1950/60, interior de cidade nordestina, família séria, onde moça tinha que ter recato, Amália arrumou um namorado...
Flertaram, namoraram, noivaram, casaram...
Maria Amália de branco, como devia ser e grinalda de flor de laranjeira, representando sua pureza...
Depois da festa, Amália e o noivo foram para a casa que haviam mobiliado com carinho, os brocados, paninhos bordados e crochês feitos com capricho, por ela mesma
Lua de mel, ele a penetra com volúpia e prazer, desvirginando-a, perde-se o hímen, perde-se a pureza, torna-se mulher.
Ele saciado levanta, a manda tomar banho, e ele diz quando ela retorna entre envergonhada e suponho feliz: “_Agora volte pra casa do teu pai e diga que te mandei de volta porque você não era mais virgem e me enganou. Se você não confirmar essa história e seu pai e seus irmãos vierem tirar satisfação comigo eu mato seus irmãos, mato seu pai, e depois mato sua mãe e mato você também.
Só se soube da história muitos anos depois, quando o sujeito já não mais existia por ali; ela casada com outro homem que a respeitava e com quem viveu com até a morte.
***
Maria da Graça era nordestina, negra e analfabeta, oriunda de quilombolas de Oeiras – PI. Trabalhava na Granja, pelava frangos desde que ainda não havia peladeira elétrica e tudo era feito a mão. Para isso, acordava às quatro da matina nos dias de semana e às duas da madrugada aos sábados,  domingos e feriados. Além de não saber ler, também desconhecia as diferenças cédulas de dinheiro. Tanto fazia dar-lhe uma nota de cem, como de um. Para ela não havia diferença. Imaginem o tanto que não deve ter sido ludibriada.
Lavava e engomava roupa pra fora, sempre utilizando um daqueles ferros de ferro, o qual se aquece colocando-se carvão em brasa em seu interior, não se entendia bem com ferro elétrico. Vai ver quer que era como tia Alice (tia de um amigo), que usou fogão a lenha até morrer, pois não acreditava que comida em fogão a gás prestasse.
Gostava de usar um lenço na cabeça, e ficava uma graça com uma sainha branca e rendada em três babados que tinha, mas nunca acreditava quando dizia a ela que lhe caia bem, achava sempre que eu estava a caçoar.
Tinha uma casinha pitoresca, com um pé de caju à frente, que frutificava ano a ano, ignorando o terreno pedregoso que ela varria com vassoura feita com pés de velame ou outro mato similar que não sei o nome.
Casou-se com João, que um dia foi embora atrás de trabalho e ligava sempre aos domingos à casa de minha tia para falar com ela. O tempo passou e os telefonemas pararam abruptamente. João cansou, ou casou, ou morreu, quem há de saber?
Tempos depois, Graça arrumou um outro homem. Mais moço, mais branco, mais esperto, mais sem-vergonha. Bebia de vez em quando, e até por isso entre sabe-se lá quantos outros motivos, vez ou outra se separavam, mas logo ele ia atrás dela novamente e reatavam.
Um dia ele bebeu, eles discutiram e... Com um pedaço de pau, ele bateu nela até matar.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Observações esparsas sobre uma cidade sem eixo narrativo.


Ao chegar a Maceió, o assédio de taxistas no aeroporto é enorme, mas o ônibus que vai para Ponta Verde passando pelo centro e por Pajuçara sai da frente dele, e por apenas R$2,00 pode levá-lo até às duas das principais praias da cidade.

No trajeto, logo você vai assustar-se com um córrego fétido que toma grande parte do caminho e divide uma das principais avenidas de acesso à orla. Infelizmente, este esgoto a céu aberto, escuro e de odor extremamente desagradável, vai desembocar em uma praia, obviamente imprópria, onde talvez pelo cheiro acre constante, não se instalaram ali as quadras de esporte que se encontram sucessivas em praias vizinhas como Sete Coqueiros e Pajuçara.

De Sete Coqueiros à Ponta verde e de lá à Jatiúca, pode-se observar que a orla ostenta prédios sofisticados, embora muitos deles em terrenos mínimos, com pouco ou quase nenhum recuo. Em Pajuçara, o tom escuro predomina nos prédios, sabe-se lá por quê. O mármore é onipresente nos revestimentos, mas não quer dizer que embeleze, pelo menos não a meus olhos. Ao contrário, lembrou-me o comentário atribuído a esposa de Giscard D'Estaing (então presidente francês, quando da visita o Brasil, em outubro de 1978): “O Brasil um país tão pobre e utiliza tanto mármore...”

Aliás, a diferença entre as classes é aviltante, tanto que pode-se encontrar pessoas utilizando-se de um cano de água a vazar na rua para lavar roupas (foto), enquanto a grande maioria dos carros tem ar-condicionado, imperando os de grande porte.

Na orla ficam ótimos restaurantes e o atendimento é muito bom, assim como a comida farta e barata.

A variação de preços na pousadas é grande, então vale a pena pesquisar. Infelizmente não consegui achar uma sequer que tivesse ventilador ao invés de ar condicionado. Aliás, atendentes de pousadas e garçons são simpaticíssimos por lá.

