domingo, 17 de setembro de 2017

Segurança

Parque Dom Carlos I
Cá em Caldas da Rainha, Portugal, percebo o quanto nos faltam diversas coisas no Brasil, tolerância, dignidade, respeito, autoestima, segurança. Não que passassem despercebidos antes, ao contrário, sempre foram percebidos, mas o contraste quando se vê é ainda maior, das duas vezes anteriores que vim a Europa foram viagens de turismo e o olhar turístico também nos faz perceber muitas coisas, lembro que a primeira vez na Espanha, em Sevilha, as três da madrugada caminhávamos voltando de uma apresentação de flamenco onde o jantar ainda mais se estendeu, era uma rua semi-deserta, um tanto escura, onde haviam trechos em obras, e me surpreendi com um casal a sacar dinheiro em um caixa eletrônico sem sequer olharem para os lados, vês essa cena aí no Brasil? Outrossim, os caixas eletrônicos aqui são apenas máquinas encaixadas em uma parede qualquer, sem qualquer aparato de vidro ou paredes a cercá-lo, uma máquina na parede á beira da calçada e pronto. Enquanto que no Brasil custam mais caro, ao mais das vezes ergue-se um cômodo de vidro… É como as estações de metrô com pisos de mármore, redomas de vidro, enquanto cá são apenas também acessos, com piso de cimento, entra-se e pega-se o trem. Nada contra as estações da Paulista onde vemos obras de arte, painéis de Tomie Ohtake, reproduções de obras do Masp. Isso é outra coisa, é arte, já tão em falta e vilipendiada. Mas pisos de mármore redomas de vidro na entrada quando se tem uma linha pífia parece um tanto desnecessário.


Uma vez, comentando com um amigo sobre essas coisas, disse-me ele que Anne-Aymone Sauvage de Brantes, esposa do presidente francês (Valéry René Marie Georges) Giscard d'Estaing em sua visita ao Brasil (1978) teria perguntado como um país tão pobre como o Brasil podia usar tanto mármore simplesmente revestindo paredes de prédios. Até já citei isso no texto “Observações esparsas sobre uma cidade sem eixo narrativo”. Aqui no blog, quando falava sobre os prédios (feios) de Macéio, que não tem praticamente recuo (pelo menos em trechos que visitei), mas são revestidos com essa pedra. Bem, quem quiser clique acima e leia o texto, esse é sobre outras coisas…

Mas o que me despertou para esse texto foi um acontecido, por estar a residir próximo ao Parque D. Carlos I, Bem, ontem a noite já começava a escurecer, deviam ser entre 20 h a 20h30, pois bem, muitas pessoas cruzam o parque como um atalho, e eu descia por sua lateral, e fazer o mesmo, por uma das trilhas de terra, ladeada pelos ciprestes, pois bem, segundos antes de entrar por esse portão, entra lá também uma moça com algumas sacolas de compras, em seguida entro eu, vendo-a descer uma rústica escada feita pelas raízes das árvores de ali, pensei: Ela irá se assustar com uma figura masculina a seguir-lhe os passos a essa hora, com o escurecer do crepúsculo, e o deserto com que se torna o parque a essa hora devido ao vento frio que corria. Lembrei-me da insegurança das mulheres nos campus universitários do Brasil, dos ataques e violências de toda espécie. Pois muito bem, a moça continuou seu caminho, e embora eu tenha atrasado o passo em atenção a ela e sua sensação de segurança, a mesma sequer olhou para trás, manteve seu caminhar a mesma velocidade e atravessou o parque num sentido ainda menos movimentado do que o que eu segui.

Vitrine de loja de Cerâmica em Caldas da Rainha - Foto: Djair
Há também aqui as famosas cerâmicas que tradicionalmente trazem a forma de falos, de tamanhos variados, desde a miniatura até os Hercúleos de proporções assombrosas, de todas as cores possíveis, dos mais diversos formatos, inclusive o famoso caralho de asa. Estão às vitrines de todas as lojas, sem que ninguém se choque, sem que nenhum “cidadão de bem” ou fanático religiosos que não fez terapia para tratar seus recalques vá a um juiz igualmente tosco para proibir-lhes a exibição e comércio, ou que lhes quebrem as vitrines… E em seu sossego, sem censura, dizem cá os artesãos que o fazem, após encerrarem seu turno de trabalho: “Hoje já não faço mais caralho nenhum!”


Difícil terminar o texto sem emitir mais algum juízo de valor, então termina aqui, como começou, com reflexões e sentimentos variados. Que possamos todos sentir-nos seguros.

12 comentários:

  1. Só quando nos afastamos, percebemos o quão paranóis nos tornamos pela triste realidade de nosso país

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    1. Temos ainda que aprender a brigar pelas coisas certas... Um dia chegamos lá. "Ou não" como diriam Caetano e Adriana Loche.

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  2. Poder partilhar de um ambiente seguro assim é um sonho.

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    1. Bem anônimo, enquanto acharmos que a solução é erguer muros mais altos, isolarmo-nos com cercas elétricas ao invés de exigirmos nosso direito de estar as ruas com segurança, continuará a ser utopia...

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  3. Pois é Djair. As histórias que escuto e leio dos amigos que tem o privilégio de visitar ou morar no exterior, me faz repensar duas vezes que o Brasil se entrou em um caminho sem volta. A coisa sempre foi feia por aqui, mas hoje em dia está mais feia ainda. Um grande abraço do Baratta.

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    1. É Baratta, sinto concordar, mas todo caminho há volta... Basta parar de brigarmos por coisas erradas por vantagens particulares enfim... Tá difícil, tá difícil... Eu sei...

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  4. Que maravilhosa loja de cerâmica! Já estou apaixonada por Caldas da Rainha.

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    1. Anônima, eu sei quem você é, sabia que ias adorar. Aliás como dizíamos: "Como é que pode"?

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  5. Como estamos ainda longe de chegar lá... a insegurança é reflexo da nossas diferenças sociais tão grandes e ficarão maiores ainda...

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    1. É anônimo, elas se acentuam, e de tal forma que já não se sabe o que é luta de classe, o que é violência gratuita, o que é resposta as intolerâncias, vantagens individuais, marginalizações... E por aí vamos...

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  6. Pensei a mesma coisa, já me animei em conhecer kkkk

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    1. Pois é Elem, algo de jocoso havia de ter no texto, não? Assanhada! Olha que Homero te dá um couro. rsrs

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