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quinta-feira, 9 de março de 2023
Vira que virá um sonho
terça-feira, 14 de fevereiro de 2023
Teresa
Ela estava no fundo do quintal, a torcer e estender roupas no varal. Quando ouviu o Bem-te-vi a silvar o seu longo beeemteviiii, minha tia Teresa, que um dia, na infância, já tinha sido minha tia preferida, com seus causos, histórias e gargalhadas, disse a imitar o pássaro: “_triste viiida, é, isso mesmo, triste vida, meu pássaro, é essa minha.”
Desde a perda da minha prima Dienny, que morreu no parto de seu único filho, tia Teresa passou a ser uma pessoa amarga, de maus humores e vitimista. Certa vez fui visitá-la numa cidade a 170 km e lá chegando ela me recebe com a frase: “_Mas tu não veio não foi pra ficar aqui, né!?” Imediatamente eu disse que não, que tinha só passado para cumprimentá-la e que já estava indo embora. “Bença tia?” e tomei o caminho de Teresina, para onde fui para a casa de amigos, onde era bem mais querido e festejado. Tia Teresa criou os três filhos sozinha, à custa de subemprego e noites em claro. O marido que era analfabeto aprendeu a ler com ela, que anos antes tinha sido professora leiga em tempos nos quais isso era comum pelos campos Brasis. Em seguida, ele se formou pelo Instituto Universal Brasileiro, como técnico de rádio e televisão, montou uma oficina de sucesso e então a deixou. Como revelou a mim e a uma prima quando demos a ela um pilequinho no Natal, foi culpa dela mesma que nunca foi pra cama – no sentido bíblico – com ele, sem chorar. Achávamos que era por falta de vontade, comum às mulheres de nossa família materna. Hoje penso que poderia ser por dor, falta de lubrificação ou mesmo preliminares. Afinal, como disse Lara uma vez, mais ou menos é assim: “_Vocês acham que somos iguais a vocês, que basta triscar para já ficar duro? Não é assim não. Bu* precisa de lubrificação, de estar com vontade, e tudo começa de manhã, com um café na cama, por exemplo. Aiiií sim, pode ser que à noite a gente esteja com vontade.”
Tia Teresa morreu, que esteja melhor que foi, quando encarnada.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022
Blue
Usados a torto a direito,
enviesado...
Azul é a cor de teus olhos,
a cor do céu -mas se for só de dia,
A cor do mar e dos rios e dos lagos,
nas fotos cada vez cheias de filtro.
Azul marinho é um prato feito
com peixe e banana da
terra.
O azul quando misturado com amarelo se torna verde,
verde e azul se confundem nas opalas,
e nas veias onde corre o sangue azul da realeza, que é vermelho,
mas não nas águas marinhas,
sempre azuis.
Há tantos tons de azuis,
O azul piscina, o azul
marinho e o blue jeans.
Meu cabelo hoje está azul,
amanhã poderá não ser.
Meu carro é azul, mas posso
trocá-lo a qualquer hora.
Não sei a cor de minha aura,
certamente não será azul claro,
talvez um azul bem plúmbeo, quem sabe?
Teus olhos, o céu, o mar...
São de um azul límpido...
Todo esse azul é profundo,
e inatingível.