O calçadão é fartamente arborizado por coqueiros, dando um astral agradável em tons e cores característicos. Uma extensa ciclovia se estende por toda essa orla, mas os moradores não a utilizam: os ciclistas preferem andar pela pista destinada à caminhada e, então, as pessoas transitam pela ciclovia. Em todo caso, a existência da ciclovia por si, mostra uma preocupação com uma estética que possa ser utilitária e ao mesmo tempo bonita. 

Infelizmente as igrejas no Centro Histórico não abrem aos domingos, o que é uma pena; por sinal, o local fica completamente deserto. E, apesar de um ou outro prédio, o histórico do Centro é incipiente.

O enorme monumento a Teotônio Vilela, mantêm o ar condicionado ligado constantemente, no calçadão de sete coqueiros, e quem sai do calor para aquele ar gélido corre o risco de um choque térmico! O monumento de Niemeyer tem ao alto uma escultura em concreto, que pretende lembrar uma foice e um martelo, mas recordou-me mais uma cabeça de “Alien, o oitavo passageiro”. Mas afinal, aquele arquiteto também faz monumentos... E este, por incrível que possa parecer,apesar da autoria, ainda tem grama e coqueiros; menos mal. Pretende-se ali cultuar a memória do “estadista”, que pretendem transformar em arauto do socialismo, por sua luta em favor das liberdades políticas e da redemocratização do país. Mas ele não foi membro da UDN e posteriormente da ARENA, braço de sustentação da ditadura militar?

O Mercado Central é um tanto sujo e desorganizado, com produtos expostos na linha do trem, sem o glamour mostrado em recentes programas de TV. Encontrei algo que procurava há algum tempo, sem sucesso em outros estados; deve ter caído em desuso, mas em época de dengue pode ser um acessório bastante útil: um mosqueteiro! Sim, lá eles ainda são vendidos e depois tornei a encontrá-los em Penedo, Neópolis, Aracaju... Mas, enfim, tem coisas que é melhor comprar de cara; já perdi inúmeros itens por deixar para comprar na próxima cidade, e nunca mais vê-los.

O artesanato local não empolgou, nem mesmo indo atrás dele, no Pontal da Barra, onde supostamente viveriam as rendeiras de Maceió. Pode ser que empolgue o leitor se este nunca tiver ido a Fortaleza, Teresina ou João Pessoa. 

Fotos: Djair

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Chove chuva


           Quando chove dentro ou fora de mim
 
Sinto vontade de café com leite
Na beira de um fogão de lenha
Ou mesmo um café ralinho coado no coador de pano
E servido direto do bule de agate
(vermelho)
Pra esquentar por dentro
E rebater o frio que vem de fora
Ou aquecer sem demora
O frio que vem de dentro.
Como se fosse uma dose de carinho injetada na veia
Como violão e fogueira em noite de lua cheia
Ou o calor de ser coberto por mão alheia.
Quando chove dentro de mim
Demora pra sair o sol
Mas se vem o arco da velha
Esqueço o alagamento e aproveito pra semear
Ou simplesmente jogar sentimentos ao vento
E se o arco-íris não aparece
Faço a Deus uma prece
Ofereço o sofrimento em desagravo pelos pecados 
(cometidos)
Por pensamentos e palavras, atos e omissões.
Mas se a chuva é só por fora
E se vem em boa hora
Me aconchego na cozinha
Bato ovos e farinha
Faço bolos, roscas, pão
E aproveito o que é bão
              (até a chuva passar).




 Foto: Djair - Arco-Iris na praia do jacaré em Cabedelo - PB

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Prêmio Portugal Telecom de Literatura - 2010

             Falta menos de um mês para a divulgação dos vencedores da primeira fase do Prêmio Portugal Telecom de Literatura, versão 2010. A lista dos 15 semi-finalistas, assim como do júri intermediário, será divulgada em 15 de maio. O prêmio contempla, nessa versão, livros escritos em língua portuguesa com primeira edição no Brasil entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2009; e com primeira edição no exterior entre 1º de janeiro de 2006 e 31 de dezembro de 2009, desde que tenham a primeira edição no Brasil em 2009. O ISBN – International Standard Book Number - é condição obrigatória.

            As categorias concorrentes são: romance, conto, crônica, poesia, dramaturgia e autobiografia.

            Este ano foi um dos mais difíceis de fazer as escolhas; o nível altíssimo dos concorrentes, dos quais devemos escolher apenas cinco, me fez coçar a cabeça e roer as unhas várias vezes; nomes como Chico Buarque, Agualusa, Moacyr Scliar, Nélida Piñon, Mia Couto, e até Saramago, que já ganhou um Nobel! Mas o prêmio diz respeito à obra inscrita, e não ao conjunto da obra... São tantos, que a extensão ficaria monótona e longa apenas com os nomes laureados, e outros ainda quase desconhecidos, o que não alivia a tarefa, já que se compõem de letras, palavras, frases desconcertantemente deliciosos, e os alça a leitura quase que obrigatória. E ai, fazer o que?

A lista inicial dos que gosto é muito, muito superior aos cinco que devo votar... E como não deixar-me influenciar por obras anteriores de um mesmo autor? Ai de mim.

E a lista de jurados? Outra que não dá menos trabalho... Ídolos, amigos, pessoas que sigo em jornais, blogs e afins...

