Ao final do
quarto ano primário tínhamos que fazer o Vestibulinho, para ter acesso ao
ginásio, tão sonhado. Naqueles anos 1970 não havia escola para todos e esses
recursos eram aplicados a largo. Também não havia esse amontoado de escolas
particulares – como hoje em que há mais de uma por quarteirão em certos
lugares, tanto que a algumas universidades digo: Aquela é a melhor faculdade do
Bairro... Mas muitas vezes, é só da quadra.
O colégio
pretendido por todos era o Polivalente... Ficava bem mais distante, mas que
fazer? era o melhor... Evaldo, meu colega desde o segundo ano, com o qual
repartia a carteira dupla, e eu estávamos ansiosos... Na semana da prova,
desmaiei, ou quase isso. No domingo, meu pai ao estranhar a quietude e entrar
no quarto encontrou-me em estado catatônico. Eu sentado, olhos abertos,
babando... Não lembro nada que se passou naquele dia, lembro apenas de ter
acordado no dia seguinte (não sei se era o seguinte ou outro) debaixo do
chuveiro, a tomar banho. Uma enfermeira ou auxiliar me explicou o que havia
acontecido; devo ter ficado meio dopado...
Problemas
renais, disseram. Não sei qual... nunca mais tive, mas àquela semana fiquei
internado, nada de sal, muito embora algumas das enfermeiras me dessem
escondido da sopa dos outros meninos da pediatria. Lembro que me divertia muito
com eles, éramos cerca de 4 ou 5, e apenas um, que tinha a perna inteira
queimada e não podia levantar-se, não participava de nossas anarquias naquele
parque de diversões asséptico. Afinal, éramos crianças, sem ter o que fazer a
não ser repousar e brincar, já que não havia classe hospitalar ali. Aliás,
àquela época nem se pensava sobre isso, pelo menos não abaixo da linha do
equador.
À tarde, minha
mãe vinha me visitar, à noite, voltava com meu pai; traziam-me gibis, doces,
batata frita sem sal... Uma das vezes, um pudim (de leite) inteiro, que ela
lógico mandou-me dividir com os coleguinhas e com as moças da enfermagem.
A cada colega
que recebia alta ficávamos tristes em separarmo-nos. Já nossos pais se
alegravam e esperavam fossemos os próximos. Não lembro os nomes dos demais,
apenas de Rômulo. Mas a perna queimada do outro colega também está presente em
meu arquivo de memórias, assim como o fato de ter sido devido a brincar com
álcool. Lembro-me também de seu rosto cheio de sardas, ornando com o cabelo
ruivo.
Saí de lá e
fiz o tal “vestibulinho” na “Escola Estadual Alberto Giovannini” e passei
com boa classificação. Lembro ter errado a pergunta sobre a lei do divórcio,
que não soube ser autoria do Nélson Carneiro; isso em conhecimentos gerais, mas
as que acertei não me lembro de nenhuma... São daquelas coisas que ficam
gravadas, como a de conhecimento gerais que, mais de 30 anos depois, ao fazer
prova de concurso público encontrei: causa da morte de Cássia Eller, cantora:
Erro médico. Desta vez acertei-a por gostar da cantora, a qual cheguei a
assistir shows.
Evaldo, meu
colega de tanto tempo, foi para o Polivalente e daí nos distanciamos... Às
vezes penso que, se voltar um dia àquela cidade, àquele bairro, talvez o
encontre naquela ruazinha, na lateral do Grupo Escolar... Devaneios
improváveis...
Como muita
gente, amigos ou não, dele fica uma lembrança boa.