quinta-feira, 3 de abril de 2014

A escritora



                E era ela também escritora, de um renome menos consagrado que o do escritor ao qual falamos na semana passada; ganhadora de certo concurso literário, apressava-se quando parabenizada a frisar que o fato da premiação nada tinha a ver com sua amizade com um político, conhecidíssimo por ficar instalado anos a fio na cadeira do executivo e, depois, confortável também no espaldar nobre do corpo do júri, à sombra de sua fama acadêmica. Afinal, enquanto alguns ainda lhe chamassem pelo cargo ocupado no auge da vida acadêmica, outros insistiam em chamá-lo professor, especialmente aqueles que também tinham lida na academia. Embora, já há tempos ele não fosse nem uma coisa e nem outra.
    Bem, nossa personagem de hoje tinha também assento confortável sob a sombra do conselho da instituição que acolhia a biblioteca onde eu trabalhava, e do alto de seu trono me liga a fim de recomendar o filho de um amigo que viria fazer pesquisas para seu mestrado, doutorado, ou seja lá que título fosse (já faz mais de década e o tipo de monografia a ser escrita é irrelevante para o andar da narrativa que não se pretende julgada pela academia).
     Enfim, disse a ela os horários e dias de funcionamento da unidade de informação para que o mesmo pudesse vir para as pesquisas que fossem necessárias: nossa biblioteca estava sempre de portas abertas.
     Em contrapartida, ouço do outro lado a voz fina embaçada por tosses curtas: pois sim, ela sabia dias e horários, ligava apenas para recomendar o tal filho do amigo, a fim de que ele fosse muito bem atendido.
     Ofendido, mas não de todo resignado, apenas respondi que ali todos eram bem atendidos, fossem ou não amigos de membros do conselho.
           Assim encerramos nossa conversa.
O tal rapaz? Nunca apareceu naquela biblioteca.

Foto: Djair - Sombra projetada sobre a calçada - Batatais - SP, 2013.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O escritor



Ainda está vivo e continua sendo um escritor de renome. Sim, laureado, respeitado, cultuado, famoso; e a quem eu muito admirava.
Coube a mim, àquela época, ainda não formado, auxiliar de biblioteca, ainda jovem, mas que respondia por toda parte de referência, a incumbência de atendê-lo em sua pesquisa, para dar-lhe fundamentação teórica para a série de textos que ele iria escrever sob encomenda, para uma renomada revista. O projeto levaria alguns meses e eu animado por tê-lo ali, quem sabe solicitar dedicatória em alguns de seus livros, trocar algumas palavras, ou até mesmo ideias com o como se diz: “monstro sagrado”.
Apreensivo com sua presença dantes anunciada, dia e horário marcados, a primeira das muitas visitas, pois afinal as matérias encomendadas a ele e a quantidade de pesquisas eram trabalho para meio ano. E lá estava eu, alegre, orgulhoso, cheio de ansiedade, aguardando o momento de conhecê-lo.
Chegou, pormenorizou com poucas palavras o que necessitava, demonstrando ali todo seu poder de síntese. Carrancudo... Decerto sentia alguma dor, afinal, a idade a traz com frequência e essa é causa frequente para os maus bofes que por vezes acompanham e justificam a falta de educação e cordialidade.
Depois, apresentou a moça, de beleza comum, simpática na total medida do esforço para sê-lo. E afirmou que seria ela que viria, ele não tem tempo para isso, “of course”!  E assim foi embora. Sem aperto de mão, sem sorriso, sem agradecimento; ele era um deus, não precisava fazer esforços de simpatias ou concessões, ser agradável era desnecessário.
 A moça ficou. Como eu, um tanto sem  graça, e assim continuou nas visitas semanais por meses que não sei precisar quantos. Trouxe-me uma vez um pão de mel, à guisa de agrado. O sorriso não curvava linhas no rosto, não alteava suas maçãs nem lhe diminuía o tamanho dos olhos ou alterava as sobrancelhas.
O escritor? Nunca mais voltou. Afinal, tinha ido ali apenas para assegurar-se que sua empregada teria a atenção necessária, sob as bênçãos de sua luz, no tipo de preconceito que ocorre a uns “grandes”, que acham que apenas eles teriam o merecimento da atenção e bom atendimento, como se o “ofício” da biblioteca não fosse um servir prazeroso e interessado ao usuário e à sua pesquisa, onde o orgulho não estivesse no apresentar, a quem busca, toda a informação disponível e necessária a seus anseios.
Tomei ranço e passei anos sem lê-lo. Mesmo hoje, quando leio seu texto semanal no diário de grande circulação, penso onde estaria aquela cordialidade, alegria e simpatia dos textos? Tudo bem... Ficção... Ainda assim por vezes me parece um tanto embaçado. Para alguns tipos de catarata não existe cirurgia ou tratamento.