No fim, ambas as escolhas – Livros e Júri – são feitas, e envio os votos, tento seguir critérios sensatos e não apaixonados, ou de fã, de amigo... Mas fica sempre um travo na boca de ter escolhido este cálice e não aquele, sabendo-os todos tão saborosos. Por outro lado, é isto o que faz com que, mesmo não tendo votado em um determinado livro, ao vê-lo entre os eleitos, sinta-se o mesmo gosto em vê-lo premiado.

Gli Archi Ensemble toca no SESI

Reconhecidamente um dos grandes grupos de orquestra de câmara da atualidade, o grupo italiano criado em 2003, Gli Archi Ensemble, apresentou-se em São Paulo, na última sexta feira, 16/04. O grupo que possui dois CDs: Gli Archi Ensemble (com obras de Boccherini, Mendelssohn, Tchaikovsky e Purcell) e o Audiobook The Magic of Wood.

Em apresentação apenas para convidados, o concerto do grupo, respeitado em toda Europa, comemorou a abertura do projeto SESI de Música 2010, que irá até 31 de julho e executará 425 apresentações em 15 cidades, atuando na formação de público e contribuindo para divulgação de novos artistas e instrumentistas.

No programa de abertura, O Gli Archi Ensemble, composto por onze integrantes: seis violinos, dois violoncelos, duas violas, e um contrabaixo, executou peças de Vivaldi, Rossini, Molinelli e Josef Suk. Ovacionado com entusiasmo pelos presentes, o grupo ao executar o bis, optou por uma peça da ópera: Il barbiere di Siviglia, encerrada aos brados de Bravo, Bravissímo da platéia satisfeita.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Penedo II


Penedo deixou-me tão feliz, que é preciso que eu ainda fale mais sobre ela...

Soube da existência desta cidade, anos atrás, por Marcello, um grande amigo que hoje mora em Salvador, e pelo Cacá, que era amigo deste e hoje mora no céu.


Mas fora isto, nunca li sobre ela em catálogos ou revistas de viagem, não que seja um consumidor voraz destes, mas enfim, creio não haja muita divulgação mesmo, e aí, imaginem a surpresa, de encontrar lá um casal amigo. Aliás, dupla surpresa, já que conhecia a ambos, de lugares diferentes e não os sabia casados. Jaelson e Bete foram ótimas companhias de passeios pelas ruas de Penedo e até à foz do rio S. Francisco. Para chegar à foz, tivemos que ir a Piaçabuçu e alugar um barco. Imaginem, senhores leitores, a delícia, um barco médio, amigos, sol, (bóias e coletes salva-vidas) e um rio imenso em largura e comprimento, margeado por coqueirais... Depois de 45 minutos, chega-se a um ponto de praia fluvial, formada por dunas onde o sol torna a areia dourada, e com um pequeno lago que desemboca no rio e, acredito, forma-se a partir dele quando a maré sobe e o mar empurra a água do rio (que durante o percurso, Jaelson volta e meia provava a fim de ver se já estava salobra).


Banha-se no lago, e até Jair avesso à água, ousou entrar. Bete foi a única que não o fez, mas depois, ao adquirir uma imagem de S. Francisco, sentiu-se na obrigação de cumprir o ritual local: entrar no rio, mergulhar a imagem por três vezes na água e fazer um pedido. É este o batismo da imagem. Eu fiquei mesmo com o tatu de madeira de um artista local. As cocadas vendidas ali, com sabores de frutas, maracujá, goiaba, etc. são das melhores que já comi, feitas com coco ralado em pedaços grossos. O bolo de mandioca, então, já não é um dos melhores, é o melhor!

Chegam-se barcos grandes de companhias de turismo, e eu fico ainda mais feliz por nosso barquinho pequeno, sem som alto, sem rapazes a querer mostrar músculos e moças a mostrarem corpos, e gente a berrar. Realmente acho que estou cada dia mais misantropo... 
Na volta a Piaçabuçu, comemos peixe em um dos restaurantes da margem do Nilo, ops, do S. Francisco... A comparação vem da vida que o rio dá a essas cidades, proporcionando lazer, água e alimento -  lavadeiras ali tiram o sustento, homens e mulheres pescam, e assim tem garantida proteína em seus lares. Sem falar na travessia do rio pela balsa e pelos barcos, que imprime um outro tempo e um outro ritmo para a cidade.

Pegando a balsa ou um barco em Penedo chega-se a Neópolis, antiga Cidade Nova, e também a Santana do S. Francisco, antiga “Carrapicho”. Do outro lado da margem, resolvemos ir a pé de uma a outra, já que não as separam mais que cinco quilômetros. E eis que entre elas., para minha surpresa, existe uma vila operária, bem grande, com igreja, e inúmeras casinhas brancas com janelas azuis. A última que tinha visto assim era a Fabril em Cubatão, uma charmosa Vila às margens da Serra do mar, que foi sendo desativada pela Companhia Santista de papel nos anos 1980, o que foi uma pena; foram sendo fechadas e deixando-se deteriorar até ruir, e onde antes havia lindas casinhas brancas com janelas verdes, tem-se hoje uma favela.

