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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

As janelas, a paisagem, os ônibus, as pessoas...

Antigamente dizia-se a ponto de virar ditado: “chegou atrasado e quer sentar na janela.” Bem, o dito popular hoje já não faz sentido... Foi desatualizado pela pressa.
 Ao menos na cidade de São Paulo, nos ônibus, a maior parte dos passageiros procura sentar-se do lado do corredor, embora, pela paisagem encardida que não vale a pena ser apreciada, por entre carros e prédios cinzas, sujos e escuros, ainda se possa ver alguns ipês floridos a semear esperança com seus cachos rosa ou com o esplendor de seu amarelo luminoso, a colorir os olhares dos que se voltam a eles, e também manacás  e quaresmeiras a insistirem em colorir algumas ruas, apesar da prefeitura e seus podadores assassinos não cooperarem.

Mas nos ônibus, e falo dos que não andam lotados, a maior parte dos transportados não se interessam por eles... Preferem os assentos do corredor... talvez para que ninguém os atrapalhe à hora da saída. Embora costumem dirigir-se à porta dois pontos antes da descida, talvez a escolha pelo corredor seja para que se possa mais facilmente fugir a um possível assalto, já que assaltantes sentam-se aos corredores, bloqueando a fuga de quem está à janela (sim, assaltantes reles, desses que assaltam quem anda de ônibus, mas nem por isso menos violentos). Ou talvez o critério da escolha seja uma tentativa de evitar que alguém se sente a seu lado, já que contatos físicos e verbais são indesejados... Quem sabe sentam ao corredor pela mentalidade tacanha de achar que a bolsa ou mochila tem que ser colocada no lugar ao lado, merecendo mais atenção do que um passageiro pagante que segue em pé, porque a bolsa da(o) bonita(o) está a ocupar o lugar onde aquele poderia sentar-se: um cansado, doente, velho, fisicamente incapacitado ou simplesmente um outro passageiro, que paga também por sua passagem. Não importam-se, taca-se ali o embornal e dane-se o outro... E o lugar à janela permanece vazio até que alguém se disponha a pedir “licença” e requisitá-lo, fazendo com que de má vontade sejam retirados os sacos que ocupam o assento.
Não, não vou falar sobre os que ocupam os lugares reservados a idosos, grávidas e deficientes, e fingem não vê-los, pois desses já falei em outro texto... Nem da péssima educação e desprezo demonstrado para com o outro dos que se sentam ao lado de quem esteja à janela e viram suas pernas para o corredor dando as costas para o passageiro que ali já estava... Também não vou falar dos DJs de busão e metrô que mesmo com fones de ouvido incomodam com seus sons, e muito menos do antigo e esquecido atestado de boas maneiras explicitado no “com licença?” que ainda vinha acompanhado de um sorriso... Voltemos ao ônibus que ainda não chegamos ao ponto final...
Berra-se aos celulares, diaristas contam detalhes das manias esquisitas de patroas, narram bravatas do que teriam dito, contam vantagem do patrão melhor que o da outra... Motoristas arrancam como se esporassem um burro xucro, param o coletivo longe das calçadas e de acessos a estes, não dão a mínima aos corpos idosos a arrastarem pernas cansadas que já não obedecem tão bem aos comandos... Isso sem falar nos que passam direto em pontos, só para não pegá-los. Alguns ainda reclamam e alegam que eles não pagam passagem... acaso isto teria influência em seu salário (parco)  findo o mês?

Trocadores assediados por moçoilas interessadas no tipo ficam eloquentes, risonhos e atenciosos - pavões a exporem suas caudas na lotação.

Piriguetes de Busão debruçam-se sobre o motor para aproximar-se do motorista com quem trocam palavras (não ideias)  em altos brados retumbantes, e dane-se se a enorme bunda que só não é maior que a bolsa fica no caminho a atrapalhar o passageiro que sobe...

No resto do ônibus, passageiros sentados ao lado dos corredores... Não, as janelas não interessam a ninguém. Se “os olhos são as janelas da alma”, como metaforizou alguém, vai ver que é por isso que também hoje pouco se olha nos olhos; a pressa, a falta de educação, o descaso pelo outro, o desinteresse generalizado não o permite.

Ainda prefiro as janelas, ainda olho nos olhos... Estou defasado!

Foto: Edilson Marques  Portugal (Javas)