Foto: Djair - Biblioteca municipal em Alegre - ES. 
(Que nada tem a ver com o local onde se passa o "causo")



quarta-feira, 19 de março de 2014

A flor do lótus



            E naqueles dias alegres em Florianópolis Felipe foi um dos que contribuiu para boas e grandes risadas, no estúdio de tatuagem de meus sobrinhos ele faz obras de arte nas peles bronzeadas ou nem tantos que vem enfeitar-se a espera do verão.
            Tatuador renomado e conhecido na região, afagando o próprio ego, aquele mesmo que todos nós massageamos vez em quando, falava sobre suas habilidades e assim o papo fluía quando ele vangloriando-se da fama na ilha solta a pérola:
_ Eu sou o chafariz da loja...
É, era pra ser chafariz... Enfim, um lapso...
E ai, eis que chega um rapaz para ser tatuado, e papo vai, papo vem, papo fica, papo estica... O rapaz revela ser gaúcho.
Sem titubear Felipe grita a Erlanderson: _Ah, o cara é teu contemporâneo!
Conversamos sobre uma possível, porém improvável tatuagem que eu viria a fazer, digo que não há nada que eu goste tanto assim a ponto de fazer o carimbo no corpo, e se fizesse teria que ter algum significado... Quem sabe uma flor de Lótus pela sua representação, e assim explico: Por ter suas raízes fixadas em meio à lama e ao lodo, na parte pútrida onde se decompõem matérias orgânicas, o lótus floresce na superfície beleza ímpar. Assim sua simbologia é que você pode estar no ambiente mais degradado, mais inauspicioso e ainda assim manter sua pureza...
Noite de sexta, música para relaxar, churrasco para beliscar, cerveja para refrescar, narguilé para descontrair... E assim risadas inundam a varanda, confirmação sonora da alegria presente.
Na cozinha chego a Jana, que preparava algum outro quitute, e que não estava no estúdio á tarde quando do dialogo acima explicitado : _Jana, pergunte ao Felipe qual o significado da flor de lótus.
Passam-se alguns instantes e Jana:
_Felipe... Qual o significado da flor de lótus?
E ele sem titubear e abrindo um sorriso responde de um só folego: _Rá!!! Teu tio já me ensinou... Significa que você pode estar na merda... Mas a flor nasce!!!

Foto: Felipe Passos - Flor do lótus - Tatuagem (cobertura).

 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

As damas de Araxá


Djair/Fonte D. Beija - Araxá - MG
E fomos recebidos com alegria pela dona da pousada, uma loura de farmácia, como se dizia nas antigas. Magra, escandalosamente risonha e alegre. Tanto que a certa hora ocorreu o maldoso pensamento machista: se prestaria a pousada, digamos... a aluguel de quartos por períodos mais curtos que as diárias? E assim também estaria ela disponível para o frete? Bem, a tal pousada ficava no centro... E afinal os olhos eram vivos, daquele tipo que penetram no outro olhar e fogem rapidamente antes que o outro venha lhe roubar algum segredo... Blusa decotada, calça tão justa que a própria justiça se faz duvidosa.
E o cabelo... Agressivamente louro.
A simpatia extremada era apenas cordialidade, à noite na pousada nenhum entra e sai, nem ruídos, nem suspiro algum vindo de outros quartos, nem barulho de televisão alta se ouvia e o ar condicionado silencioso... Nada de sons como faziam pensar os três envelopes de preservativo sobre o frigobar.
Uma noite e silêncios e sonhos tranquilos e felizes, e pela manhã... O café com leite, pães frescos, bolos, sucos e aquela alegria desconcertante emoldurada por brilhantes olhos perscrutadores debaixo de sobrancelhas finíssimas que têm acima a vasta cabeleira... loura...