É tradição em Penedo o “café nordestino”, como jantar. Mandioca cozida acompanhada de carne, frango, peixe ou  lingüiça. Toma-se com café com leite, ou suco... Ah, e os sucos... Acerola, umbu, cajá-manga... Não se pode dizer qual o mais gostoso...

Qualquer lugar que eu visite, se tem um mercado, faço questão de conhecer, é lá que está o povo, e se vai ver como ele vive, o que come, como age. O de Penedo está em reforma, há dois anos, e parece faltar pouco para acabar. Então o comércio do mercado fica na rua, próxima ao prédio que o abrigará. O show de variedades de frutas e farinhas é inenarrável, e como tal, nem vou tentar fazê-lo. O queijo de coalho, de lamber dedos, antes de pegar o próximo pedaço. A quantidade de oferta de amendoim de vários tipos e tamanhos me diz que a terra por ali é boa para seu cultivo.

Entre o mercado e o rio há um centro poli-esportivo onde o concreto impera, e que seria muito mais agradável se tivesse árvores em seu conjunto. Aliás, em Penedo não encontramos grande arborização nas ruas, e quando há, as árvores são podadas de forma bem “sui generis”, copa baixinha, cortada reta, como se o facão lhe tivesse arrancado o escalpo a um só golpe. E um palmo ou pouco mais abaixo desta copa, lhe é também tirada a ramagem.

O orgulho com o passado da cidade é imenso, as fotos bem preservadas do intenso comércio à beira-rio são documentos de um passado de efervescência financeira, as do festival de cinema provam a vida cultural ativa, e podem ser apreciadas tanto no museu local , na como casa de Penedo, onde ouvirás em tom orgulhoso sobre a suposta paixão do imperador Pedro II pela cidade, que teria proferido frases como: “Aqui deveria ser a capital da Província”, e quando em passagem rumo ao exílio: “Já que estou em Alagoas, porque não me levam ao Penedo?” Ah, realmente as citações históricas sem fonte conhecida são mesmo uma delicia, não?


Fotos: Djair - Rio S. Francisco, Visto a partir da rua do banheiro
                  - Vista da margem do S. Francisco, próximo à foz, do lado alagoano.
                 - Igreja da Vila operária, com as casinhas ao fundo, entre Neópolis e Santana do S. Francisco - Se, pertencente à fabrica de tecidos Peixoto.
                 - Ficus na calçada, podado à moda Penedense.
                 - Um dos muitos palacetes da cidade de Penedo.

domingo, 11 de abril de 2010

Penedo

A cerca de 3 horas e meia de Maceió, encontra-se a cidade de Penedo, repleta de igrejas e de casarões imponentes que, na sua maioria, estão em perfeito estado de conservação. Servem de guardiões à história local, forjada no tempo de um fausto comércio às margens do rio S. Francisco que, ainda de águas limpas, banha moradores, visitantes, e enche os olhos de quem o visita, com águas verde-azuladas e margens com extensos coqueirais.



As igrejas tomam conta da paisagem com suas torres dominando o skyline que só é agredido por um prédio de hotel, visto do meio do rio ou do outro lado deste, na sergipana Neópolis, nascida Vila Nova. No entanto, quando é visto da própria rua, o hotel (de arquitetura moderna dos anos 50) integra-se à paisagem bucólica e romantizada da cidade, bem diferente do criminoso shopping (?), uma galeria de lojas (acredito que o seja, pelo minguado tamanho, não pode ser mais que isto, mas me recusei a entrar), que descaracterizou completamente um casarão a título de um falsa modernidade.

O casario colorido típico do Nordeste está presente nas casas mais humildes, antigas e atuais, que casa perfeitamente com o antigo art-decô onipresente. As ruas bastante estreitas do centro antigo ganham movimento a cada balsa que estaciona no cais, tanto que a cada vez que passam cinco ou seis carros com a velocidade moderada pelos paralelepípedos se pode dizer com segurança: A balsa chegou!

Arriscando-se pelas ruas que levam ao interior da cidade, vê-se o colorido semelhante nas casas, e os quintais repletos de frutíferas transmitem a mesma alegria bucólica dos frangos e galinhas a ciscarem pelo meio da rua. De repente o ar enche-se de zumbido e meio parvo constata-se... Cigarras... Sim, são elas que ainda existem e enchem o ar com seu... Sì, sississi...

Na pousada em que ficamos, em frente à praça do correto, se havia alguma dúvida quanto à ficar lá, acabou quando Maria, a senhora que cuidava da cozinha, e de quem a arrumadeira tirava sarro o tempo todo, respondeu a nossa pergunta: “_Tem café da manhã?”, com um enorme sorriso e a seguinte resposta: “_Tem, tô fazendo um bolo de mandioca pro café de amanhã, e vou fazer tapioquinha também!!!” Bem, melhor que isto, só foi saber que tinham quarto com ventilador, muito melhor que o ar condicionado, que não gosto e tive que suportar em Maceió. Mal tomamos banho e nos aprontamos para começar as andanças e o cheiro do bolo inundou o corredor.

Descendo a rua em direção ao centro, ao chegar a beira da balsa... Milho assado!!! A espiga grande r$1,00, a menor  r$0, 75, e como se usam moedas por lá... O museu local, assim como a Casa de Penedo - um pequeno e bem cuidado centro cultural, mantido por um mecenas local - preservam objetos da época da visita do imperador D. Pedro II, e baba-se com os jogos de louça de porcelana, Francesa, Inglesa, Alemã... Aliás, uma das escarradeiras de porcelana já me faria bem feliz!

Em uma das igrejas, a de Nossa Senhora das Corentes, datada do século XVIII, vi algo realmente inusitado: não possuía bancos, cadeiras, ou o que o valhe-se. Mas logo a informação veio. Na época as pessoas traziam tapetes para sentar; os abastados, seus tapetes persas, os humildes, esteiras de palha! Nunca havia visto/ouvido isto em lugar algum.

As pessoas, ao contrário da capital, são cordiais e  transmitem ar de calma e alegria, e sempre respondem o bom dia, boa tarde, boa noite... – Uma vez em São Paulo, cismei pela manhã em dar bom dia a todos que encontrasse, e o fiz do metrô Ana Rosa à Cinemateca, e apenas uma senhora retornou o bom dia! Deus a abençoe. – Às vezes vêem-se senhoras na janela acompanhadas do radinho, e em algumas casas ao final da tarde, familiares colocam seus doentes sentadinhos à porta a fim de tomarem o ar fresco do ocaso.

Infelizmente o cinema local está fechado, e à venda – Ah, se eu pudesse... – Após ter sido palco de prestigioso festival nos anos 1970/80. A Casa de Penedo guarda as poltronas, e outros objetos que pertenceram a ele, mas dentro, espiando-se por uma fresta, botam-se três lindas cristaleiras que também deveriam estar no museu, ou em minha sala pelo menos.
Aos finais de semana, abre-se um bar às margens do rio, aliás mais de um, onde se pode ser feliz ao fartar-se com um tambaqui (de tamanho médio) inteiro grelhado, acompanhado por salada de tomate e farofa; ele mais quatro cervejas não saíram por mais de r$25,00. O único problema é a música, pois lá também os refinados donos de carrões tem que exibir a potência de seu som... Mas paciência, cada um exibe o que tem. 


Fotos: Djair - Vista parcial a partir de barca no rio S. Francisco.
                  - Vista de um bairro afastado a partir do alpendre do colégio em frente a praça do correto.
                  - Altar-mor da Igreja de Nossa Senhora das correntes.
                  - Igreja de São Gonçalo Garcia.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Miauuuu!!!!

Atirei o pau no gato
Que assustou-se e correu
Acertei em um cachorro
Que de tão bravo me mordeu
D. Chica, dona do gato
Riu-se muito
Do que se deu
E ainda disse
Muito zangada
Teve bem, o que mereceu!
O castigo da maldade
Foi a mordida
Que doeu!




Queridos leitores, devido a curtíssimas e merecidíssimas férias, o blog entra em recesso por duas semanas. OU...
A qualquer momento extrordináriamente, com um texto extraordináio, ou ordinário mesmo!

Aproveitem para ler os antigos!





Foto: Djair - Oliver - o Gato, posto em sossego.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Dia das Mulheres... Bah!

Esta semana tivemos mais um dia internacional da mulher...
Um dia... O que se faz com um dia?
Não deixa de ser uma forma de lemb-las,  de lembrar das conquistas... De lembrar os sutiãs queimados em praça pública, Mary Quant e as minissaias. Sempre há quem evoque Leila Diniz, Bette Davis...
E as Marias-ninguém, que permanecem na escravidão cotidiana? O lavar-engomar-cozinhar-servir? As conquistas não foram para todas, como nunca são.
E o que se perdeu? Com os direitos iguais acabou-se o cavalheirismo, aliás também o "damismo", pois como eles, elas também ficaram mais mal-educadas, apontam indicadores em riste, soltam pelas ruas em alto brado retumbante o palavrório chulo com que se atingem juízes de futebol e nomeiam-se genitálias de forma pejorativa.
Outro dia, no metrô lotado, enrubesci ao ouvir duas moças a comentarem o diminuto tamanho do genital de um rapaz com o qual uma delas teria saído, e ainda falava à outra: “Não tem quem diga, né?” Moças que pareciam instruídas, que estava bem vestidas, e bonitas, mas sem conhecimento do termo discrição.
Mas essas são exceções que enrubescem também outras mulheres, como as que estavam próximas e que percebi também ficarem vexadas com o indiscreto comentário.
Pelas pesquisas que se lêem em grandes veículos de comunicação, as mulheres continuam a ganhar menos que os homens, embora sua jornada possa ser maior...
São mais consumistas, embora a meu ver, apenas gastem com coisas diferentes, compram mais roupas, mas os homens consomem mais gasolina e cerveja.
No seu dia ganham rosas, mas não seria melhor ganhar em gentileza permanente? Conheço caso de chefes que dão flores de manhã e, à tarde, um esporro, para depois sair sem dizer até logo, ou bom descanso, como forma de cortesia. Também conheço outras tantas que têm o mesmo comportamento. Ou seja, cada vez mais iguais a homens, sem ter que lutar para adquirir este status quo no que diz respeito à desconsideração e deselegância.
Conheço mulheres que mantém a casa, enquanto maridos inertes as esperam chegar do trabalho para fazer jantar, e me pergunto: por que permanece nesse tipo de relacionamento?  Assim como moças bonitas, independentes e inteligentes se deixam arrastar por namorados canalhas...
Na maioria das culturas indígenas, as mulheres são as agricultoras enquanto os homens provêem a caça e a pesca, ou seja, quando não há caça são elas que provêem o lar.  Elas o mantêm. Assim como mantém casamentos e namoros naufragados. Sempre em busca de ser feliz.
Acredito que tudo seja um processo de aprendizagem, mas o caminho é longo e a redenção,lenta. Afinal, uma mulher inteligente intimida muitos idiotas, e mais ainda se for independente; se juntarmos a isso, a beleza, e todos temos algo de belo, ferrou! Por isso mesmo, ainda há tanto préconceito masculino, e se os conceitos já são insuportáveis, imagine os pré.