***

                A Dama de Araxá está lá, no museu de D. Beija; ela é negra, robusta, e carrega no rosto, sem nenhum esforço, um enorme sorriso, constante, fácil e tão contagiante que em minutos a temos na conta de uma amiga antiga a quem há muito não via. O museu não é extenso, nem as obras profusas, mas a conversa flui solta, de casos locais a lendas da região, e assim, entre a apresentação formal do espaço e das obras que ali habitam, nos pergunta de onde somos, e aí,  conta de coisas que ela mesma viu na cidade da qual viemos quando cá esteve há poucos meses. Os risos fluem fartos com as gafes de viajantes que ela diz ser coisa de caipira.


Djair/Fachada do Museu D.Bbeija - Araxá - MG
                Oferece água e café, imediatamente aceitos mais no intuito de prolongar a prosa que pela própria sede ou necessidade exigida pelo vício em cafeína.
                A visita termina, como se fosse uma visita na casa de amigos, com adeuses e votos de voltem em breve, e de fato o desejo de voltar naquele instante é sincero. E o enorme sorriso e os olhos grandes e brilhantes da Dama de Araxá nos acompanham pelo caminho do Barreiro.

***

                E ali estamos na farmácia a ouvir explicações técnicas e científicas sobre as “poderosas” águas e lamas de Araxá, quando a sisudez formal desaparece junto à entonação estudada quando interrompo:
_Então a lama é boa para clarear essas manchas? – Estendo minhas mãos bordadas por manchas de senilidade e outras tantas pelos respingos comuns de água, azeites e óleos: coisas de quem cozinha, e outras tantas de fagulhas de fogueiras mil e fogões a lenha acendidos apenas para estar perto do fogo, sem que os circulares carimbos das brasas se diferenciem daquelas manchas senis ou aquelas das outras. E então ela afirma que sim, que ajuda bastante.
E então pergunto:
_Sabe como se chama isto?
Ela não diz que são manchas senis, o protocolo não permite, e ela engasga, indaga: _Como?
E eu rapidamente respondo: _ Flores de cemitério! E lhe arranco a primeira gargalhada com o chiste aprendido com Eliana Asche.
Nesse momento adentra o recinto outra cliente, impaciente, com tiques de pressa e nervosismo. Antipática. Não, não estresso, afinal, as águas de Araxá comprovam seus efeitos benéficos. A cidade, a paz do lugar, as calçadas largas, a visão do horizonte, estou envolvido pela calma e beleza do lugar, que nem lembro que breve terei que voltar ao monstro com seu caos de trânsito, gente, concreto e barulho. Tudo em excesso. Digo à vendedora que pode atender a outra, não tenho pressa, enquanto isso, olho outros produtos.
Djair/ Fonte D. Beija ( interiror) - Araxá - MG
A estressada (num lugar daqueles???) pede dois potes grandes da lama para tratamento rejuvenescedor (não vai adiantar, penso eu), e sai apressada quase a tropeçar no próprio nariz de tão empinado. Olho para vendedora com cumplicidade (agora só minha) e dou som ao verbalizar maledicências:
_É, ela está mesmo precisando, devia ter levado mais.
Nova gargalhada; agora a moça séria já consente rir e brincar, e ri quando digo que ela devia fazer plástica de pobre, que ela indaga como seria e eu afirmo: _ É Simples, é só engordar que o rosto fica cheio e estica as rugas. Somem todas!
Os pequenos pacotes de lembranças ficam caprichados, saímos do boticário alegres, com as compras, com os chistes... Dentro dele uma moça, já entrada em anos, fica rir dos mesmos gracejos. Sopra uma brisa fresca, o sol nos abençoa, sorrindo.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Remendo


Como quem une pontinhos
para formar desenhos em jogos infantis
colo teus cacos
costurando teus pedaços;
nas tuas cicatrizes deixo meus vestigios
te refaço
usando como forma meus princípios
e assim tu não tens fim
só inícios.


Foto: Djair - Paisagem além da janela - Pirenópolis