Mas existem as amazonas, as que se fazem por si, que vão à luta, a todas as lutas, pelos seus direitos, pelos direitos dos seus, pelo direito dos que estão aquém delas, pelo que acreditam. E por isso vale a pena comemorar, vale a pena ter um dia pra ser lembrada, ainda que na forma de uma flor recebida e que ao fim do dia estará murcha.
Obrigado a elas por continuarem a lutar, por se fazerem ouvidas, por serem fortes, por serem belas, por nos manterem, por sua alegria, amizade e incentivo.
E pela temática do texto me lembro de inúmeras delas com as quais tive a honra de conviver e, por isso mesmo, com certeza aprendi coisas, sorri de coisas, fiz outras tantas, com, por e apesar... Correndo o risco da deselegância de esquecer, e várias serão esquecidas, não citadas por questão de espaço, lembrança distância, tempo e memória, cito exemplos de mulheres a quem agradeço o ensinamento (e cito ai professoras que tive, sem as quais, e sem sua dedicação, não estaria hoje onde estou, que se não é o alto do pódium é ao menos a sombra), o companheirismo, amizade e dedicação.


Lembro de negra Graça, que foi empregada de minha tia por anos a fio, desde que me lembro, até ser morta a pauladas pelo marido que sustentava. Lembro de Tânia Macedo, de sua sapiência e humor delicioso, de Tamina, grande professora do colegial, uma senhora distinta e apaixonada pela arte do ensino, de D. Maria José, professora do terceiro ano primário, por quem devo ter sido apaixonado; lembro de Marfisía Lancellotti, que menininha de vestidinho de chita, com a mãe, chega a São Paulo e fica petrificada com a  beleza da biblioteca dos frades do Mosteiro de São Bento. E... ao tornar-se mulher dirige a Maior Biblioteca da América do Sul, aliás hoje é dia do bibliotecário, parabéns a ela e a todos. 

Lembro de Ione, minha primeira namorada, na inocência dos 12 anos, onde o máximo que fazíamos era assistir os filmes do Roxy de mãos dadas, e um ou outro beijinho fugidio, de Marta, minha primeira mulher; Lembro de Carmem e nossos 5 anos de namoro, de Eliana Asche e nossas pelejas até viramos amigos por acreditarmos nas mesmas coisas, da Carol Bratch que optou por ser feliz, da Maluce que renasceu Myrna e a quem dei sobrenome, de Katya Carnib  e d. Nair sua mãe, as quais nunca esquecerei, de minha mãe que sempre lutou e continua a lutar por meu pai, meu irmão, por mim e agora por seus netos. De Dásia que me faz rir até doer, de Socorro Rocha, que amparou a mãe que enlouqueceu quando ela mal tinha saído da primeira infância, até que a mãe, D. Francisca, que apesar da demência gostava de mim,   falecesse, de Penelópe Cruz, que como diria alguém é o mais belo animal que pode existir. De Da Guia pelada, prostituta folclórica de Floriano que reza a lenda, nunca perdeu uma briga com um homem. De “Vida de Menina”, um dos mais belos filmes brasileiros, dirigido por uma mulher – Helena Solberg, baseado nos diários de Helena Morley, e onde Ludmilla Dayer  brilha a não mais poder.
 E como ficaria imenso e cansativo o texto se continuasse a citá-las, encerro, com um poema de Adélia Prado (confesso que me controlei para não colocar também o Sexta-feira à Noite, de Marina Colassanti) e um brinde a todas vocês.  

"Um minuto de estrondo a idade reencontrada. As taças para o brinde, porque hoje sou de novo uma mulher com sutiã grená, polindo os dentes sem pressa e desenhando a boca em coração. Basta, nem só eu respondo pela fome do mundo, e vou certificar-me, se ainda me olham duas vezes, se ainda intimido, se pelo que amo ainda faço a face dos homens abrandada e ansiosa.
Enquanto dura a trégua, vou guerrear".

Fotos: 
1 - Djair - Maria Cezídia - Minha mãe.
           2 -Djair - Ana, atual esposa do Sr. Verdu (cerâmista) - "Se eu tivesse arrumado essa pretinha mais tempo, minha vida hoje estaria bem melhor.", e uma cliente  - Polo Cerâmico - Bairro Poty Velho - Teresina - PI 

sexta-feira, 5 de março de 2010

De mal a pior.

É estranho como as maneiras, boas e más mudam com o decorrer do tempo. No século XIX foi preciso uma lei para banir escarradeiras das casas e locais públicos. Em algumas culturas é falta de educação não arrotar após comer, significa que não gostou. Esquimós oferecem as esposas aos visitantes...

Mas o que se dizer de inúmeros hábitos atuais da sociedade ocidental, sobretudo da classe média? No Brasil atual é comum se estacionar nas calçadas, afinal, é para isso que elas foram feitas, não? E o pedestre que se dane. Não estaciono sobre calçadas, nem  da minha casa, mas constantemente vejo meus vizinhos e a comunidade em geral fazer isso, como se fosse a coisa mais correta a ser feita, não importando se tem uma rua larga e ampla à frente da garagem/casa. Quanto a estacionar em frente à vaga alheia então nem comentarei, já que, a mim, soa tão surreal quanto abrir sem permissão a geladeira na casa de alguém que não se conhece. Mas mesmo isto hoje parece normal.

E os que chegam buzinando para que maridos/esposas/filho/o diabo venham abrir as portas de suas garagens? Afinal custa tanto descer do carro e fazê-lo, ou apertar a campainha! Graças a Deus meus amigos sabem o quando deprecio esse “modus vivendi” e apenas uma vez, um agiu de tal modo, jamais repetindo após o pito que tive que dar. Afinal, é uma falta de educação para comigo e para com meus vizinhos, que àquela hora estavam a dormir. Ou não...

Mas dá trabalho descer e tocar campainhas. O mesmo trabalho que dá manobrar o carro e já estacioná-lo ja´no sentido que se vai tomar, ficando em paralelo à calçada, e então após fechar o portão, voltar ao carro. Mas não, se para em cima da calçada, e  tomando meia rua, atravancando o trânsito de carros e pedestres.

O que dizer das bolsas imensas que se tornaram moda após a última novela de Gilberto Braga? Podem ser vistas em reproduções baratas, e nada elegantes, usados por modelos semelhantes. E basta ir a um congresso, reunião, missa, culto ou quaisquer tipo de evento social, e lá estarão elas, ocupando uma cadeira, enquanto várias pessoas estão de pé por falta de assento. E em metrôs ou ônibus lotados, então? Companheiras das mochilas às costas, impedindo a circulação. E fico a me perguntar: existe a real necessidade de acessórios assim tão enormes, que em alguns casos chegam a esconder quem as leva? Não será mais elegante usar algo de acordo com seu tamanho e que não atravancasse caminhos e pessoas?

Será que seria prudente falar sobre a má-educação infantil, ou chocaria pais e mestres que por acharem suas crianças lindinhas não lhes cobram boas maneiras e os pequenos monstros já crescem arrogantes, sem achar que têm obrigação alguma de cumprir regras de boa convivência? Conheço algumas que, de tão mimadas, sequer cumprimentam pessoas (não tem desejo ou necessidade de agradarem ninguém, apenas serem agradadas): umas por terem barba, outras por terem cabelo branco e se dizem com medo (aos 6 anos), mas recebem todos os presentes que lhes são dados e são assunto de familiares pelas costas dos pais, os reais culpados de tanto egoísmo e maus bofes.

Outro dia, em um almoço de aniversário, fiquei passado ao ver os mais jovens correndo para pegar um lugar à mesa, deixando tios e tias a comerem de prato na mão, e os filhos do aniversariante em outro cômodo... Acho que nem é preciso comentar...

Não posso esquecer de comentar sobre os inesquecíveis "personagens"  que falam no cinema durante o o  filme. Nunca me esqueço de uma bendita, no antigo Cine Vitrine, que ao assistirmos “Minha Secretária” (Nélly et Monsier Arnaud) – Claude Sautet – França/Itália/Alemanha – 1995, soltou, a uma fileira atrás de nós, num tom como se estivesse em sua sala: “-Nossa, bem, como ele é bruto, né?”

Pois é, ela não sabe o que é brutalidade, e antes que tivesse que apresentá-la à brutalidade do não ficção, mudei de lugar, para continuar a ouví-la, mas pelo menos de forma mais abafada. Confesso que gostaria de ter os ímpetos de escândalo e mandá-la calar a boca. Mas como diz a frase, da qual, já não lembro a autoria (seria Millôr Fernandes?) “O mais inteligente cede. É nisso que se baseia a dominação do mundo pelos imbecis.”

Outra (des)feita, em uma peça (K2 - de Patrick Meyers, direção: Celso Nunes) no teatro Anchieta, enquanto no palco Gabriel Braga Nunes e Petrônio Gontijo escalavam a segunda maior montanha do mundo, uma beldade na primeira fila, abre seu celular (sem atendê-lo of course), e corta o escuro do teatro com um feixe de luz azul, tal qual empunhasse um sabre de luz Jedi. 
Mas agora no cinema também é isto, o fulano não atende, mas toda hora acende pra ver quem ligou... Put´s... Precisa comentar? Ou já basta?

Talvez porque os filhos da classe média possam fazer tudo, (afinal, tem-se que se compensar a ausência dos pais), então, “tudo que seu mestre mandar, faremos todos...”
É a má educação que vem via Televisão, os gritos constantes dos pseudo-famosos que tem que berrar o tempo todo, e que se reproduzem "nas escolas, nas ruas, campos, construções..."

Foto: Djair - Carro tomanto toda a calçada, em frente a imensa garagem (mas dá trabalho abrir o portão).

segunda-feira, 1 de março de 2010

Sobre medos e filmes


    Esta semana ia escrever sobre a má educação das pessoas, mas ao assistir um filme na véspera, senti vontade de falar sobre ele e as impressões que me passou. Filme antigo, desses que em um filme cabe toda uma vida, com fotografia bela, figurino impecável e uma história que faz com que, dois dias depois, ainda se pegue a pensar sobre o que se viu...


    O filme? “Clamor do Sexo” – Splendor in the Grass, que narra a história de Bud (Warren Beatty) e Deanie (Natalie Wood), jovens do Kansas – E.U.A.

    Dirigido por Elia Kazan, de 1962, tendo o romance dos protagonistas como pano de fundo, é uma ode aos medos da juventude de uma época (anos de 1920), o das mulheres de se perderem na condição de vadias, o dos rapazes de fugirem aos planos paternos traçados para eles, o das famílias de classe média de verem suas filhas desgarradas e transformadas em motivo de comentários da vizinhança, ou do não cumprimento de seus planos, os filhos nascem para serem alguém e manterem ou multiplicarem seus recursos e ideologias. Afinal, se se tem medo de mudanças, o melhor meio para evitá-las é fazer com que se perpetue o que existe.

    No entanto, onde colocar o desejo que, por princípio, é mudança?

    E como tratar esse desejo, ceder a ele e correr o risco de perder-se em um universo desconhecido? A irmã de Bud, Ginny Stampe (Barbara) desafia esses conceitos e, ao enfrentar pais e sociedade, é uma moça que se entrega a todos os tipos de prazeres mundanos, e como não poderia deixar de ser, perante o público/sociedade da época, se autodestrói.

    O próprio Elia Kazan, nascido grego e desenvolvendo carreira nos “United States”, perseguido pelo comitê de investigações de atividade antiamericanas que caçava pretensos comunistas, entrega colegas, manchando para sempre sua carreira... por... Medo... Nunca filmou sobre o ocorrido. Em 1999, quando recebeu um Oscar honorário, pelo conjunto da obra, causou divisão na platéia que aplaudia ou vaiava ruidosamente.

    Mas e quando presenciamos atitudes com as quais não concordamos, que fazemos? Delatamos ou calamos? Afinal a delação passa a ser a fofoca, o falar mal de, e logo vem o “mas o que é que eu tenho com isso?” E então, a delação seria um ato de coragem ou covardia?

    Voltando ao filme, há ainda os personagens secundários, as mães, a que super-protege (de Deanie), com medo da perda da virgindade da filha, seu maior medo, e a que é passiva diante de filhos, marido, tudo e torna-se apenas um pastiche de si (a de Bud). E quantas mães não conhecemos em que as reconheceríamos?

    Lembro-me de um caso, ocorrido há cerca de uns 15 anos, ocorrido com conhecidos, onde uma avó, que criava a neta e, quando essa foi desvirginada pelo namorado, comentou: “_Ele inutilizou a menina.” Bem, pelo meu ponto de vista, ele deu-lhe uma utilidade a mais...

    Já um antigo colega de trabalho de outros tempos, Amilton, dizia: “_O problema não é dar, é alguém ficar sabendo!” Uma grande verdade dita de forma jocosa, afinal a vida sexual do outro sempre é atraente a certos círculos.

    Não temos esse medo o tempo todo? O medo de magoar a quem se gosta. O medo infundido na infância pela igreja que nos traz a culpa Judaico-Cristã do pecado original, Mea culpa, me culpa...

    Medo de frustração profissional, de não aceitação em um grupo, de se frustrar com o outro, ou de não corresponder às expectativas daquele. Não há para onde correr: os medos nos cercam por todos os lados, desde o primal medo do escuro até o medo final na hora da morte... Para onde estou indo, devem temer os agonizantes, e por isso se agarram ao corpo debilitado com suas últimas e combalidas forças. O medo que se transforma em pavor e nos faz orar com fervor.

    O receio sempre presente de se estar a fazer o que realmente é certo...

    O medo do ridículo... Como diz Oswaldo Montenegro: no  “nosso ridículo eterno, nós temos a impressão pela igreja católica que temos o pecado original, mas temos mais, temos o ridículo original (...)”

    Lembro que, ao concluir uma etapa do curso de homeopatia, tínhamos que apresentar o trabalho sobre o simillimum, que é o medicamento mais próximo possível das características do paciente, e eu deveria apresentar o Sulphur. Apresentei apenas o trabalho escrito, com a alegação que: “Sulphur não fala por timidez e medo do papelão”.*

    Sim, deve ter pessoas felizes sem quaisquer sentimentos de culpa, sem o medo presente dentro de si, e que livres disso, nunca metem os pés pelas mãos... Deve haver as centenas de milhões, mas não entre esta cadeira e este teclado.


* J. A. Lathoud. Matéria Médica Homeopática. São Paulo: Robe. 2002. 1291p

Foto: Djair - Boneco em Cerâmica do Vale do jequitinhonha.